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Terror noturno é comum entre seis e 12 anos; veja como agir se seu filho sofre do problema

 
A criança se comporta como se estivesse em perigo, grita, o coração fica acelerado. Parece ver ou sentir algo amedrontador, mas, apesar de toda a agitação e de até ficar de olhos abertos em alguns casos, ela está dormindo. A cena, descrita pela psicóloga clínica e terapeuta cognitiva Margarida Antunes Chagas, retrata um episódio do chamado terror noturno, distúrbio do sono incidente, principalmente, entre os seis e os 12 anos.

“Embora sério no momento em que ocorre, pois costuma assustar quem o presencia pela intensidade da manifestação, esse distúrbio é benigno e tende a desaparecer com o tempo, conforme o amadurecimento dos mecanismos do sono”, afirma a neurologista Márcia Pradella-Hallinan, coordenadora do setor de pediatria do Instituto do Sono, em São Paulo.
 
Fases do sono: O sono é um estado que se alterna com a vigília. Nele são identificados duas fases distintas: o sono mais lento, ou sono não REM, e o sono com atividade cerebral mais rápida, ou sono REM (do inglês, movimentos rápidos dos olhos). O sono não REM é dividido em estágios segundo a progressão de sua profundidade. Já o sono REM caracteriza-se por movimentos oculares rápidos e de relaxamento muscular máximo. É nele que ocorrem os sonhos.O sono não REM e o REM alternam-se durante a noite. Normalmente, o não REM se concentra na primeira parte da noite. E o REM predomina na segunda.  Fonte: Instituto do Sono
 
Segundo a médica, é como se o cérebro não soubesse ainda alternar entre os estágios do sono e ficasse “encalhado” entre eles. Essa dificuldade de transição faz com que haja sobreposição do sono profundo com um despertar, daí a crise é desencadeada. A criança parece que está sonhando ou que teve pesadelo, mas não se lembrará de nada, independentemente se acordar durante o episódio ou na manhã seguinte.
O fato de a criança não se lembrar é um dos fatores que diferencia o terror noturno de um pesadelo comum. No caso do sonho ruim, ela é capaz de contar sobre o que estava sonhando e às vezes até de identificar o que a deixou com medo. No terror noturno, é como se nada tivesse acontecido.

“O pesadelo e os episódios de terror acontecem em fases distintas do sono. O primeiro tem lugar no chamado sono REM, mais próximo do despertar, quando o sono está mais superficial. Já o segundo acontece em um período bem profundo do sono”, diz o neurologista Saul Cypel, neuropediatra do Hospital Israelita Albert Einsten, de São Paulo, e consultor da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, voltada à primeira infância.
Para ajudar os pais a lidarem com esse distúrbio, o UOL Gravidez e Filhos reuniu informações sobre as perguntas mais frequentes sobre o assunto:

O terror noturno é herdado?

 De acordo com a especialista Márcia Pradella-Hallinan, não há um gene que transmita o terror noturno, mas a forma como a criança amadureceu em relação ao sono pode ter sido “herdada” de familiares. A especialista diz que mais da metade das crianças com qualquer manifestação de parassonia do despertar –sonambulismo, terror noturno, choro inconsolável do bebê– tem um parente próximo que teve o mesmo quadro
 
Quanto tempo dura um episódio de terror noturno? O que acontece com a criança durante a crise?
A duração é de cinco a 15 minutos em média. Segundo a psicóloga Margarida Antunes Chagas, durante a manifestação, a criança pode até se levantar da cama. Se acordar abruptamente, continuará amedrontada, pode não reconhecer as pessoas e ficar agressiva.

O que fazer quando acontece uma crise?

 Se a criança sair da cama, os pais devem conduzi-la calmamente para que ela se deite de novo, sem acender luzes ou expô-la a fatores que possam despertá-la. Acordá-la, em vez de interromper a crise, pode prolongar o episódio.
É necessário acompanhar o momento e oferecer proteção e carinho, principalmente nos casos em que a criança apresenta sonambulismo ou comportamento agressivo, correndo o risco de causar danos físicos a si. Para evitar que ela se machuque, algumas medidas preventivas são necessárias, como colocação de redes de proteção em janelas e portões em escadas e esconder chaves e objetos cortantes.

Estabelecer uma rotina tranquila antes de ir para a cama pode evitar as manifestações?

 Segundo a neurologista Márcia, do Instituto do Sono, ajudar a criança a ter um sono mais tranquilo não impede que o terror noturno se manifeste.
“De toda forma, ter cuidados com a alimentação, investigar se algum medicamento em uso pode estar acentuando os episódios, diminuir a ansiedade, caso a criança esteja passando por um momento de estresse, e oferecer conforto físico e emocional antes do sono é sempre muito importante”, afirma a terapeuta Margarida Antunes Chagas.

Com que frequência pode acontecer e quando os pais devem procurar ajuda?

 Na maioria das vezes, os episódios são esporádicos e o período de ocorrência varia de criança para criança. Algumas têm semanalmente, outras no espaço de dez a 15 dias. Em casos raros, várias vezes durante a mesma noite.

“Se forem frequentes, vale a pena procurar um especialista para avaliação. Quando a qualidade do sono da família estiver sendo prejudicada e tiver havido acidente associado a um episódio, é indicado procurar ajuda médica”, diz Márcia Pradella-Hallinan, do Instituto do Sono.

Para a psicóloga Margarida, também é válido procurar um médico no caso de a criança apresentar prejuízos emocionais ou em suas atividades diárias.

Fatores emocionais podem ter ligação com as crises de terror noturno?

 “Servem como favorecedores em um terreno predisponente”, afirma a neurologista do Instituto do Sono. Quando a criança não tem predisposição, segundo a profissional, a chance de um episódio acontecer é muito menor.
No entanto, para o neuropediatra Saul Cypel, do Einstein, os fatores emocionais devem ser levados em conta. “Pela observação em consultório, vejo que muitas crianças que apresentam o distúrbio têm também algum transtorno em seus aspectos emocionais.” De acordo com Cypel, por vezes, são intolerantes durante o dia e apresentam dificuldade de lidar com regras.
Para o neuropediatra, crianças que manifestam certa dose de insegurança e medo quando estão acordadas e que não têm maturidade emocional adequada para a idade tendem a manifestar, mais do que as outras, alterações do sono. Daí a importância de os pais buscarem orientação de como lidar com o filho que apresenta esse tipo de distúrbio não apenas no que tange o problema, mas também em outros aspectos comportamentais.
 
Fonte: Uol

TOCando os medos: conhecendo o Transtorno Obsessivo-Compulsivo

Ansiedade, rituais, pensamentos obsessivos, verificações, contagem e comportamentos supersticiosos. Esta é a rotina de pessoas que apresentam o transtorno obsessivo- compulsivo (TOC). Estas características acarretam enormes prejuízos à qualidade de vida e ao funcionamento social do indivíduo. Embora acometa pessoas de todas as idades, os melhores prognósticos envolvem os tratamentos precoces, especialmente na infância. Sim, crianças também apresentam o transtorno: a idade média de início é de 9,6 anos para os meninos e de 11 anos para as meninas (Koran, 1999) [1]. Pais bem informados podem detectar precocemente o transtorno, e este texto busca contribuir para isso.
 
