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Conhecendo nossos sentimentos


No artigo anterior desta coluna, eu descrevi como ensinamos as crianças a se autoconhecerem, explicando que, à medida que elas aprendem a falar, são expostas a situações em que os adultos ensinam a elas a nomear o que estão sentindo (os estados internos) e a descrever as circunstâncias (os eventos externos) que geram ou estão relacionadas com as sensações e os sentimentos. Na descrição que fiz, considerei exemplos em que o adulto infere o estado interno da criança a partir de eventos externos e de comportamentos correlacionados com as emoções e as sensações, e as nomeia de acordo com as práticas verbais da comunidade em que eles vivem.
 
Vamos recordar um dos exemplos que descrevi naquele texto. A porta bate com força e a criança que ficou presa no quarto chora “desesperadamente”. Em seguida:
 
1) a mãe vem acudi-la e, ao falar, descreve a situação – “A porta bateu e você ficou presa no quarto, filhinha?”;
2) a mãepergunta o que a criança está sentindo, dizendo o que ela acha que a criança está sentindo – “Você ficou com medo?”;
3) a criança tem a oportunidade de observar o seu estado interno e de correlacioná-lo com os eventos externos vivenciados, como, no caso, o ruído intenso do bater da porta e o de ficar isolada;
4) no futuro, a criança será, então, capaz de dizer o que sente quando, em situações semelhantes, tiver as mesmas sensações.

Uma outra forma de ensinar a identificar e a nomear as sensações e os sentimentos pode  ocorrer em circunstâncias nas quais não temos dicas do que aconteceu, mas inferimos o que a criança está sentindo, a partir de comportamentos colaterais manifestos, que acompanham os estados internos. Por exemplo, perguntando-lhe se ela está triste, quando a vemos quietinha em um canto, não querendo participar de brincadeiras, seus olhos estão lacrimejantes e ela não sorri. Quando isto é feito, a criança tem a oportunidade de correlacionar o que está sentindo, com a palavra tristeza, aprendendo, assim, a reconhecer e nomear sua tristeza.
 
Uma terceira forma de aprendermos a identificar as nossas sensações e emoções pode ser, por exemplo, por analogia. A coincidência entre propriedades (características) das nossas sensações e propriedades de eventos externos pode nos levar a nomear as sensações com base na similaridade entre eles. Por exemplo, quando dizemos “paixão ardente”, “explosão de raiva”, “idéia luminosa”, "depressão”, “inclinação”, “agitação”, etc, estamos descrevendo nossas sensações e sentimentos por analogia a outras experiências. Para ser capaz de fazer analogias, a criança deve possuir um

repertório verbal bem desenvolvido e ser capaz de reconhecer e identificar, ela mesma, a semelhança entre os seus estados internos e os eventos externos. Portanto, isto só é possível quando ela já tiver aprendido a falar.
 
Mario Prata escreveu uma crônica que considero muito apropriada e espirituosa para ilustrar o que estou tentando explicar sobre fazer analogias. Assim, passo a reproduzi-la.


Definições
Saudade 
é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Lembrança
é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.
Angústia
é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Preocupação
é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento.

Indecisão
é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza
é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição
é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento
é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Vergonha
é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Ansiedade
é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja.

Interesse
é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento
é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva
é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza
é uma mão gigante que aperta seu coração.

Felicidade
é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade
é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Culpa
é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Lucidez
é um acesso de loucura ao contrário.

Razão
é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Vontade
é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Paixão
é quando apesar da palavra “perigo” o desejo chega e entra.
Amor
é quando a paixão não tem outro compromisso marcado.

Não... Amor é um exagero... também não.
Um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
 
Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tenha explicação,
 
Esse negócio de amor, não sei explicar.
 
(Autor: Mário Prata)

Diante do que Mário Prata escreveu, será que podemos dizer que nós seres humanos temos consciência de nós mesmos e do que é amor?
Professora da Universidade Estadual de Londrina
Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo

Comportamento Anti-Social

 
O comportamento agressivo ou anti-social vem sendo estudado por behavioristas radicais de forma a entender o porque do comportamento muitas vezes violento do homem voltado para a própria espécie, chamado de agressão intra-específica (REGRA, 2001). Este tipo de comportamento tem sido explicado no estudo da relação do homem com o seu meio. De acordo com GOMIDE (2001), a definição do termo comportamento anti-social é utilizado por KASDIN e BUELA-CASAL (1998) para se referir a todo comportamento que infringe regras sociais ou que seja uma ação contra os outros, tais como comportamento agressivo, comportamento infrator como furto, roubo, vandalismo, piromania, mentira, ausência ou fuga escolar, fuga de casa, entre outros. O DSM IV (APA, 1995) define o comportamento anti-social como um padrão repetitivo e persistente de comportamento de violação aos direitos básicos dos outros e de normas ou regras sociais importantes apropriadas à idade. Já PATTERSON, REID e DISHION (2002) definem comportamento anti-social como eventos que são simultaneamente aversivos e contingentes. Eles salientam que se deve descrever um evento anti-social e não uma pessoa anti-social. O termo contingente refere-se à conexão entre o comportamento do indivíduo e o de outra pessoa pertencente ao ambiente onde o evento ocorre.
 
Esses autores preferem utilizar o termo anti-social ao agressivo, pois o primeiro descreve mais a natureza do comportamento do que o segundo. Esses comportamentos são respostas dadas pelo organismo dentro de determinadas contingências e se mantém em função de reforçadores. O behaviorismo radical fornece uma explicação desse comportamento anti-social sem recorrer a explicações mentalistas. Afirmar que o comportamento agressivo ocorre em função de sentimentos, não ajuda muito. Segundo SKINNER (2002, p. 184), “não é de qualquer auxílio na solução de um problema prático, dizer-se que algum aspecto do comportamento do homem se deve à frustração, à ansiedade; precisamos também saber como a frustração ou a ansiedade foi induzida e como pode ser alterada.” Skinner tráz na sua teoria uma ferramenta de fundamental importância para podermos entender e alterar o comportamento
anti-social: a análise funcional. Essa análise implica a descrição de contingências e a relação de dependência dessas com o comportamento e, que nos possibilita descrever o valor funcional da agressão. Percebendo que emoções não são causas e sim respostas induzidas por uma classe de operações, podemos compreender o que mantém o comportamento anti-social.
 
