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Entrevista com Helio Guilhardi

1. Como se processa a formação da personalidade no indivíduo?
 
Há na Psicologia diferentes posições teórico-conceituais sobre a personalidade. Entendo que é o conjunto de comportamentos e sentimentos que uma pessoa desenvolveu durante sua vida como resultado da interação de um intrincado conjunto de influências genéticas, de história de vida passada e de determinantes da vida atual do indivíduo. É importante entender que o indivíduo não nasce com uma personalidade pré-moldada, basicamente estável, que o acompanharia pela vida e à qual se poderia atribuir a função de causa essencial de seus atos, quer os considerados adequados, quer os considerados impróprios. A visão que atribui à personalidade a propriedade de originar as ações humanas é alienante e desloca a análise da conduta das pessoas de seus reais determinantes: todas suas vivências no decorrer de sua história de vida pessoal e sócio-cultural.

2. Que padrões de personalidade existem?

Tantos padrões quantas forem as diferentes histórias de interação de um indivíduo com seu meio afetivo, social, cultural, bem como sua história genética. Não há duas pessoas com o mesmo conjunto de comportamentos, nem com a mesma sensibilidade afetiva, simplesmente porque não existem duas histórias de vida idênticas. Nem mesmo filhos gêmeos univitelinos, criados por uma mesma família tem histórias iguais. A crença de que os pais criam seus filhos da mesma maneira é mito. Os determinantes das condutas humanas são extremamente sutis. É por essa razão que, muitas vezes, nos surpreendemos ao nos depararmos com filhos- problema provenientes de famílias aparentemente bem estruturadas. Na verdade os pais podem não apresentar padrões comportamentais claramente destrutivos (não são alcoólatras, não espancam os filhos etc.), mas cometem erros sistemáticos na educação dos filhos. O fato se tais erros serem sutis não os torna pouco significativos. A mesma frase de um pai ou mãe, digamos “você está pronto para sair?” pode ser para um filho uma simples pergunta, para outro uma crítica “você ainda não está pronto?” O que faz a diferença? Cada criança teve uma história de relacionamento particular com seu ambiente físico-social. Mesmo que os pais quisessem proporcionar idênticas condições e experiências isso é impossível. A vida é um processo que não se repete, avança. Os próprios pais não são os mesmos nas sucessivas interações com os filhos.

3. É possível detectar na infância alterações inadequadas de comportamento que o indivíduo vai ter, algum padrão anti-social na adolescência?

O padrão de condutas que um indivíduo vai apresentar na sua vida adulta começa desde seu nascimento (quem sabe desde sua concepção). Por outro lado, novas experiências sucedem-se a todo momento e vão interagindo com as vivências anteriores, dando novos rumos ao desenvolvimento da pessoa. Desta maneira, quanto mais ricas e variadas forem as experiências de vida do indivíduo mais amplo e abrangente será seu repertório comportamental, o que o habilitará a lidar mais adequadamente com os dissabores e dificuldades da vida. Embora não se possa prever especificamente o que fará numa situação adversa, pode-se prever que terá capacidade para variar seus comportamentos até encontrar uma saída adequada para si e não destrutiva para a sociedade. Por outro lado, se o conjunto de vivências durante seu desenvolvimento for razoavelmente sistemático (famílias muito metódicas, rígidas) constante mais restrito será seu repertório comportamental e menos alternativas encontrará para lidar com situações adversas. É mais fácil prever quais serão suas reações que, por apresentarem variabilidade restrita, fornecerão menos opções para enfrentar o novo. Seus padrões comportamentais terão maior probabilidade de serem nocivos para si e para a sociedade.(Embora, nunca se possa ter certeza sobre as reações humanas, uma vez que elas são multi-determinadas, por uma complexa rede de interações...). É possível detectar padrões inadequados e preocupantes em crianças, que sinalizam futuros problemas para elas próprias e para a sociedade. Tais padrões justificariam uma intervenção psicoterapêutica. E, quanto mais cedo for a intervenção maior a probabilidade de sucesso. Por outro lado, há situações em que os distúrbios de conduta ainda incipientes são pouco evidentes e passam desapercebidos pelos pais, professores, familiares. O efeito cumulativo, de tais distúrbios, porém, pode vir a ser desastroso. Freqüentemente, uma reconstituição retrospectiva é capaz de indicar que “alguma coisa” já estava germinando desde muito cedo. Há um caminho para detectar os sinais comportamentais precursores de problemas: interação próxima entre pais e filhos, observação atenta e perspicaz, convivência continua, laços afetivos fortes. Estes são instrumentos extremamente precisos e úteis para prever o que vai ocorrer com uma pessoa.