Como o próprio nome indica, o TOC define-se essencialmente pela presença de pensamentos persistentes, impulsos ou imagens que são intrusivos e sem sentido e também por comportamentos repetitivos, premeditados e intencionais que são desempenhadas em resposta a uma obsessão. Esta, por sua vez, destina-se a evitar desconforto ou algum evento ou situação temidos. Observa-se, portanto, que as obsessões são eventos cognitivos (comportamentos privados) e as compulsões são comportamentos públicos. A denominação privado e público se deve pelo fato de que, no primeiro caso, só o sujeito tem acesso – a menos que os explicite através da fala (comportamento verbal) – e, no segundo caso, pelo fato de serem observáveis pelos outros.
 
Diante dos pensamentos obsessivos, o sujeito se vê em uma situação em que precisa fazer algo para cessá-los. Portanto, ao se comportar compulsivamente, obtém alívio decorrente do contato com o estímulo (físico ou privado). As obsessões e as compulsões podem estar conectadas ou mesmo ocorrer independentemente uma da outra. Outra característica é a de que os indivíduos adultos, pelo menos inicialmente, reconhecem a ausência de sentido das suas obsessões e compulsões. Esse mesmo motivo os impedem, muitas vezes, de expor para as outras pessoas, pois temem que os outros menosprezem o sofrimento ou mesmo chacoteiem os comportamentos. Cabe destacar que esta é uma característica de adultos com TOC. As crianças, em geral, não reconhecem a irracionalidade de seus comportamentos.
 
Os cientistas tem conseguido elucidar vários fatores que contribuem para o surgimento do TOC. O que se sabe, até então, é que aspectos genéticos, neuroquímica cerebral, lesões ou infecções cerebrais (como febre reumática), além das questões psicológicas, como aprendizagem de regras distorcidas e ambiente coercitivo estão dentre as variáveis que aumentam a propensão do desenvolvimento do TOC [2]. Ou seja, há o componente neurológico, mas também as variáveis psicológicas e culturais, que, somadas, resultam em hiperatividade de certas zonas cerebrais nos indivíduos acometidos pelo transtorno. Tais alterações, no entanto, podem ser revertidas com terapia medicamentosa e psicoterápica.
 
Adentrando no âmbito da aprendizagem, ilustremos exemplos de variáveis ambientais presentes na infância que podem desencadear o TOC, considerando a obsessão mais comum [3], que é a preocupação excessiva com limpeza, seguida de lavagens repetidas.
 
Na primeira experiência com a paternidade/ maternidade, é comum que os pais se vejam excessivamente preocupados com a saúde do bebê, mais especificamente quanto à possibilidade de doenças. Um contexto favorecedor para isso é a própria fragilidade do organismo da criança, pois seu sistema de defesa ainda está sendo aperfeiçoado. Daí, então, a necessidade de uma rotina que envolva cuidados específicos para evitar contaminações e, consequentemente, doenças. Se a higienização adequada (ou mesmo caprichada) for algo muito valorizado na família, nada mais natural que os filhos também aprendam a valorizá-la bastante, também.
 
Uma criança pode adquirir o comportamento de lavar as mãos sistematicamente por alguns mecanismos de aprendizagem. Ela aprenderá por imitação caso alguma pessoa significativa (modelo) emita esse comportamento e, ao imitá-la, ela receba reconhecimento social (atenção, afago, elogio, etc).
 
Caso os pais se preocupem excessivamente com contaminações, exigindo de seus filhos a higienização caprichada e frequente das mãos, emitindo regras do tipo “se não lavar as mãos após pegar em algo, vai aparecer um monte de germes que vão te deixar doente”, reconhecendo e valorizando quando a criança seguir a regra conforme especificaram, ela aprenderá a higienizar as mãos de forma frequente e caprichada.
 
Se, por exemplo, o infante for criticado ou castigado por não lavar as mãos (“Você não pode comer se não lavar essas mãos imundas antes”), ao higienizá-las ele estará se comportando mediante esquema de fuga-esquiva, uma vez que buscará agir assim para evitar as consequências aversivas descritas pelo adulto.
 
Outra possibilidade é quando são emitidas verbalizações que distorcem a realidade a respeito de sujeira, mediante a experiência individual do falante. Por exemplo, “as mãos são a porta e a janela de entrada para infecções” ou “germes estão por toda a parte”, “basta a pessoa tocar em objetos sujos para ficar doente”. Dessa forma, cria-se uma regra que é distorcida pelo fato de maximizar os riscos. Assim, ao lavar as mãos, pode-se sentir o alívio por não ficar doente ou não se sentir contaminado.
 
Dessa forma, serão esses contextos que farão parte do desenvolvimento comportamental. A criança pode adquirir não apenas o comportamento de lavar as mãos, mas também pensamentos e/ou imagens a respeito disso, além de sentimentos associados ao comportamento em questão (alívio e prazer, por exemplo). Por estas sensações e também por verificar que assim agrada aos adultos, ela até pode dizer que gosta de lavar as mãos, ou que se sente bem com as mãos sempre limpas. Quanto mais estes comportamentos forem estimados por adultos significativos, mais eles serão mantidos no repertório comportamental da criança.
 
Cabe destacar que, para o paradigma da Análise do Comportamento, o fazer (no caso, “lavar as mãos”) ou pensar (como “sujeira causa doenças”) são comportamentos produzidos pelos mesmos contextos, ou seja, não existe hierarquia de relevância entre eles, tampouco uma linha causal em que um determina o outro.
 
Ao deparar-se com estas linhas, talvez o leitor se identifique ou se questione se tem ou não TOC. Talvez até já se autodiagnostique como portador do transtorno! No entanto, cabem aqui algumas considerações.
 
Os medos e as preocupações são inerentes ao nosso cotidiano e o modo como aprendemos a conviver com eles é através de certos hábitos cuidadosos. Ou seja, ao cozinhar, temos o cuidado de desligar o fogo; lavamos as mãos antes de comer ou de pegar em animais domésticos e verificamos o saldo da conta bancária periodicamente para planejar investimentos (ou para evitar constrangimentos diante de uma compra). No entanto, quando tais comportamentos são frequentes, excessivos ou supersticiosos, acontecerão prejuízos ao funcionamento social e desorganização da rotina pelo fato de eles consumirem tempo.
 
No caso, a pessoa não só verificará uma vez se o gás está desligado, mas várias (e várias!) vezes. Não apenas trancará a porta, mas a abrirá e fechará inúmeras vezes até se sentir menos ansiosa para sair. Poderá criar regras em que precisará repetir palavras mentalmente ou evitar digitar/ escrever uma palavra ou letra, pois caso contrário alguma tragédia acontecerá. Estes exemplos, claramente, se configuram como problemáticos. Associações do tipo “se não fizer isso, acontecerá o pior” certamente atormentam o sujeito. Algumas delas serão ilógicas, mas perfeitamente cabíveis ao sujeito, por proporcionarem alívio da ansiedade decorrente da esquiva das consequências aversivas. Assim, o que configura o TOC é não somente a presença de obsessões e compulsões, mas uma série de critérios diagnosticáveis apenas por especialistas, além dos prejuízos que devem ser percebidos pelo próprio sujeito ou por seus familiares.
 