Para diagnosticar uma pessoa com comportamento anti-social, GOMIDE (2001), coloca que é necessário que este padrão de comportamento venha se mantendo já há algum tempo e com alta frequência, por períodos duradouros. O que é diagnosticado é o padrão de comportamento e não o organismo. Este apenas responde a um conjunto de contingências e, se mudamos as contingências podemos mudar o padrão de respostas que são dadas pelo organismo. SIDMAN (1995), no livro Coerção e suas implicações discute o modelo da nossa cultura que educa de forma coercitiva. Segunda ele, a punição e a privação levam o homem a apresentar comportamento agressivo. Observa-se que, somos punidos de várias formas possíveis por não nos comportarmos adequadamente e, quando apresentamos comportamentos desejados, não recebemos nenhuma gratificação ou algo que nos motive a manter esse padrão de comportamento.

A sociedade comtemporânea convive com episódios que envolvem, em larga escala, comportamentos anti-sociais em crianças e adolescentes provavelmente em decorrência do contato com ambientes ameaçadores. O grande número de ocorrências que nos chegam através da mídia, focalizando o destino insólito de crianças que crescem nos ambientes da periferia da cidade, vivenciando privações materiais e a violência causada pelo tráfico de drogas demonstram a importância do entendimento dessa questão no Brasil. Apesar da intervenção de pessoas e organizações que se dedicam voluntariamente, ao entendimento dessa situação e de algumas ações do poder público, constata-se que os resultados obtidos por esse trabalho não são efetivos. Para que se processem intervenções mais eficazes, é necessário um conhecimento mais aprofundado do assunto e de suas variáveis de controle. Torna-se importante assim, analisar funcionalmente o curso de desenvolvimento do comportamento anti-social nas fases da infância e da adolescência, mostrando que ele se inicia no ambiente familiar chegando até os grupos delinquentes, nas ruas.

PATTERSON, REID e DISHION (2002), colocam que os atos aparentemente inofensivos observados no lar e na escola são os protótipos de comportamentos anti-sociais na adolescência. Eles afirmam também que a exposição muito longa à violência e à agressão, tanto na comunidade quanto na televisão, tem aumentado a extensão da aprendizagem de comportamentos agressivos nos tempos atuais. A exposição a episódios anti-sociais propicia a aprendizagem, onde a criança é inicialmente uma simples observadora e com experiência, passa a copiar os modelos daqueles personagens com que se identifica. Alem disso, através da aprendizagem por modelagem, a criança pode utilizar as birras, choros e outros comportamentos anti-sociais para obter controle sobre os pais. Esses comportamentos vão sendo instalados no repertório da criança na medida que os resultados são atingidos. PATTERSON e colegas (2002), descrevem quatro estágios de desenvolvimento do comportamento anti-social. O primeiro estágio desenvolve-se na família onde os pais descrevem a criança como difícil e diferente dos outros, e proporcionam uma disciplina ineficiente com pouca monitoria das atividades da criança.

O segundo estágio ocorre na escola, onde iniciam as reclamações sobre a criança nos aspectos da aprendizagem e inadequação em sala de aula, levando à rejeição das outras crianças e dos professores e aos déficits acadêmicos. O terceiro estágio descreve a reação do meio social e o fracasso neste ambiente impulsiona a criança a buscar apoio em ambientes alternativos, isto é, rejeitada pelos colegas, ela procura grupos desviantes e aperfeiçoa suas habilidades anti-sociais, buscando as drogas e cometendo pequenos delitos. O último e quarto estágio, via de regra, acaba levando o adolescente para instiuições correcionais. Segundo GOMIDE (2001), é basicamente uma sequência de ação e reação. No primeiro estágio, as ações agressivas da criança se iniciam sem que os pais tenham habilidades de controle. No segundo estágio, o meio social reage e a rejeita. No terceito estágio, ela busca apoio nos grupos desviantes.

Este conjunto leva a casamentos prematuros e fracassados, empregos caóticos e institucionalização, o quarto estágio. SKINNER (2002) e SIDMAN (1995) questionam em seus livros o modelo coercitivo que predomina há tanto tempo nos sistemas familiares, educacionais, legais e policiais onde a punição tem sido a única estratégia de controle de comportamento utilizada. O grande problema é que ela funciona de forma imediata e por isso parece mais eficaz. Entretanto, a punição produz efeitos colaterais tanto para quem pune quanto para quem é punido: os estímulos aversivos que são usados pelos adeptos da agressão no controle do comportamento, eliciam sentimentos no agredido que dificultam a aprendizagem e a relação dele com outras pessoas; provocam o comportamento de fuga e esquiva que impedem o contato com situações de aprendizagem de repertórios comportamentais alternativos. Para SIDMAN (1995), coerção é o uso da punição e da ameaça de punição para conseguir que os outros ajam como gostaríamos. Entretanto, embora ela possa produzir esse resultado – às custas dos inevitáveis efeitos colaterais – não oferece à criança ou ao adolescente qualquer caminho alternativo para comportar-se construtivamente.

Para SKINNER (2002), a técnica de controle mais comum é a punição. Se o seu filho não se comporta de forma adequada, castigue-o, se um país não tem a mesma religião que a sua, bombardeio-o, sistemas legais e policiais funcionam com esquema punitivo e a sociedade ainda não abandonou a palmatória. O que aprendemos com os behaviorista radiciais é que devemos questionar que tipo de controle queremos: o controle coercitivo que sempre foi usado e que não tem trazido resultados satisfatórios, ou o controle por reforçadores positivos? Diante dos fatos, os cientistas buscam explicações que possam servir para identificar e modificar a situação. Os estudiosos da área de comportamento anti-social apresentam alternativas.