4. Que sinais devem chamar a atenção de pais e educadores para essa possibilidade?

Negativismo, oposição sistemática a regras, baixa resistência às frustrações (o indivíduo se irrita, se torna agressivo quando contrariado), pouca disciplina pessoal, falta de iniciativa para cooperar espontaneamente, falta de amigos, interesses pouco diversificados, dificuldade de concentração, pouca disposição ao diálogo, repertório verbal pobre, desinteresse por esportes, isolamento, baixa participação nas atividades familiares. Essas características não devem ser analisadas isoladamente, mas dentro do contexto de vida da pessoa. Além disso, tem que se levar em conta o grau ou intensidade desses sinais.

5. O que eles devem fazer, que encaminhamento deve ser dado para o caso? Isso pode ser tratado e revertido?

A sociedade deveria se voltar para preocupações preventivas em relação ao desenvolvimento dos padrões comportamentais dos seus membros. A prevenção é o melhor – e quase sempre o único – antídoto. As tentativas de atuar corretivamente quando os problemas já estão instalados e hiper dimensionados são muitas vezes frustrantes. A Psiquiatria e a Psicologia dispõe de recursos terapêuticos poderosos, mas nem sempre tão poderosos quanto os agentes produtores dos problemas. Acrescente-se que os tratamentos psicológicos pressupõem a adesão da pessoa ao processo terapêutico e muitas vezes a problemática do indivíduo é detectada e definida pelas pessoas que convivem com ele (seus comportamentos são aversivos para a comunidade que o cerca), mas ele próprio não concorda que tenha um problema... Neste caso o indivíduo não participa ativamente do processo terapêutico e o tratamento falha. Quando a terapia é iniciada mais cedo as perspectivas são melhores, pois as crianças apresentam menos contra-controle e resistência ao trabalho. Paralelamente, os pais devem ser envolvidos ativamente no processo terapêutico, uma vez que se seu papel foi crítico na instalação dos problemas, também será poderoso para solucionar as dificuldades.

6. A criança convive com a violência no seu dia, através da TV, videogames. O quanto isso influencia no comportamento?

Essa convivência banaliza a violência, o crime, o desrespeito ao próximo e de certa forma aumenta a probabilidade de o expectador vir a se engajar em padrões de comportamento semelhantes aos observados nos filmes, videogames etc. No entanto, o ponto mais crítico e essencial não é o acesso a esses modelos de desrespeito humano. Há dois pontos mais fundamentais: o ambiente familiar e a dinâmica da sociedade. Uma criança que não é amada, que não tem a presença dos pais para lhes dar modelos alternativos reais saudáveis àquilo a que assistem na TV, filmes etc., é uma presa fácil dessas influências. Uma criança que tem um lar estruturado, bons modelos de interação e cooperação entre os familiares, carinho (não confundir com acúmulo de itens materiais), acesso fácil a pai e mãe etc. tem facilidade em discriminar entre o que vê nos filmes e a sua realidade. Da mesma maneira, uma sociedade conivente com a corrupção, com o crime, com o desrespeito às regras, com a impunidade, que dá pouca atenção a educação, saúde, emprego, lazer etc. contribui fortemente para a deterioração moral de seus membros. Os noticiários na TV e os jornais trazem, freqüentemente, influências mais nefastas que os próprios filmes e videogames... O que se pode esperar de uma sociedade onde a fantasia e a realidade se mesclam com tamanha intimidade?

7. Pais e educadores se queixam com freqüência de que os adolescentes não tem limites, são agressivos, não respeitam regras em casa, nem na escola, tem atitudes que assustam. Como analisa isso?

Essa é, infelizmente, uma constatação. Os pais mal orientados na sua maioria, vem confundindo liberdade (que é saudável, necessária, construtiva) com ausência de limites (que é extremamente perniciosa). A combinação equilibrada entre liberdade e limite é o ponto a ser almejado. Fala-se que restrições inibem a espontaneidade, a criatividade, o bem estar emocional. Errado. As restrições na forma de castigos, proibições, “cara feia” etc. são prejudiciais se forem exageradas, não contingentes a comportamentos considerados inadequados e assistemáticas. Se os pais punem seu filho em função de seu próprio estado de humor, sem relação com o que os filhos efetivamente estão fazendo, ou se exageram na dose, ou se são imprevisíveis (ora punem, ora não, o mesmo padrão comportamental) a criança fica ansiosa, insegura e se retrai para uma “timidez patológica” ou se torna agressiva, mentirosa. As restrições sistemáticas e equilibradas dão a criança senso de limites, de responsabilidade, a consciência de que a vida é dura, difícil e que exige dela esforços. Este nível de restrições não inibe a espontaneidade nem a criatividade. Todos os gênios da humanidade nas diferentes áreas da arte, da ciência (pensem em Michelângelo pintando o teto da Capela Sistina) eram extremamente dedicados no seu trabalho, o que não se consegue sem disciplina, esforço e até algum grau de sofrimento físico. Estas características não atrapalham, pelo contrário, viabilizam suas extraordinárias criatividades. Reconhecer que a vida é difícil e exige muito de uma pessoa, a fortalece emocionalmente e ela não se desespera, nem se incapacita