Detectado o transtorno pelo psiquiatra ou psicólogo, o indivíduo pode ser tratado através de algumas modalidades terapêuticas. Os tratamentos mais efetivos no momento incluem o uso de medicamentos específicos, receitados pelo psiquiatra, além de psicoterapias. Nesse âmbito, é reconhecida a eficácia das terapias comportamentais (a saber, terapia analítico-comportamental e cognitivo-comportamental). Alguns de seus objetivos, apontados por Copque e Guilhardi (2009) são:
 
  • Confrontar as auto-regras distorcidas em torno das obsessões e compulsões, eliminando-as ou as substituindo;
  • Orientar e motivar a família a reorganizar as situações que até então vem mantendo os comportamentos indesejados;
  • Impedir o comportamento de fuga-esquiva supersticioso (por exemplo, fazer o paciente sujar as mãos, mas impedir que ele as lave). Esse método, como pode-se verificar, tem o propósito de fazê-lo perceber que não há a moléstia, mesmo não tendo se descontaminado. No início deste procedimento há um aumento da ansiedade, mas com a persistência do contato, tenderá a decair com a constatação de que a contaminação não ocorreu. Dessa forma, a pessoa pode se habituar com o estímulo aversivo e diminuir a frequência das compulsões;
  • Favorecer o contato com os estímulos que causam a contaminação para quebrar a regra que sustenta a obsessão.
Por envolver ciclos entre pensar e fazer, que se repetem até que haja alívio da ansiedade, caso haja cronicidade de tais padrões comportamentais é possível que haja dificuldades na reversão do quadro. O paciente, acostumado com a zona de conforto, dificilmente se sentirá motivado a mudar os “padrões disfuncionais”, pois o contato com os estímulos ansiogênicos é ameaçador. Dessa forma, quanto antes ocorrer a busca pelos tratamentos, melhor é o prognóstico. Daí a necessidade de se estar bem informado e atento ao comportamento infanto-juvenil para que maiores agravos posteriores sejam evitados.
 

[1] Koran, L.M. (1999). Obsessive-compulsive and related disorders in adults. A comprehensive clinical guide. Cambridge.
[2] Cordioli, A. V. (2004). Vencendo o transtorno obsessivo-compulsivo. Porto Alegre: Artmed.
[3] Outros exemplos são as dúvidas (se fechou a porta de casa, se tem dinheiro na carteira, se desligou o gás da cozinha, entre outros), seguidas de verificações compulsivas.
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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
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”Meu marido não me ajuda o suficiente”

Esta matéria foi elaborada pela jornalista Cristiane Marangon, do Site do Bebê (Editora Abril) em setembro de 2012, tendo como uma das entrevistadas a psicóloga e colunista do Blog do InPA Juliana de Brito Lima.
 
Se você se identificou com o título desta matéria, chame-o para lê-la com você. E saibam, de cara, que pais que dividem as tarefas de cuidados e acompanham de perto a educação dos filhos criam laços afetivos mais fortes na família
 
A rotina começa bem cedo. Na verdade, ela se emenda com as tarefas do dia anterior. Nem são cinco horas da manhã e o bebê já mamou. Agora, ele dorme uma soneca que deve durar até por volta de 8h30. A vontade de voltar para a cama é enorme, mas não posso. O dever me chama! Aproveito esse tempo para fazer todas as coisas que não dizem respeito diretamente ao pequeno. Pagar contas na internet, relacionar as compras de mercado, tomar café da manhã (é tão básico, mas, às vezes, não dá tempo) e trabalhar (muito!)… Na agenda, não sobra um espacinho livre.
 
Na hora de conceber o bebê, todo mundo sabe, é preciso um homem e uma mulher. Trata-se de uma questão biológica. No entanto, depois que ele nasce, entra em cena só a mãe (ou quem ocupa esse lugar). “Na linha evolutiva, ela tem preparo filogenético para a maternidade, o que envolve o zelo, o cuidado, o amor, a alimentação e a higienização”, explica a psicóloga Juliana de Brito Lima, de Teresina (PI), e também colunista do blog do Instituto de Psicologia Aplicada (InPA), de Brasília (DF).
 
O fato é que a mulher contemporânea faz muito mais do que só cuidar do bebê. Eu, por exemplo, ainda tenho de me dividir entre os carinhos e os cuidados destinados à filha mais velha, que tem 6 anos, além de ser esposa e dona de casa. Com quem dividir essa sobrecarga? “O papel do pai é tão importante quanto o da mãe para promover acolhimento, crescimento e desenvolvimento adequados para a criança. Isso fortalece os vínculos familiares”, afirma a pediatra neonatologista Vera Fidelman Ramalho Valverde, do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo. “Com exceção da amamentação, que é realmente exclusiva da mãe, o pai pode contribuir muito ao dar apoio à mulher, além de ajudar em outros afazeres.”
 
Embora ainda em um ritmo não satisfatório, Vera destaca um avanço. “Tenho percebido cada vez mais o pai presente nas consultas ao pediatra, demonstrando o seu interesse em participar ativamente no acompanhamento do seu filho, algo que, há alguns anos, era muito raro”, constata. Ainda que o homem não possa estar presente na consulta, o que se espera é que ele se interesse pelo desenvolvimento do pequeno. Lembrar-se de administrar a vitamina ou o medicamento receitado e das datas de vacinação ajuda bastante.
 
Em casa
 
Desde sempre, meu marido se envolve com a rotina caseira. Logo que acorda, ele lava toda a louça do jantar do dia anterior, mas logo tem de sair para o trabalho. Quando volta para casa, ele se encarrega do jantar, do banho dos filhos e de outras coisinhas que vou pedindo para ele, como segurar o bebê, trocar a fralda, pegar um brinquedo para a nossa filha. “Dar afeto, garantir segurança, alimentar, higienizar, brincar e educar são os cuidados que podem ser assumidos pelo homem”, orienta Vera. “Com o crescimento da criança, o pai poderá continuar contribuindo em várias situações.”
 
Muitas mulheres, no entanto, não contam com a mesma sorte. Há companheiros que não se implicam no processo. “O modo como o parceiro foi criado sinaliza qual a visão que ele tem de mãe”, explica Juliana. “Se há a concepção de que a mulher deve concentrar todos os cuidados da criança, provavelmente, ele só fará tarefas se solicitado.” Então, um aviso para quem é dessa turma: “Quanto mais o pai se faz presente no cotidiano do filho, melhor se desenvolvem os laços afetivos e o apego da criança com ele”, constata a psicóloga. Por outro lado, vale também a observação de que nem sempre o homem consegue espaço, pois, muitas vezes, mãe e avó materna se alternam entre os cuidados com as crianças, deixando-o sem função específica.
 
Quando o homem fica por perto, acompanhando as tarefas, pode aprender por observação. Se a mulher passa as instruções de como trocar a fralda, por exemplo, passo a passo, a aprendizagem se torna ainda mais efetiva. Caso ele tenha dificuldades na execução, é importante que sua parceira não aja com intolerância, agressividade ou ironia. “É necessário ter paciência, incentivar a fazer novamente, corrigindo a falha e reconhecer quando ele se engajar em algo, agindo de modo carinhoso, como agradecer com um beijo. Indiretas do tipo ‘ninguém me ajuda mesmo’, expressões faciais que indiquem raiva ou chateação, ou qualquer outro sinal não verbal que revele a sobrecarga costumam desgastar a relação”, analisa Juliana.
 
Não vou negar que já perdi a paciência algumas vezes. No auge do cansaço, quando o sono não está em dia, a casa está uma bagunça e ainda tem uma pilha de roupinhas do bebê para passar, já parti para a ofensiva. Para mim é tão óbvio o que deve ser feito… Mas não posso desconsiderar que a rotina é muito familiar a mim. Eu gostaria sim de mais proatividade, mas, assim como no mundo profissional um bom gestor diz claramente o que espera de sua equipe para que todos alcancem o sucesso, meu papel é ser clara nessa comunicação para, só assim, cobrar resultados.
 