Em particular os behavioristas radicais. A alternativa que temos para evitar a palmatória, a agressão, a violência, o vandalismo etc, é a de repensar a nossa cultura, como fez Skinner durante toda sua vida. Devemos abandonar a crença de que os controles coercitivos são absolutamente necessários para o bom funcionamento da sociedade. Segundo ele, as mudanças nas formas de controle interpessoais, de coercitivas para reforçadoras, poderiam resultar em uma qualidade de vida melhor, propiciando ambientes mais adequados para o desenvolvimento das crianças e adolescentes.


Referências Bibliográficas

BAUM, W. (1999). Compreender o behaviorismo. Porto Alegre: Ed. Artmed. GOMIDE, P.I.C. (2001).

Efeitos das práticas educativas no desenvolvimento do comportamento anti-social. Em Marinho, M.L. e Caballo, V. E. (org.) : Psicologia Clínica e da Saúde, p.p. 33-53. Londrina: Ed.

UEL PATTERSON, G., REID, J. e DISHION, T. (2002). Anti-social Boys: comportamento anti-social. Santo André: ESETEC Ed. Associados.

REGRA, J. (2002). A agressividade infantil. Em Silvares, E.F.M. (org): Estudos de caso em Psicologia clínica comportamental infantil. Vol II. Campinas: Ed. Papirus.

SIDMAN, M. (1995). Coerção e suas implicações. Campinas: Ed. Psy II. SKINNER, B. F. (2002). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Ed. Martins Fontes.
 
Fonte RedePsi

Lugar de criança dormir é no quarto e na cama (dela!)

Algo muito comum nas famílias com filhos é o fato de estes dormirem junto aos pais. Geralmente esse hábito se inicia após o nascimento, quando o bebê precisa de monitoramento mais próximo, sobretudo no período noturno. No entanto, não é incomum esse hábito se estender a outras fases do desenvolvimento, como a adolescência. Independente do lugar em que os filhos dormem – se na mesma cama ou no mesmo quarto dos pais – há um consenso a respeito da dificuldade em que os adultos enfrentam em fazê-los dormirem sozinhos, que muitas vezes é proporcional ao tempo em que dormem sob a companhia dos pais.
 
De fato, é extremamente prazeroso ter um filho por perto, sobretudo se este for um bebê. Dormir junto com uma criança é tido como um dos grandes prazeres dos pais: é algo pequenino, inocente, cheiroso e macio, algo por quem se nutre um grande afeto, um ser que traz consigo não só os genes, mas a história do casal. Fazê-lo permanecer por perto é desfrutar de tal prazer continuamente, ali, diante dos olhos e ao alcance das mãos.
 
Analisando melhor a situação, pode-se perceber que pernoitar com filhos tem outras funções. Agindo assim, é possível reduzir o tempo do choro noturno – ávido pela amamentação ou por colo materno diante de um pesadelo – diminuir o esforço físico de se levantar e de se dirigir até o filho (enfrentando calor ou frio), além de se evitar o desgaste em lidar com a (suposta) resistência da criança em ficar longe dos pais e vice-versa.
 
Ao passo disso, é possível afirmar que a criança também sente prazer ao lado dos pais: há o conforto da companhia, a segurança que lhe é sentida (que muitas vezes afasta medos infantis), o próprio contato – que muitas vezes lhe falta durante o dia – também são fatores extremamente satisfatórios para ela.
 
Embora tal contexto traga várias consequências “positivas” para todos os envolvidos, podem ocorrer diversas complicações no desenvolvimento e à adequação infantis. Muitas vezes, quando a criança cresce, os pais tentam colocá-la de volta ao seu quarto e, diante de sua resistência, permitem que ela durma em suas companhias mais uma vez. Esta inconsistência dos limites, que não ocorre de forma contínua, faz a criança entender que sempre há uma possibilidade de permanecer junto a eles. Não é incomum, também, encontrar crianças que tem seu sono perturbado por pesadelos ou por imagens de terror no próprio quarto, situações que favorecem a busca infantil pelo colo paterno na madrugada.
 
Verificar apenas o comportamento de dormir junto aos pais, na verdade, é algo muito limitado. É possível constatar que este comportamento é apenas um que se manifesta no padrão de dependência. Pais que não se sentem confiantes em deixar suas crianças por um momento longe de seus olhos muitas vezes são aqueles que podem proteger em demasia a ponto de provocar um atrofiamento do repertório de habilidades sociais e das atividades diárias. À medida que a criança cresce, ela desenvolve autonomia em suas ações rotineiras (comer, vestir-se e se limpar, por exemplo); então, nada mais natural que também gerar maturidade ao pernoitar sem a presença dos pais ou cuidadores.
 
Além disso, também existem implicações para a intimidade do casal. Caso os cônjuges estejam privados de afeto e de sexo ao longo do dia, muito provavelmente o momento de dormir seja aquele em que se dará a intimidade sexual. Assim, como os cônjuges farão para preservar este momento, sem que ele possa ser presenciado por outra pessoa? Na cama, é importante que o casal seja visto como tal, não essencialmente enquanto pais. A intimidade do casal precisa ser reservada e, de certa forma, a presença de crianças pode colocar isso a perder. É de se supor, também, que a manutenção do filho junto aos pais durante o pernoite possa ser visto como uma justificativa e uma barreira para a intimidade em casais que não estão bem.
 
Cabe destacar que também se observa que a ausência do cônjuge torna mais propícia a companhia do filho na cama. Em casos de viuvez ou de separação, ter a prole por perto pode trazer conforto e ameniza a solidão. No entanto, simbolicamente faz a criança ocupar um espaço que não lhe pertence exatamente, fato que ficará mais claro quando o cônjuge solitário for se unir a outra pessoa. Este pode resistir em constituir outra família em virtude da criança que dorme consigo, com receio de magoá-la ou para evitar resistências quanto a dormir em outro local.
 
Existem algumas orientações que são válidas neste momento. A primeira delas diz respeito ao período em que crianças podem dormir sozinhas. Acredita-se que aos 6 (seis) meses ela pode dormir sozinha, sob monitoramento noturno dos pais quanto à amamentação e bem-estar geral (temperatura, conforto e segurança). Recomenda-se que os pais se revezem nesta tarefa, para minimizar o efeito aversivo do deslocamento até o quarto do filho e dos cuidados noturnos.
 
Cabe destacar que o momento de dormir deve ser prazeroso para pais e filhos. Pode-se contar histórias, cantar, ouvir juntos cantigas de ninar, conversar sobre o dia ou sobre um assunto específico. O ideal é que isso seja circunscrito no ambiente natural da criança, ou seja, no seu próprio quarto, ao invés de se iniciar no quarto do casal e terminar com os pais conduzindo a criança, já adormecida, ao seu aposento.
 
Também é válido organizar a rotina e o ambiente para criar contextos favoráveis ao sono solitário. Assim, estipular um horário para a criança dormir e fazer o restante da casa adormecer (por exemplo, desligar aparelhos eletrônicos e luzes dos aposentos, diminuir o movimento na casa, entre outros), assim como eliminar estímulos distratores dentro do quarto infantil (como desligar as luzes, deixar a porta entreaberta ou proporcionar uma penumbra através do abajur) são dicas salutares que tendem a um bom resultado.
 
Outra dica se refere ao afastamento gradual [1] dos pais enquanto se ensina a criança a dormir sozinha. Por exemplo, no início do processo, os pais podem permanecer deitados sob a cama, junto do filho, saindo de lá quando a criança adormecer. Após alguns dias agindo assim, quando os pais perceberem que podem se afastar mais, ao invés de ficarem deitados, podem ficar sentados, interagindo com a criança. Diante de sucessivos episódios, podem ficar no quarto do filho em pé e também se direcionando gradativamente cada vez mais para o rumo da porta, até as suas completas saídas.
 
Como já dito exaustivamente aqui no blog [2], é importante que, uma vez estabelecidos os limites, os pais possam sustentá-los mesmo que o filho venha a resistir. Obviamente, existem exceções que precisam ser avaliadas com cautela, como uma doença, medo ocasional por algum evento específico (como falecimento de alguém) ou mal-estar súbito, casos em que seria necessário avaliar a pertinência de a regra ser mantida. Caso seja relevante suspender a regra momentaneamente, deve-se explicar à criança por qual motivo ela foi burlada, limitando a concessão a este episódio específico.
 
Diante de limites, é natural haver resistência da criança em aceitá-los. Ela, provavelmente, desafiará através da birra ou dos insistentes pedidos em dormir com os pais pelo medo de ficar sozinho. Deve-se verificar a função destes comportamentos: algumas vezes eles podem ser emitidos apenas com a finalidade de permanecer junto aos pais. Caso haja verbalizações da criança quanto a ficar sozinho e ver/ouvir coisas, uma boa alternativa é verificar, junto com o infante, a veracidade desses fatos: ir ao quarto junto com ela e buscar evidências (debaixo da cama, no armário, dentro das gavetas, entre outros) de que tal situação não procede, assegurando que a criança está em segurança e que os pais podem ficar com ela (no quarto dela) até que adormeça novamente.
 
É possível que quando houver mudança de casa ou quarto (como em viagens, por exemplo) a criança volte a apresentar tais padrões. É importante dizer que, mesmo nesses casos específicos, a conduta deve ser a mesma: permanecer com a criança no novo ambiente, favorecendo a sua adaptação e esvanecendo aos poucos a presença dos pais. Recomenda-se também que os pais reconheçam cada conquista da criança, demonstrando satisfação quanto à sua superação do medo (“estou feliz por você!”), atribuindo-lhe um prêmio simbólico pela superação (“troféu coragem” ou similar).
 
No cotidiano verifica-se o quanto o ser humano tende a evitar situações que exigem um esforço (e um desgaste) na resolução de problemas, sobretudo quando as conseqüências são aversivas. Apesar de parecer à princípio que o comodismo é mais válido nesse caso, na verdade é mais fácil e saudável o adulto quebrar a sua zona de conforto agora do que ensinar a criança dormir no seu próprio quarto, quando esta já estiver maior e com o padrão mais cristalizado.
 

[1] Esvanecimento, ou Fading, trata-se de um procedimento psicológico em que um comportamento que ocorre em uma situação também passa a ser emitido em outra situação a partir da mudança gradual do estímulo, da primeira para a segunda ocasião (LUNDIN, 1977). Assim, no exemplo em questão, o objetivo do esvanecimento é fazer com que as crianças passem a dormir a partir da presença e proximidade cada vez menor dos pais.
[2] Confira aqui o texto “Ele é o rei da casa. Adivinha quem são os súditos?”, publicado em julho de 2012 no blog.
 
Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC. Atua como psicóloga clínica em Teresina-PI (Clínica Lecy Portela, onde atende criança, adolescente e adulto) e como psicóloga forense (Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão), em Caxias-MA. Atuou como pesquisadora no Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas”) e atualmente está vinculada ao Laboratório de Neurociências Cognitivas da Universidade Estadual do Piauí- UESPI. Contato: juliana@inpaonline.com.br.

Comportamento infrator: fatores de risco e de proteção

 
Hoje em dia, ser jovem implica assumir muitos riscos. Um deles diz respeito à luta pela própria vida. Segundo o Mapa da Violência de 2012 [1], as chances de uma criança ou adolescente brasileiro morrer assassinado são maiores atualmente do que eram há 30 anos, fator que rende ao país a quarta pior colocação mundial em violência contra o jovem. Assim, o prazo de validade da juventude, que poderia ser estendido à fase adulta, é reduzido em virtude de comportamentos antissociais e da violência infanto juvenil. Embora a justiça tenha a missão de lidar com as práticas infracionais juvenis, ainda cabe à família delinear práticas educativas que possam inibir comportamentos antissociais e desenvolver o comportamento moral.
 
Segundo pesquisadores, demonstrações de comportamento antissocial podem acontecer desde os dois anos de idade, quando as crianças são consideradas de temperamento difícil ou forte, com tendência a destruir objetos e agredir seus cuidadores. Pesquisas apontam que este padrão de comportamento desobediente, impulsivo, socialmente inadequado e impaciente tende para o estabelecimento do chamado Transtorno Desafiador de Oposição. Caso este seja persistente, facilita-se a exclusão do grupo de pares quando adolescente, que é um dos critérios diagnósticos para o transtorno de conduta na adolescência e antissocial na vida adulta.
 