Na escola
 
Não bastasse a rotina em casa, à mulher também cabe a tarefa de acompanhar o percurso educacional dos filhos. “É possível perceber não só na fala, mas na expressão reveladora das mães que, muitas delas, devido o acúmulo de tarefas, estão cansadas e solitárias nesse processo”, pontua Bete Godoy, do Instituto Para Além do Cuidar e coordenadora pedagógica da rede municipal de ensino de São Paulo. “Quando a instituição escolar acolhe, respeita e estabelece uma parceria compartilhada, ela se sente mais segura nessa caminhada.”
 
No entanto, é mais democrático dividir entre os adultos os direitos e os deveres também no que diz respeito à educação escolar dos filhos e os demais afazeres que uma criança necessita para o seu desenvolvimento. Em casa, eu e meu marido acompanhamos, participamos e decidimos em conjunto sobre o rumo da educação escolar de nossa filha. Além de marcarmos presença em todos os eventos da escola (festas, feira do livro, reuniões e palestras), nos alternamos nas tarefas de levar, de buscar, de preparar o lanche, de ajudar nas lições de casa, de arrumar a mochila, de deixar o uniforme em ordem etc. “Quando isso acontece desde cedo, os laços afetivos, morais e sociais são mais intensos e saudáveis”, ressalta a pedagoga.
 
Os pais que participam das reuniões, colegiados, eventos realizados na escola e também do acompanhamento mais próximo, seja nas tarefas que a criança realiza, seja conversando com os professores sobre o que elas sabem ou têm dificuldade contribuem muito para uma parceria entre escola e família e para o desenvolvimento infantil.
 
Quando o pequeno sabe que pode contar com o cuidado e a atenção dos pais, cada um à sua maneira, ele se sente amado, seguro na constituição de sua identidade e no desenvolvimento da autonomia moral e intelectual. A alegria que as crianças demonstram quando a família prestigia suas produções, quer saber como foi que realizaram ou mesmo quando são capazes de reconhecer sua marca é um enorme convite para novas experiências e aprendizagens.
 
Fontes
Bete Godoy, do Instituto Para Além do Cuidar e coordenadora pedagógica da rede municipal de ensino de São Paulo, blog http://paraalmdocuidar-educaoinfantil.blogspot.com.br/
Vera Fidelman Ramalho Valverde, pediatra neonatologista, do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo
 
Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
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Exploração e Abuso Sexual de Crianças e de Adolescentes

O abuso sexual é definido como uma situação em que uma criança ou um adolescente é usado para a gratificação sexual de um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho, com mais de 16 anos e 5 anos mais velho que a vítima. O abuso sexual geralmente é praticado em situações nas quais o adulto induz a criança ou o adolescente, por meio de sedução, mentiras, promessas, presentes, ameaças e até violência física.
A exploração sexual de crianças e de adolescentes caracteriza-se pelo uso deles com fins comerciais e de lucro, seja levando-os a manter atividades sexuais com adultos ou adolescentes mais velhos, seja utilizando-os para a produção de materiais pornográficos como revistas, filmes, fotos e sites na Internet. São considerados exploradores, o cliente que paga pelos serviços sexuais e, também, os intermediários que induzem, facilitam ou obrigam crianças e adolescentes a se prostituírem. Há ainda aqueles, geralmente homens mais velhos, que iniciam adolescentes na vida sexual, sem terem a intenção de estabelecer qualquer vínculo afetivo duradouro com eles. Eles usam a sua capacidade de sedução para conquistá-los e se enaltecem com isso. Para manter o status de conquistador, fazem revelações de suas “proezas sexuais” e apresentam materiais, como fotos, filmes, gravações em áudio, demonstrando a intimidade que eles têm com a vítima.
Em uma pesquisa realizada a partir da análise de documentos de processos de casos denunciados de violência sexual ajuizados pelas Promotorias Especializadas na Infância e na Juventude de Porto Alegre, constatou-se que 80,9% das vítimas de abuso sexual eram do sexo feminino e 19,1% do sexo masculino. A maioria das crianças abusadas tinha entre 5 e 10 anos, mas havia casos de crianças de 1 e 2 anos de idade. De forma geral, a denúncia é feita quando a vítima já é adolescente: 42,6% apresentavam idade entre 12 e 18 anos, quando a situação abusiva foi delatada. Esses são dados de denuncias ajuizadas, mas de acordo com o depoimento de Alda Inácio, é muito comum as pessoas terem medo de fazer a denúncia.
Alda Inácio tem um  site na Internet (http://www.pedofilia-nao.inf.br), através do qual ela faz uma campanha contra a exploração e o abuso sexual de crianças e adolescente. Em contato pessoal, ela escreveu que são raras as pessoas que se interessam em fazer um trabalho nesse campo. “A maioria das pessoas não quer nem pensar que esses crimes são verdadeiros, até que aconteça dentro da sua própria família”. Diz ela que pelo  site são recebidas muitas denúncias de pessoas que têm medo de fazê-las pessoalmente, e que ela, então, as envia para a Polícia Federal.
Decidi escrever sobre este tema, contextualizando-o na história de Mauro, Maria e Pedro, porque o abuso e a exploração sexual de crianças e de adolescentes, além de ser um grande problema de saúde pública é um problema psicológico grave. Do ponto de vista psicológico, devemos considerar não somente a vítima, como, também, o abusador e a família de ambos. Todos eles necessitam apoio psicológico, pois todos sofrem com essa situação. Além disso, o abusador ou estuprador que for preso, mas não receber tratamento psicológico, certamente voltará a praticar esse tipo de crime ao ser solto.
Na história de meus personagens, Maria descobriu que seu noivo esteve preso em Portugal, por ter sido acusado de ter abusado de uma menina na escola em que trabalhava. Maria ficou chocada e indignada. Pedro havia sido violento com ela, mas ela não imaginava que ele tivesse um distúrbio de comportamento tão grave assim. Ela sentiu muita raiva, mas aos poucos foi se acalmando e começou a pensar no sofrimento da mãe dele e considerou que ele, igualmente, deve sofrer muito. Ao comentar, com sua amiga que estava com pena dele, Corina reagiu explosivamente:
-Você não está pensando em desistir de denunciá-lo pelo que ele fez com você! Está?
-Corina, eu estou com dó do Pedro. Embaixo daquela couraça, tem uma pessoa que deve sofrer muito.
Ele é um coitado!
-Tá bom, Maria! Mas vê se não desiste de fazer a denúncia, pois se não, você é que vai fazer os outros sentirem dó de você. E tenho certeza, que ele não se sente culpado pelo que fez a você e àquela menininha lá de Portugal.
- É verdade, gente assim não sente culpa. Eu nunca vi o Pedro arrependido de algo que tenha feito. Ele não sabe pedir desculpas. Se não for denunciado, vai continuar fazendo o que bem entender. Eu não posso pensar só em mim, né?
Corina e Maria estão certas quanto ao fato de que pessoas com distúrbios de comportamentos graves, como assassinos, estupradores e abusadores de crianças e de adolescentes, raramente sentem culpa. Essa é uma das grandes dificuldades para que se possa submetê-los a tratamento psicológico.
Professora da Universidade Estadual de Londrina
Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo

Amigos Imaginários

Uma em cada três crianças nutre temporariamente uma relação existente apenas na fantasia – o que não é motivo para preocupação
 
 
Vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum: perambulamos por chats, blogs e twitter e trocamos informações e segredos com pessoas com quem mantemos relacionamentos virtuais, às vezes bastante íntimos. Mas e quando uma criança “cria” um amigo imaginário – brinca, fala e até mora com ele, como se fosse real? Esse fenômeno, que surge principalmente entre 3 e 7 anos, não é tão raro. Quando pais e educadores percebem a existência desses companheiros invisíveis quase sempre ficam preocupados. Uma mãe escreve em um fórum on-line: “Nosso filho de 5 anos tem falado há três dias de ‘sua amiga Pia’. Ela só existe em sua imaginação, mas parece ser absolutamente real para ele. Ele se comporta como se pudesse vê-la! Nós não tivemos esse tipo de experiência com sua irmã três anos mais velha. A amizade com ‘Pia’ parece fazer bem ao nosso filho, mas nós nos preocupamos mesmo assim. Será que devemos deixá-lo com sua fantasia ou tentar convencê-lo a abandoná-la?”.

Mas os pais podem respirar aliviados, pois todos os estudos sobre esse fenômeno chegam ao mesmo resultado: não há motivo para preocupações! Os amiguinhos imaginários têm sido estudados de forma intensiva há muito tempo, nos últimos 100 anos, mas poucos psicólogos se dedicaram a esse tema. E há um ponto em comum: todos concordam que os amigos imaginários estimulam o desenvolvimento das crianças, podem suprir eventuais lacunas afetivas e ajudam na elaboração de questões psíquicas.

Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições, ser chamado pelo nome, mas não raramente acompanha a criança durante todo o dia. Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento – porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde.

Os acompanhantes invisíveis são frequentemente crianças da mesma idade de seus criadores – como, por exemplo, Sebastian Nigge, o amigo imaginário de Madita, personagem do livro de mesmo nome, de Astrid Lindgren. Podem ser também animais, magos ou super-heróis. Alguns cabem no bolso e podem ser levados para todo lugar – como o canguru invisível Pantouffle no filme de Hollywood, Chocolate, de 2000, dirigido por Lasse Hallström.
 
Os pequenos também dão vida a um bicho de pelúcia ou a uma boneca de que gostam muito ao lhe atribuírem personalidade própria. Com isso, os amigos visíveis como Hobbes (ou Haroldo na versão brasileira) – o tigre de pano dos quadrinhos americanos Calvin e Haroldo – também se tornam companheiros imaginários. Os estudos nos quais esse artigo se baseia concentram-se, porém, no fenômeno dos amigos totalmente invisíveis e semelhantes aos seres humanos.

Uma das primeiras descrições do fenômeno é um estudo publicado no século XIX, em 1895, feito pela pedagoga Clara Vostrovsky, da Universidade Stanford: o caso de uma garotinha que teve vários amigos imaginários até a idade adulta. Desde então, novos estudos mostravam que entre 20% e 30% das crianças têm, pelo menos temporariamente, um ou mais acompanhantes invisíveis.

Não raro, pais, professores e terapeutas incomodam-se não apenas com o fato de as amizades imaginárias serem mantidas por um longo tempo, às vezes por anos, mas também com a nitidez com que as crianças parecem ver seus amiguinhos. Mas os pequenos sabem muito bem que seus parceiros não são reais e que só existem em sua imaginação. Ou seja: essas criações psíquicas podem ser claramente diferenciadas de fantasias patológicas, que ocorrem, por exemplo, nas psicoses. A criança nunca se sente indefensavelmente dominada pelo amigo que criou – pelo contrário, pode modelar, modificar e manipular sua invenção como quiser. E também determinar a duração desse “relacionamento”.

Companheiros imaginários podem ter funções variadas. Algumas crianças e jovens iniciam essa amizade quando se sentem sozinhos. O estudo de 2004 de um grupo de trabalho coordenado pela psicóloga Marjorie Taylor, da Universidade de Oregon, também aponta nessa direção. Os pesquisadores entrevistaram 152 crianças em idade pré-escolar e descobriram que aproximadamente 70% com idades entre 5 e 6 anos que tinham amigos imaginários eram primogênitos ou filhos únicos.
Estudos anteriores desse mesmo grupo com crianças e adolescentes mostraram que amigos imaginários apareciam principalmente quando surgiam mudanças drásticas: a mãe ficava grávida ou um irmãozinho nascia; quando um dos pais estava ausente devido a frequentes estadias no hospital ou depois que uma pessoa considerada referência afetiva morria. Também no caso de separação dos pais ou de amizades que se rompiam, por exemplo, devido a uma mudança de casa, os amigos imaginários ajudavam na superação. Pesquisadores relatam o caso de uma menina de 10 anos que sofria de grande solidão. Sua mãe estava em tratamento havia dois anos, devido a uma forte depressão, e desde então a menina ficava frequentemente

sozinha e tinha de cuidar de si mesma. Nessa situação, ela inventou um irmão imaginário totalmente dependente dela, ao qual ela dispensava atenção materna – assim como provavelmente gostaria de ter sido tratada. Às vezes, passava dias deitada na cama, mergulhada em uma conversa interminável com seu irmão invisível. Quando a mãe recebeu alta e voltou para casa, ele desapareceu de um dia para outro.

De tempos em tempos, portanto, crianças e adolescentes compensam a realidade com a ajuda providencial do parceiro imaginário e assim combatem sentimentos de abandono, solidão, perda ou rejeição. É possível, assim, desfrutar de um relacionamento de amor e apoio, além de companhia – independentemente das circunstâncias externas. Como consequência, essas figuras quase sempre desaparecem assim que a criança encontra amigos reais ou se adapta à nova situação.

Essa função pode explicar por que também pessoas idosas têm eventualmente amigos imaginários – o que até agora quase não foi estudado. O psiquiatra canadense Kenneth Shulmann relatou em 1984 o caso de três pacientes com mais de 80 anos que haviam perdido pessoas queridas recentemente. Os três fizeram seus companheiros falecidos reviverem em sua imaginação, embora evitassem falar sobre o assunto com outros, o que foi avaliado por Shulman como um indício de que eles tinham consciência da natureza ficcional de suas criações.
 
Madita, personagem do filme You are crazy, Madiken (1984):
 os pequenos sabem que seus parceiros não são reais,
o que é um diferencial das fantasias psicóticas

PRAZER E COMUNICAÇÃO
Em seus extensos estudos sobre o desenvolvimento da inteligência infantil, o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) também deparou com os amigos imaginários. Ele os interpretou como uma forma especial do jogo simbólico. Segundo o estudioso, em situações lúdicas uma realidade estranha seria construída: as crianças fingem e desempenham papéis. Piaget relatou sobre o companheiro imaginário de sua filha de 3 anos, Jacqueline. O personagem dominou a atenção da menina durante dois meses, ajudava-a em tudo o que estava aprendendo, estimulava-a a respeitar regras e a consolava quando estava triste. De repente, desapareceu.

Piaget não atribuiu a criação do amigo de sua filha à solidão ou a condições de vida difíceis. Via nele muito mais uma prova de criatividade e prazer comunicativo. Essa ideia foi comprovada mais uma vez em 2008 por um estudo dos psicólogos Anna Roby e Evan Kidd, da Universidade de Manchester. Eles testaram a capacidade linguística de 44 crianças em idade pré-escolar e escolar. Aquelas que tinham um companheiro imaginário costumavam se expressar melhor e se colocar no lugar do interlocutor, o que faziam inclusive com prazer. Um estudo que realizei com 241 adolescentes em 2000 teve resultado semelhante: os jovens com amigos imaginários apresentaram mais qualidades sociais, como empatia, do que aqueles sem um acompanhante invisível.