No tocante à questão familiar, o infrator é oriundo de ambientes altamente coercitivos, nos quais são constantes a violência física e o abandono (ROCHA, 2009). Desta forma, ele acaba por reproduzir em sua relação com o mundo um padrão de comportamento conhecido como antissocial. O comportamento antissocial pode ser definido como aquele que viola e desrespeita os direitos alheios, ou seja, aquele que a todo custo busca beneficiar-se, desconsiderando os possíveis danos que isso possa causar a outrem.
 
Estudos mostram que a disciplina ineficiente e pouco consistente imposta pelos pais está positivamente associada ao comportamento delituoso. Assim, pode-se afirmar que pais de filhos em conflito com a lei geralmente são aqueles que exercem uma supervisão inconsistente, uma disciplina incoerente e inadequada.
 
Quanto a isso, Hasson e Meleiro (2003) [2] destacam ainda que a exposição a abusos físicos, punições excessivas e maus tratos, pais ausentes, com problemas de saúde ou no relacionamento conjugal são fatores relacionados positivamente com o comportamento delituoso. Desta forma, as práticas educativas parentais ineficientes se constituem fatores de risco ao envolvimento criminal.
 
Para Rocha (2009) [3], além das práticas parentais negativas, outros fatores de risco para o desenvolvimento de problemas de comportamento são: a presença de problemas de comportamento durante a infância, a ocorrência de comportamento antissocial em algum momento da vida e o abandono ou fracasso escolar. Outros pesquisadores destacam que a família monoparental (ou seja, famílias com apenas um cuidador/pai), em especial as gerenciadas por mulheres, também é um fator de risco. Hasson e Meleiro (2003) destacaram que o risco de atividade criminal na adolescência se duplica para homens criados sem figura paterna, sendo que em mulheres criadas sem mãe o risco é quase nulo.
 
Cabe destacar que os adolescentes em conflito com a lei têm déficit significativo nas habilidades sociais e em resolução de problemas. Assim, esses adolescentes tendem a reagir de forma totalmente despreparada diante de conflitos interpessoais. Um exemplo disso é quando diante de uma intimidação, o adolescente busca meios agressivos ou coercitivos que podem aumentar o problema ou colocar em risco a própria vida ou a de outras pessoas, como andar armado para fazer com que as provocações que recebe diminuam. Tal fato já abre precedente para outros comportamentos perigosos, como intimidar outras pessoas para roubar, emprestar a arma para amigos, trocá-la por droga, entre outros.
 
Outro fator de risco para o comportamento criminoso do jovem conforme apontado por pesquisadores é a baixa escolaridade ou o desinteresse pelos estudos. Gallo e Williams (2005) [4] constataram que a maior parte dos adolescentes que cumprem medida socioeducativa abandonou os estudos muito cedo. Ressalta-se que os estudos se configuram como uma atividade cujos resultados se apresentam a longo prazo, visto que a conclusão dos estudos básicos é algo que se dá após um período significativo de dedicação e empenho. Dessa forma, é uma atividade que requer persistência, autocontrole e muita tolerância à frustração, fatores muitas vezes prejudicados em adolescentes que estão em conflito com a lei.
 
Quando o jovem está desocupado, sem estudar, fica mais propenso a se envolver em atividades não exigentes, como o lazer, o uso de drogas e a convivência com o grupo de colegas. Assim, diante da desmotivação, das necessidades a serem supridas (por exemplo, uso de droga em virtude da abstinência, a necessidade de alimentação ou dinheiro) e de estímulos concorrentes com o estudo (como amizades, passeios, aventuras), o adolescente se vê em um contexto que é possível engajar-se em uma atividade que não requer tanto esforço quanto o que teria diante da escola (como o roubo) e que terá um resultado mais imediato, que é a satisfação de suas necessidades, mesmo que com os estudos haja resultados mais satisfatórios a longo prazo (como um emprego). Assim, com as atividades delituosas, o adolescente encontra um meio de suprir suas necessidades sem precisar de esforço para tal.
 
Daí a necessidade de os pais, desde cedo, educarem os filhos com afeto e limites, frustrando-lhes quando preciso, orientando-os quanto ao mundo e quanto à necessidade dos estudos. Embora na adolescência a voz do grupo de amigos muitas vezes seja mais forte do que a da família, esforços são necessários para que na infância seja feita uma boa relação com os pais, com diálogo e disciplina. É necessário que os pais se empenhem na tarefa de desenvolver nos filhos a empatia para com o outro, além de outros valores como a polidez, a vergonha, a culpa e a honestidade.
 
O desenvolvimento do comportamento moral e das habilidades sociais é algo que também é possível de se obter no contexto clínico. É inegável os muitos benefícios que a psicoterapia pode oferecer aos indivíduos que não se adaptam às normas sociais e que vivem à margem dos grupos, sobretudo as abordagens comportamentais e cognitivo-comportamentais. Por meio dessas modalidades terapêuticas, o adolescente com histórico infracional aprende novos repertórios comportamentais sobre ele mesmo e sobre o mundo, desenvolvendo novas maneiras de se relacionar. Caso seja implementada a psicoterapia enquanto o adolescente estiver cumprindo medida socioeducativa, os resultados podem ser ainda melhores.
 
No entanto, melhores resultados geralmente são aqueles obtidos quanto mais próximos do início dos comportamentos problemáticos, sobretudo quando crianças. Assim, diante da manifestação de comportamentos opositores e desafiadores na infância, procure um psicólogo de sua confiança.


[1] WAISELFISZ, J.J. Mapa da violência 2012. Crianças e adolescentes no Brasil. Rio de Janeiro: CEBELA, 2012.
[2] HASSON, M.E.; MELEIRO, A.M.A.S. Reflexões sobre a desestruturação familiar na criminalidade. In: RIGONATTI, S.P. (Coord.). Temas em psiquiatria forense e psicologia jurídica. São Paulo: Vetor Editora, 2003.
[3] ROCHA, G.V. M. Psicoterapia com infratores de alto-risco: trabalhando a mentira, a vergonha e a culpa. In: ROVINSKI, S. L.R.; CRUZ, R. M. Psicologia jurídica. Perspectivas teóricas e processos de intervenção. São Paulo: Vetor Editora, 2009.
[4] GALLO, A.E.; WILLIAMS, L.C.A. Adolescentes em conflito com a lei: uma revisão dos fatores de risco para a conduta infracional. Psicologia: Teoria e Prática, n. 7, v. 1, pp.81-95, 2005.
 
Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC. Atua como psicóloga clínica em Teresina-PI (Clínica Lecy Portela, onde atende criança, adolescente e adulto) e como psicóloga forense (Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão), em Caxias-MA. Atuou como pesquisadora no Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas”) e atualmente está vinculada ao Laboratório de Neurociências Cognitivas da Universidade Estadual do Piauí- UESPI. Contato: juliana@inpaonline.com.br.

A importância da família no desenvolvimento das crianças

 
Vocês já perceberam que quando uma criança se comporta de forma inadequada, as críticas são logo direcionadas para os pais ("Essa criança não deve receber limites dos pais", "Ele é assim porque os pais trabalham muito", "Ele faz isso porque os pais mimam demais",etc.)? E quando a criança age de maneira positiva, o méritoé todo dela ("Uau, que criança talentosa!", "Olha só que menino inteligente!",etc.)?
Parece até que os pais só são responsáveis pelos defeitos dos filhos e as qualidades brotam de forma inexplicável nas crianças. Isso levanta inúmeros questionamentos sobre o real papel que a família exerce no desenvolvimento dos filhos.

Segundo estudiosos do comportamento humano, as atitudes das crianças (e mesmo dos adultos) devem ser analisadas através de trêsprincipais pontos: acultura, agenéticae oambiente. E a família faz parte desses trêscontextos!

Acultura influencia muitos de nossos hábitos em relação à alimentação, vestuário, convívio social, entre outros. Pais que são criados em culturas diferentes, podem ensinar seus filhos a seguirem aquelas tradições. Um exemplo típico é o rigor da cultura japonesa quanto ao seguimento de regras. Crianças ensinadas a seguirem esses costumes, geralmente são bastante disciplinadas e obedientes.

As características genéticas(hereditárias) são transmitidas através dos genes e influenciam nosso comportamento desde o nascimento. Muitos aspectos da forma e do funcionamento do corpo são transmitidos por hereditariedade,como a cor da pele, tendência àobesidade, entre inúmeros outros. O perigo disso está no fato de que muitos pais justificam os comportamentos inadequados dos filhos baseados nessa informação. É importante esclarecer que comportamentos como agredir, desobedecer e desrespeitar não são transmitidos hereditariamente! Predisposições genéticas podem favorecer determinadas atitudes, mas não podem ser consideradas as causas disso.

O ambiente diz respeito a todas as relações que a criançaestabelece em sua vida. Assim, o primeiro e principal ambiente da criança é o familiar. É nesse ambiente que a criança passa pelas primeiras experiências de sua vida e aprende a agir diante de situações. É aí também que ela observa e copia as condutas dos pais, irmãos, avós, etc.

Considerando o exposto, pode-se perceber que a família é parte importante do processo de aprendizagem decomportamentos da criança, sejam eles adequados ou não. De forma direta e indireta, a família pode interferir nas condutas dos filhos. A transmissão de características hereditárias não pode ser escolhida pelos pais. Mas os hábitos ensinados, os modelos passados e as consequências dadas diante de certas condutas são de responsabilidade da família e podem determinar muitas das atitudes dos filhos!

Por Carina Paula Costelini
Instituto Innove 

Valeu a intenção

Neste final de ano, muitas crianças e jovens vão ganhar presentes, muitos presentes. Um sempre é pouco para eles, acostumados à fartura de mimos. Pelo menos dois, da mesma pessoa, é o que eles esperam.

 
E, de preferência, que sejam presentes saídos da lista de desejos --em geral, eles fazem a lista e dão aos pais.

Essa lista, aliás, deixa pais e parentes aliviados. É que comprar o que a criança já espera é uma garantia de satisfação para quem recebe, além de não dar trabalho algum para quem presenteia.

Nesses períodos em que as pessoas, em geral, não têm tempo disponível para usar com o outro, esse costume oferece um grande conforto.

Ao mesmo tempo, entretanto, há muitas crianças que irão ganhar presentes natalinos originais e criativos --ninguém terá igual.

É que os pais delas decidiram investir tempo, paciência e imaginação para confeccionar as lembranças especiais que darão aos filhos.

Uma coisa esses pais têm em comum: a dúvida a respeito da reação dos seus filhos quando receberem o presente. Vários deles acham que as crianças podem ficar decepcionadas e frustradas.

É que, em tempos de consumo desenfreado e lançamentos mil nesta época do ano, é claro que as crianças competem entre si sobre quem irá ganhar isso ou aquilo que se torna, não mais que de repente, um objeto de desejo de um grupo enorme.

Mesmo assim, esses pais acham que vale a pena. "É um modo de mudar um pouco o valor que minha filha passou a dar aos presentes que ganha", escreveu uma mãe.

Ela não sabe como foi que começou essa história: conta que a filha, de oito anos, sempre que recebe um presente pergunta quanto custou.

Essa mãe deseja que sua filha passe a valorizar, mais do que o preço do objeto recebido, a dedicação que a pessoa gastou para elaborar aquele presente.

Todos esses pais estão dispostos a correr o risco de receber caras feias, choramingos e recusas em troca do presente que darão.

É que todos eles têm uma convicção: a de que valerá a pena começar a mudar essa cultura de consumo em que a criançada entrou.

Vou citar alguns exemplos para inspirar os pais que têm vontade de fazer algo diferente para presentear os filhos neste final de ano.

Um casal que adora a arte da fotografia decidiu fazer um álbum de fotos temáticas da família desde o nascimento da filha, que tem nove anos. Os temas dos capítulos são bem interessantes: as cenas familiares mais desastradas, os momentos felizes, os choros, as tristezas, o espanto etc. Esse presente talvez não seja tão valorizado agora pela garota, mas um dia ela olhará para ele com ternura e gratidão.

Outra mãe decidiu aprender e fazer, em pouco mais de um mês, um vestido para cada uma das filhas, bordado com motivos desenhados pelas meninas quando eram bem menores.