Estudos sobre comportamentos lúdicos comprovam que principalmente crianças maduras e psicologicamente estáveis têm amigos imaginários. Assim, o sociólogo britânico David Finkelhor, da Universidade de New Hampshire em Durham, nos Estados Unidos, foi um dos pesquisadores que demonstraram que quanto pior for o estado físico e psíquico das crianças, menos serão capazes de brincar. O abuso ou a negligência fazem com que a imaginação se atrofie e inibem a propensão ao jogo – em geral, essas crianças não criam acompanhantes imaginários.

Os amigos inventados, porém, podem surgir quando a criança tem dificuldades em se submeter às regras dos adultos. Então o parceiro virtual simplesmente se permite fazer aquilo que é proibido a seu criador. Obviamente, os novos amigos são os culpados quando os pais descobrem a lata de bolachas saqueada ou são vítimas de alguma traquinagem. Muitas crianças até mesmo punem seus cúmplices invisíveis pelos delitos – o que naturalmente não impede os amigos de voltar a se portar mal.

Os parceiros inventados cumprem função semelhante quando servem de conselheiros morais. Quando estão na pré-escola, as crianças ainda precisam de um interlocutor externo para se certificar de que estão agindo de forma correta. Nesse caso, um amigo imaginário pode ocupar essa brecha. Geralmente, eles surgem em períodos em que seus criadores realizam grandes saltos de desenvolvimento cognitivo e oferecem às crianças a possibilidade de expressar sentimentos e impulsos.
 
Geralmente amigos imaginários tomam forma a partir do terceiro ano de vida, quando já é possível diferenciar entre o eu e o outro. Em 1988, o psicólogo Paul Harris, da Escola de Medicina de Harvard em Boston, acompanhou 221 crianças com o objetivo de detectar quão bem podiam separar a fantasia da realidade. Por volta dos 3 anos não havia mais confusões entre pessoas reais e inventadas, fossem seres imaginados por elas mesmas ou figuras de contos de fadas, histórias ou filmes.

A fantasia e a criatividade se modificam no decorrer do desenvolvimento. Crianças em idade pré-escolar frequentemente mostram aptidão para o chamado jogo ilusório ou ficcional, no qual partindo de poucos traços um objeto ou um personagem são construídos. Assim, uma fileira de cadeiras se transforma, por exemplo, em um “trem” num piscar de olhos. Na idade escolar a criatividade aumenta e, na adolescência, alguns jovens começam a escrever diários, uma forma muito particular de vivenciar a própria criatividade e imaginação. Para atingir esse estágio é necessário primeiramente uma compreensão madura da intimidade: crianças ainda não diferenciam entre informações “privadas” e “públicas”. Somente por volta dos 10 anos é possível compreender o que significa privacidade. Dessa fase em diante as informações sobre a própria pessoa ou sobre outros podem ser conscientemente mantidas em segredo ou manipuladas. Cerca de 40% das meninas confiam seus pensamentos pessoais a um diário (no caso dos meninos da mesma idade, esse índice é claramente mais baixo).

Com o aumento da idade, altera-se não apenas a percepção de si mesmo e das importantes pessoas de referência, mas também dos companheiros imaginários. Crianças de 4 a 6 anos, por exemplo, caracterizam muitas vezes a si mesmas e a outros por meio de atividades ou traços externos: “sou loiro”, “brinco com carrinhos”. Somente na adolescência usam aspectos da personalidade para se descreverem: “sou tímida” ou “sou generosa”. Esse conhecimento sobre a própria pessoa surge somente por meio das relações com outros, que se tornam cada vez mais significativas com o passar dos anos.
Não apenas as amizades reais, mas os companheiros imaginários também se modificam com o tempo, como demonstrou uma avaliação de vários estudos de longo prazo realizada por mim em 2008. No período pré-escolar são características as relações embasadas em uma interação física momentânea: “Somos amigas porque nós duas gostamos de brincar de boneca!”. Por volta dos 7 ou 8 anos os parceiros recebem e oferecerem ajuda – nessa fase a amizade orienta-se principalmente por vantagens próprias. Mas as crianças já atentam para um relativo equilíbrio de poder: “Eu te empresto minha bicicleta se você me deixar brincar com a sua bola”. Esses relacionamentos são mantidos também com os amigos imaginários.

No início da adolescência, por volta dos 12 anos, a troca emocional com o amigo ou amiga torna-se importante, os companheiros conversam essencialmente sobre problemas. A quebra da confiança é, nesse estágio, o motivo mais frequente para o término da amizade: jovens esperam que um bom companheiro lhes faça confidências e que saiba ouvir e guardar segredos. As meninas valorizam a confiança mútua nas amizades mais do que os meninos e tendem a contar suas experiências íntimas umas às outras.

Essas modificações resultam em uma exclusividade crescente das relações: enquanto crianças mais novas ainda brincam com qualquer um, sem selecionar, o círculo de amizades torna-se posteriormente cada vez mais restrito a poucos com visões de mundo semelhantes e com estes é possível estabelecer trocas mais afetivas. O aumento da necessidade de adolescentes de uma “alma irmã” explica por que nessa faixa etária quase sempre jovens solitários criam companheiros imaginários: para se consolar e não se sentir tão sozinhos.

Em minhas análises de entrevistas com centenas de adolescentes ficou claro que os amigos imaginários frequentemente surgem nos diários dos jovens. Os autores têm longos diálogos com seus parceiros invisíveis: os chamam pelo nome, contam fatos vividos em detalhes (“obviamente, você não poderia saber...”, “esqueci de contar...”) e ao fim da conversa sempre se despedem deles. Em nossa amostra, isso ocorreu em um terço dos diários de meninos e em até 60% das meninas. Os jovens refletiam muito sobre o relacionamento com seus companheiros imaginários e depois anotavam as reflexões em forma perguntas ou comentários. Muitas vezes, eles também convidavam o interlocutor a assumir, criticar ou julgar seu próprio ponto de vista.
Nesses casos, tinham evidentemente uma ideia muito exata de seus amigos inventados. Curiosamente, os jovens de ambos os sexos escolhem amigas imaginárias com mais frequência – 75% dos meninos e 61% das meninas – e inventam uma pessoa que se assemelhe a eles em traços essenciais. Rapazes muitas vezes criam uma cópia feminina perfeita de si mesmos, que se assemelha a eles não apenas em idade e aparência, mas também em personalidade. As meninas, por sua vez, criam ocasionalmente parceiras que se diferenciam delas em características importantes.

Com o aumento da idade, traços centrais da personalidade do amigo se modificam – assim como os do próprio autor –, às vezes ele recebe até um novo nome. Aqui, um exemplo de Tina, de 18 anos: “Durante um tempo, eu a chamei de ‘Cordula’. Agora ainda escrevo para ela, só que não mais de forma tão personificada – quase sempre sem um nome, mas ainda me refiro a ela”.