Há também um casal cuja filha está interessadíssima nas letras. Eles compraram para ela livros com títulos que começam com todas as letras do nosso alfabeto, de A a Z.

Foi uma empreitada difícil, segundo a mãe, mas que deu em troca muita satisfação aos pais por terem conseguido realizar aquilo a que se propuseram.

E há uma quantidade enorme de pais que construíram brinquedos com sucata. Eu acho que eles se inspiraram nos próprios filhos.
Criança inventa brinquedos maravilhosos, não é verdade?

Considero esses pais corajosos, dedicados e, acima de tudo, amorosos. Eles aproveitaram uma boa oportunidade para investir no convívio familiar.

E eu aposto que, independentemente da reação de momento das crianças na hora da surpresa, eles estão colaborando para a construção de uma memória afetuosa do relacionamento entre eles e os filhos.

Fonte: Folha

Quem vai ficar com as crianças?

Tenho recebido mensagens de pais --de mães, principalmente-- que comentam as consequências que as férias escolares dos filhos provocam em suas vidas, levantam questões e manifestam dúvidas sobre o que fazer com as crianças durante o recesso.
 
 
Muitos deles perguntam se faz mal para a criança frequentar a escola nessa época, já que muitas delas oferecem recreação e cursos extracurriculares para a criançada ter o que fazer ou com quem ficar enquanto os pais trabalham.
 
Outros questionam se a criança precisa mesmo passar tanto tempo sem ir para a escola, sem encontrar seus colegas, sem ter atividades diferentes para realizar com seu grupo.
 
Há também os que reclamam. Vou citar uma leitora que, magoada, contou que havia planejado fazer um cruzeiro em meados do semestre próximo, mas que, como não encontrou alternativa para o filho, teve de renunciar ao passeio e marcar suas férias para o mês de janeiro, sem direito de viajar sozinha.
 
Alguns pais perguntam a partir de qual idade a criança pode ir para um acampamento, outros querem dicas do que inventar para os filhos fazerem em casa, perguntam se devem manter rotina, hora de sono, tempo no videogame ou computador, escola de esportes etc.
 
Há dúvidas de todo tipo. Então, vamos ajudar a esclarecê-las antes de refletir a respeito do tema.
 
Ir para a escola quando a maioria dos colegas não está lá não deve ser muito agradável para crianças, não acha, leitor? Além disso, deixar sua casa quando não é necessário --as crianças sabem o significado de férias-- é custoso para elas.
 
Descansar dos adultos que trabalham na escola, do ambiente físico, das regras que lá existem, tais como hora de se alimentar, de trocar de roupa etc., é revigorante. Você não gostaria de passar dias de suas férias em seu local de trabalho, não é verdade?
 
À escola a criança vai para aprender. Mesmo no ciclo da educação infantil, o brincar da criança é diferente e promove o aprendizado. Nem sempre sabemos dizer o que ela está aprendendo, mas que aprende, aprende. E isso é exaustivo. Por isso, a criança precisa de férias escolares, mesmo quando pequena.
 
Ter filhos significa ter de renunciar, mesmo que temporariamente, a diversas coisas. Reclamar não é produtivo, já que o desejo de ter filhos foi dos próprios pais.
 
É recente essa ânsia dos adultos de criar programação para os filhos. Eles mesmos podem fazer isso, mas só se tiverem tempo para o ócio. Claro que, depois de viver apenas com os adultos dirigindo suas atividades, eles estranharão um pouco, mas vão aprender o quanto é valioso serem donos de seu tempo, de suas escolhas, da ordem de seus afazeres.
 
Por último, vale a pena pensarmos nos motivos que levaram muitos pais a tratar as férias dos filhos como um problema. Talvez, seja difícil saber o que fazer com as crianças sem a mediação dos horários rígidos e dos compromissos da agenda escolar. Talvez, seja mais difícil ainda conviver com os filhos por períodos maiores do que os pais estão acostumados.
 
A partir de quando ficar com os filhos em casa transformou-se em um problema? Desde o momento em que ter filhos passou a ser uma ideia diferente da de acompanhar a vida de uma criança, cuidar dela, dedicar-se a ela, ficar disponível para o que possa acontecer; desde que passamos a querer viver com filhos do mesmo modo que vivíamos antes de tê-los. A partir do momento em que nossa vida desobrigada deles parece ser muito mais sedutora.
 
Por que temos filhos?
 
Fonte: Folha

Adeus, Papai Noel

Ícones da fantasia infantil influem no relacionamento consigo mesmo e com o outro na idade adulta
 
Rossella Apostoli/Shutterstock
 Às vezes descobrir a verdade pode ser muito desagradável e até mesmo violento. Todos nós, no decorrer da vida, passamos pela experiência dolorosa da perda de ilusões. Umas das mais comuns no mundo ocidental é a crença na existência do bom velhinho vestido de vermelho e branco, guiando um trenó puxado por renas que voam e distribuindo presentes para todas as crianças do mundo. A descoberta da ficção ocorre geralmente quando a criança tem por volta de 6 ou 7 anos, Nem todos se recordam do “desaparecimento” desse personagem, mas entre os que conservaram alguma lembrança, muitos lamentam a desilusão que sofreram. E ela não vem sozinha.

O fim da primeira infância é acompanhado pela mudança dos sistemas de representação, pelo abandono de certa visão de mundo. É preciso deixar para trás um universo ao mesmo tempo terrível e encantado, o que gera perdas e ganhos. Desaparece o monstro no armário, mas também a fada capaz de realizar os nossos desejos.

Estes mitos são muitas vezes vistos pelos adultos como tolices sem importância, e alguns pais tendem a considerar o desaparecimento da possibilidade de acreditar em Papai Noel apenas como uma fase necessária no processo de amadurecimento. Desse modo, porém, subestimam aspectos importantes. Um deles é o fato de que essa etapa possa ser fundamental na constituição das bases de relacionamento consigo mesmo e com o outro ao longo da vida. Afinal, não se trata apenas do desaparecimento de uma crença, mas envolve a natureza das relações que a criança mantém com as pessoas que estão à sua volta – ainda que com boa intenção, mentiram para ela. Além disso, os adultos podem menosprezar a capacidade lógica dos pequenos, embora seja justamente na qualidade de ser racional que a criança adere a esse mito, inacreditável aos olhos do adulto – e, numa nova etapa do desenvolvimento cognitivo, se liberta dele.