No decorrer da adolescência, os parceiros invisíveis parecem se tornar menos nítidos, adolescentes mais velhos quase não os mencionam. Aliás, entrevistamos escritores de diário mais uma vez alguns anos mais tarde e contatamos que realmente pouquíssimos conseguiram lembrar-se de seus amigos imaginários! Se o acompanhante imaginário cumpriu sua função, ele aparentemente não só é deixado de lado, mas também esquecido – um sinal de que as crianças conseguiram dar mais um passo em seu desenvolvimento de forma criativa.
Em uma análise de diários de adolescentes publicada em 2000, percebi que o amigo inventado quase sempre tem um nome, é de um sexo determinado e tem aparência bem definida e traços de personalidade específicos que a criança ou o jovem pode modificar no decorrer do tempo. Nos diários encontram-se algumas descrições muito detalhadas desses personagens virtuais. Segue um trecho das anotações pessoais de uma menina de 15 anos:

“Kathrin é uma menina adorável que se move de forma encantadora. Ela é muito bonita quando está feliz. Ela tem os olhos castanho-escuros mais inacreditáveis que já vi em minha vida, muito expressivos – às vezes, como estrelas, depois, como o mar Morto, tão profunda, quieta e triste. Mas isso é apenas o que uma amiga pode ver na aparência. Através de seus olhos eu consigo olhar exatamente dentro dela, mas mesmo assim sei muito pouco sobre sua verdadeira vida interior. Por exemplo, não sei como é realmente a sua relação com Deus – portanto, eu poderia me enganar. O que mais a Kathrin é? Inteligente, decidida, apaixonada, solícita, às vezes um pouco difícil de entender, às vezes ela realmente é como uma mãe para todos, mas ela é assim e sem isso ela não seria a Kathrin. Então, há épocas em que eu tenho impressão de que ela realmente faz tudo perfeito, e fico feliz quando acho um defeito. Além disso, ela é muito calada e precisa de muito tempo para confiar em alguém. Ela parece combinar muitas coisas com Deus, a quem ela aparentemente é muito ligada”.
 

Ciúmes entre irmãos

A chegada de um novo irmão ou irmã
Se você tem mais de um filho com menos de cinco anos, provavelmente conhece bem os problemas de ciúmes entre irmãos. Algumas vezes casais que passaram por um ajuste relativamente fácil ao seu primeiro filho ficam completamente exauridos com a experiência de um segundo.
Independente de quais sejam os arranjos práticos e a exigência física, não se deve subestimar a turbulência emocional causada pela chegada de um novo membro à família.
À sua frente encontra-se uma tarefa muito mais complexa e com muito mais exigências, para administrar as necessidades físicas e emocionais da existência com um novo filho.
As necessidades das crianças geralmente entram em conflito e a tarefa contínua de compreensão, gerenciamento e negociação serve para testar os pais até o limite.
 
Clique aqui e leia: Ciúmes entre irmãos
 
Este folheto foi originalmente publicado pelo Child Psychoterapy Trust

Ter um amigo imaginário é um problema?


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Diferente do que muitos adultos possam pensar, ter um amigo imaginário na infância não é necessariamente um problema. Pelo contrário, pode até trazer benefícios, tanto para a criança quanto para seus cuidadores.
Para a criança, pode ajudar a desenvolver a criatividade; auxiliar na organização do raciocínio e até favorecer a socialização, já que com este amigo ela pode aprender ou aprimorar comportamentos que serão vantajosos no estabelecimento de interações sociais com pessoas reais, como apresentar-se a estranhos, cumprimentar, iniciar e manter conversações, falar sobre seus pensamentos e sentimentos, entre outros.
Pode ainda auxiliar no processo de autoconhecimento da criança, pois esta interage com o amigo imaginário de maneira muito similar a que ela se comportaria com pessoas reais. De maneira geral, a criança reproduz com o amigo imaginário as situações vivenciadas pela mesma: o que ela ouve, vê ou sente, tendo os pais, vizinhos, desenhos animados, entre outros, como modelo destes comportamentos. Sendo assim, isto pode dar dicas importantes para o adulto sobre as interações que esta criança estabelece com outras pessoas em situações em que os cuidadores não estão presentes.
Os pais devem se preocupar quando o amigo imaginário passa a restringir o convívio social desta criança com outras da sua idade, ou quando a criança relata que o amigo pede que ela faça coisas prejudiciais a si ou a outros. Fora isto, conversar e brincar com um amigo imaginário é um comportamento comum em crianças e é esperado que com o tempo e a devida exposição a situações variadas, a criança fique sensível a outras pessoas e ocasiões e, dessa forma, diminua o contato com este amigo. Por esta razão, é aconselhável que pais e professores não se preocupem precocemente com relação ao amigo imaginário, mas antes, observem e avaliem o impacto desta fantasia na vida da criança.
Annie Wielewicki - psicóloga

Quem inventou a infância?

Não raro, escuta-se alguém comentando sobre o caráter encantador e inocente dos primeiros anos de vida. Ou então o discurso pende para a necessidade da educação moral nessa fase. Trata-se de concepções de infância que embasam o sistema educacional, político e familiar. Apesar de essas concepções parecerem naturais e óbvias, em 1960 Philippe Ariès traçou a construção social de um sentimento ou consciência da infância a partir da análise de pinturas e escritos de vários séculos. A obra dele foi de grande importância para construção da Sociologia da Infância - embora, atualmente, os pesquisadores tenham opiniões distintas sobre a abrangência de seus escritos. Considerando-se o caráter clássico da obra, o texto a seguir resume algumas das ideias de Ariès sobre a construção social da infância:

Analisando-se registros da sociedade medieval, não se observa um tratamento diferenciado entre a infância e os demais períodos da vida. Basicamente, assim que o indivíduo tinha condições de viver sem um cuidador constante, ele ingressava na sociedade adulta. Isso ocorria por volta dos sete anos de idade. Os primeiros anos eram vistos como uma rápida fase de transição para a idade adulta.
Embora a criança fosse representada com graciosas formas arredondadas na arte grega do período clássico, esta visão desapareceu na iconografia posterior. Até o século XIII, a criança não aparecia nas pinturas medievais ou, quando aparecia, tinha suas formas físicas deformadas: sua aparência era de um adulto em tamanho reduzido. Neste período, a taxa de mortalidade infantil era altíssima. Por conta disso, um casal tinha diversos filhos, presumindo que muitos deles não sobreviveriam. Preservar lembranças dos filhos mortos – retratos, por exemplo – não tinha sentido: logo outro indivíduo nasceria para substituí-lo.
 
Representações da infância um pouco mais próximas do que conhecemos atualmente começaram a aparecer no século XIII de três maneiras: (1) como a figura do anjo jovem, com traços redondos e graciosos, semelhantemente à forma como os anjos são retratados nas pinturas de Botticelli; (2) na imagem do Menino Jesus em movimentos afetivos ligados à Virgem, por exemplo, aninhado no colo de Maria ou com os braços ao redor do seu pescoço; ou (3) como alegoria da morte e da alma, representadas pela criança nua.
 
Nos dois séculos que se seguiram, a caracterização do Menino Jesus se expandiu para a pintura profana, inspirando cenas familiares em que as crianças eram retratadas em contextos de afetividade com suas mães. Em menos de duzentos anos, a criança se tornou uma das personagens mais frequentes da iconografia. Contudo, ela raramente era retratada sozinha, estando quase sempre ao redor de adultos, em pinturas quase anedóticas. Isso sugere que a criança, aos poucos, passou a exercer uma possível função em meio à “multidão” e esta função estaria associada à sua graça e à sua colocação no lugar de fonte de divertimento para o mundo adulto. Isso configurou uma primeira consciência social de infância, caracterizada por um “sentimento de paparicação”: com o passar do tempo e da história, os primeiros anos de vida começaram a ser enxergados como graciosos, “engraçadinhos”, e as crianças se tornaram fonte de distração e relaxamento dos adultos.
 
Somado a isso, nas pinturas do século XV, as crianças também começaram a ser retratadas em vestimentas distintas de acordo com sua idade, sendo possivelmente mais uma evidência de sua separação do mundo adulto. Outra característica do século foi o gosto manifesto pelos jargões da infância e pelo registro das expressões e onomatopeias infantis. As crianças ganharam novos nomes na sociedade francesa, como bambins, pitchouns e fanfans. As pessoas começaram a adotar o linguajar das amas para se dirigir aos pequenos - como tou-tou (au-au) e dada (cavalinho).
 
Como reação à identificação da criança na função engraçada e encantadora, parte da sociedade se irritava com a figura da infância, vendo os mais novos como frágeis e bobos. Aos poucos, como reação (1) a essa citada irritação, (2) à paparicação e (3) à anterior indiferença da sociedade aos mais novos, surgiu uma nova consciência de infância, chamada por Ariès de "sentimento de moralização": defendia-se que os pequenos deveriam ser doutrinados.
 
A concepção moral que surgiu foi fortemente pautada em princípios do cristianismo. Como foi apontada anteriormente, a evolução iconográfica de aspectos atribuídos ao Menino Jesus se generalizou para a representação de outras crianças. Com isso, associaram-se também as características da infância sagrada de Jesus às características de qualquer criança. Paralelamente, havia a questão do batismo: batizar crianças implicava torná-las cheias da morada de Deus e, portanto, relacioná-las a figuras de pureza e inocência. A inocência, como reflexo da pureza divina, foi central para o sentimento moralista. Como moradas do Senhor, as crianças deveriam ser protegidas e educadas.
 
Antes do século XVI, a noção de inocência infantil era desconhecida. O pudor que hoje existe frente às crianças em relação a assuntos sexuais era inexistente na época. Era comum, por exemplo, as amas brincarem com a genitália infantil em cenas que hoje assustariam a sociedade. Com a crescente imposição de moralistas, certas atitudes passaram a não ser mais toleradas e principiou um espírito de respeito pela infância que se preserva até os dias de hoje.
 
No século XVII, houve uma grande proliferação de livros pedagógicos dominados por ideias morais e cristãs destinados a pais e professores. Procurava-se preservar os pequenos da “sujeira” da vida e da sexualidade tolerada pelos adultos e, ao mesmo tempo, fortalecer a infância ao desenvolver e prolongar seu tempo e sua razão. A ideia é que a infância, entendida aqui como moral e inocência, perdurasse pela vida do indivíduo. E, para tanto, era preciso vigiar constantemente a criança para discipliná-la e evitar que ela se perdesse nas indecências do mundo terreno.
 
Multiplicaram-se as instituições educacionais, revolucionando os hábitos escolares em direção a uma disciplina mais rigorosa. E, com tal disseminação, o sentimento de moralização tornou-se popular e amplamente aceito pela sociedade.
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FATORES SOCIAIS QUE CONTRIBUÍRAM PARA O SURGIMENTO DA INFÂNCIA
 
Ariès aponta, portanto, a construção de ao menos dois sentimentos de infância: o da paparicação e o moralista. O primeiro teria surgido dentro dos meios familiares, com as crianças pequenas. O segundo surgiu de uma fonte externa à família, com os escolásticos, homens da lei e moralistas preocupados com a disciplina e os costumes. Este sentimento opunha-se ao primeiro, ao considerar que as crianças não deveriam ser tratadas como brinquedos. Seriam, ao contrário, frágeis criaturas de Deus que teriam que ser preservadas e disciplinadas por meio da educação.
 
A transformação da indiferença em consciência da infância como fase diferenciada aconteceu paralelamente a uma série de outras mudanças sociais que foram críticas. Leite (2010) aponta que um desses fatores críticos foi a queda da mortalidade infantil. Pinchbeck e Hewitt (2010) relatam que entre 30 e 40% das crianças de até dois anos residentes de grandes cidades morriam na época. As causas apontadas por elas são várias:
 
· A obstetrícia era pouco desenvolvida - os nascimentos eram assessorados por parteiras;
· Após o nascimento, as crianças eram cuidadas por pessoas com comportamentos que colocavam em risco a saúde dos recém-nascidos, como dar conhaque para os bebês para que eles parassem de chorar;
· Havia uma grande indiferença dos pais em relação aos filhos, uma vez que, com muitos filhos, era difícil preocupar-se com cada um individualmente;
· A morte das crianças era encarada com fatalismo, como um desígnio de Deus;
· Até o século XVIII, por questões de beleza do corpo, era moda não amamentar;
· O conhecimento sobre nutrição infantil era precário, dando-se alimentos indiscriminados para os bebês;
· Comportamentos de negligência, como deixar crianças indesejáveis em becos, era comum. Muitas vezes essas crianças eram encontradas por mendigos que as mutilavam a fim de conseguir dinheiro através da piedade do povo.
A taxa de mortalidade caiu com a melhoria das condições europeias de higiene e com preocupações crescentes com o cuidado e o bem-estar da criança, como leis de prevenção da violência infantil. A criança deixou, assim, de ser vista como substituível por outra caso morresse. Como apontado por Ariès, isso se tornou ainda mais intenso com o malthusianismo, o controle de natalidade e as práticas contraceptivas.
 
Outra mudança crítica foi o ‘fechamento’ da família europeia no século XVIII, que se isolou tanto da comunidade como da família consanguínea, adquirindo o formato da família nuclear que hoje estamos acostumados (Leite, 2010). Pinchbeck e Hewitt (2010) explicam que até meados do século XVII as famílias eram muito numerosas: cerca de 40 pessoas por habitação. Elas sugerem que a crescente riqueza das classes média e alta no final do século XVII e durante o século XVIII estimulou a procura por uma forma mais cômoda de vida. Uma das atitudes tomadas para isso foi separar as acomodações de patrões e empregados, isolando a família nuclear. Isso fez com que o número de pessoas por acomodação fosse reduzido e as relações pudessem se tornar mais íntimas, permitindo o desenvolvimento de uma consciência familiar. As relações entre pais e filhos ficaram mais próximas e menos formais, aumentando a preocupação com o bem-estar infantil.
 
Para Ariès, a criança adquiriu papel central na sociedade, que deixou de ser indiferente e se tornou obsessiva por ela. Colocando-se como uma questão para a sociedade, a descoberta da infância permitiu o aparecimento de novas ciências dedicadas ao tema da criança – a psicologia do desenvolvimento, por exemplo. Ariès sugere também que tenhamos colocado a criança em uma “quarentena escolar”, como se ela só estivesse suficientemente madura para a vida ao terminar seus estudos. Ao passo que a família adquiriu a função moral e espiritual de formar o corpo e a alma, a escola tornou-se um instrumento disciplinador que, atualmente, é protegido pela justiça e pela política.
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Para saber mais:
Ariès, P. (1981). História social da criança e da família. (Flaksman, D. Trad.). Rio de Janeiro: LCT. Publicado originalmente em 1960.
Leite, D. M. (2010). A criança na família contemporânea. Em: Leite, D. M. (Org.). O desenvolvimento da criança, pp. 21-52. São Paulo: Ed. UNESP. Publicado originalmente em 1972.
Pinchbeck, I., & Hewitt, M. (2010). A criança numa sociedade em mudança. Em: Leite, D. M. (Org.). O desenvolvimento da criança, pp. 21-52. (Leite, D. M. Trad). São Paulo: Ed. UNESP. Publicado originalmente em 1969.
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Psicóloga Tauane Gehm - Graduada pela USP. Atualmente faz mestrado na mesma universidade, realizando pesquisas sobre desenvolvimento