Então, como enfrentar o problema para permitir que esta ruptura se produza sem traumas? A garantia de continuar a receber presentes parece servir como compensação para a agitação cognitiva – é útil lembrar-se dela quando a criança confessa o fim da própria crença. Além disso, deixando de acreditar em Papai Noel as crianças têm a impressão de entrar no “círculo das pessoas grandes”, em uma espécie de rito de passagem que pode ocorrer de maneira indolor se os pequenos tiverem a impressão de tirar uma vantagem da fantasia. Por exemplo, a passagem será sentida positivamente se a criança tiver irmãos, primos ou amiguinhos menores e aceitará de bom grado transformar-se em um dos atores da pequena comédia anual. Participando do segredo, ela tem a impressão de compartilhar algo do mundo dos adultos: obtém uma missão de confiança.

Se a criança é filha única, com certeza apreciará a ideia de fazer uma brincadeira com os adultos, vestindo-se ela própria de Papai Noel na noite de Natal. Isso lhe permitirá rir com os outros – e não se sentir traída. Em geral, quando a criança começa a ter dúvidas é melhor parar de mentir. Não se trata de lhe dizer brutalmente a verdade, porque o fim inesperado da crença poderia ser mal vivenciado, mas de lhe fazer as mesmas perguntas. Se a criança perguntar por que o Papai Noel não faz isto ou aquilo, basta dizer: “E você? O que você acha?”. Mas, se ela indagar diretamente se o velhinho existe, é possível dizer algo como “É uma pergunta que você deve responder sozinha, talvez você já saiba a resposta”. Se a criança estiver pronta para juntar suas constatações próprias, como os indícios que se conectam no fim de um livro policial para que o enigma seja solucionado, ela apresentará essa conclusão. E, nesse caso, merece receber os cumprimentos por sua perspicácia. Se ainda não for a hora de abrir mão da fantasia cabe aos adultos respeitar – e aguardar.

Porém, uma última questão permanece suspensa: por que induzir as crianças a acreditar que Papai Noel existe? Não é apenas uma maneira de fazer com que tenham uma decepção no futuro? Todo pai ou mãe deve tomar a própria decisão, mas – sem pretender ter a resposta certa e definitiva – vale lembrar que as pessoas têm a possibilidade de acreditar de maneira tão pura no mundo mágico apenas uma vez na vida. Além disso, as fronteiras do país das maravilhas se fecham cedo, por volta dos 6 ou 7 anos. Mas ele pode deixar boas recordações.
 

Como escolher um brinquedo que agrade uma criança?

 
 
Bola fora
Mesmo antes da árvore de natal ser desmontada, a criança começa a perder interesse no caro brinquedo eletrônico que ainda vai aparecer várias vezes na fatura do seu cartão de crédito.
Talvez você tenha até feito para si mesmo a promessa de que não repetiria esse erro novamente "no ano que vem" - que, não por acaso, é "este ano".
Então, como escolher brinquedos que a criança tenha interesse em manter consigo?
Compre com objetivos claros
Em época de muitos gastos, dar um presente não precisa necessariamente envolver ir às compras de bugigangas de alta tecnologia e altos preços.
Antes de sair, considere a idade, os interesses e a aptidão da criança, e reflita sobre o que lhe traz um sorriso e a leva a passar horas brincando.
"A maioria das pessoas já experimentou o desgosto comprar um presente que não agradou. Muitas vezes, é porque o item é estruturado demais. Quando um brinquedo tem uma função muito limitada ele não consegue manter o interesse de uma criança. Para ajudar a evitar isso, pergunte a si mesmo, 'o que a criança pode fazer com isso?', orienta o psicólogo Dale Grubb, da Universidade Wallace Baldwin (EUA).
Roteiro para comprar um presente
Estudando o assunto, Grub desenvolveu um roteiro para ajudar a escolher um presente que não apenas agrade a criança, mas também auxilie em seu desenvolvimento.
Ao comprar um presente para uma criança, escolha um que:
  • Desenvolva habilidades físicas ou intelectuais
  • Divirta
  • Estimule a imaginação
  • Ensine socialização e a jogar em equipe
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Criatividade + variedade + estratégia = Diversão
"A variedade é também uma consideração importante", continua o psicólogo. "Embora comprar um presente que esteja fora dos interesses demonstrados pela criança gere um risco de 'presente errado', o mesmo acontece ao comprar outro conjunto de lápis de cor para o artista em crescimento ou outra bola para o aspirante a craque."
Edwin Meyer, outro psicólogo da mesma universidade, também incentiva a compra de presentes que exijam criatividade e estratégia: "Qualquer jogo ou brinquedo onde você vê uma criança sentada tentando descobrir a melhor jogada é uma boa opção."
Ele também apoia a compra de instrumentos para práticas artísticas: "Crayons, tintas, massa de modelar, entre outros materiais, oferecem maravilhosas oportunidades de aprendizagem e ajudam a desenvolver habilidades manuais."
Participar das brincadeiras
Segundo Grubb, quem dá um presente não pode pressupor que o seu papel está completo assim que o papel do embrulho é rasgado.
"É importante para uma criança estar em um ambiente onde a criatividade e o aprendizado são valorizados. Pais, familiares, amigos e cuidadores têm de participar também."
Ele afirma que se envolver com as brincadeiras da criança diz a ela que a criatividade e o aprendizado são importantes, encorajando a socialização e fortalecendo as ligações afetivas.
Mas ele se apressa em advertir que os adultos não devem se tornar excessivamente zelosos na coordenação das atividades.
"Certifique-se de que a criança está dirigindo a brincadeira," recomenda ele. "Quando você brinca de casinha com uma criança, deve permitir que a criança dirija o jogo criativo em qualquer direção. Simplesmente siga com a brincadeira, mesmo que isso signifique passar um tempo espremido dentro de uma caixa que serve de casinha," conclui ele.