diante das durezas da adversidade. A tendência da educação moderna é super proteger a criança, expô-la a um mundo irreal onde o acesso as coisas é fácil, imediato, quase sem restrições. Não deveria causar espanto constatar, então, que mais velha a criança vê o mundo como um provedor de prazeres, benefícios, privilégios e em relação ao qual ela não precisa nada oferecer. Quando algo lhe é negado, ou solicitado, ela agride e exige, sem avaliar quão descabida é sua reivindicação e desproporcional seu método de exigência. Não só o abandono, também o excesso de atenção prejudica.

8. A adolescência é uma fase de grande alteração hormonal, época em que o indivíduo mostra sua personalidade. Alguns problemas de ordem comportamental podem ser desencadeados nessa fase?

Sem dúvida as alterações orgânicas influenciam os padrões de comportamento do jovem, mas não os determinam diretamente. Pode-se dizer que alteram a disposição da pessoa para se engajar em determinadas ações. O que se pode observar é uma intensificação em padrões, de modo geral já presentes no repertório comportamental do indivíduo. Não se deve falar em mudança de personalidade, mas em mudanças de intensidade, alterações nos parâmetros das condutas. Ao mesmo tempo as relações sociais se alteram. Espera-se do adolescente o engajamento em novos papéis de interação no meio social. Esses novos papéis, principalmente aqueles ligados às áreas sexual e afetiva, à maior independência do seio familiar, à tomada de iniciativas e à experimentação do novo, são fortemente incentivadas pela comunidade. Assim, as mudanças comportamentais do jovem não tem como fonte exclusiva as alterações metabólicas, mas são fruto da interação de novos determinantes biológicos e sociais, que atuam sobre uma efervescente dinâmica de reações motoras, afetivas, psicológicas que o adolescente traz como fruto de sua história de vida. Se não houver mudanças drásticas no contexto de vida (morte de um ente querido, alterações bruscas nas condições materiais, doenças etc.) as mudanças no adolescente não chegam a caracterizar uma novidade surpreendente, nem repentina. Representam sim uma evolução esperada e desejável em direção ao seu desenvolvimento pleno. A adolescência não é uma fase da vida a ser temida, pelo contrário deve ser esperada e acolhida.

9. Em relação a trotes violentos e outras manifestações tomadas em grupo, o que faz um indivíduo participar, mesmo quando ele não tem esse potencial agressivo?

A pressão do grupo é um determinante extremamente importante da conduta das pessoas. É comum os indivíduos atuarem para atender às expectativas do outro, mesmo quando essa atuação contraria desejos íntimos. Mensagens de socialização incutidas desde os primeiros anos tornam a pessoa propensa a antecipar e a corresponder àquilo que acredita que sejam os desejos do outro. “Seja bonzinho”, “respeite os mais velhos”, “não magoe os outros” etc. são frases que quando não são adequadamente contextualizadas tornam a pessoa submissa ao outro e seus comportamentos são determinados pelas opiniões e desejos destes. Seriam mais adequadas mensagens como: “procure cooperar, porém deixe claro o que pensa e o que prefere fazer”, “nem sempre o outro tem razão”, “a expressão de forma genuína dos seus desejos e sentimentos não fere uma pessoa madura” etc. Há dois conceitos básicos para compreender o processo observado na questão: auto-estima e auto-

confiança. A auto-estima se desenvolve a partir de uma história de vida em que a criança se sente genuinamente amada, reconhecida como importante pelos que a cercam. Isso ocorre basicamente quando a criança é elogiada, aprovada, recebe carinho. Se essas manifestações de afeto, porém, só são expressas quando a criança se “comporta bem” (do ponto de vista dos pais), ela não se sente, necessariamente, amada, uma vez que “paga” o carinho recebido com seus “bons” comportamentos. Pior, aprende que deve se comportar como o outro espera que ela se comporte para ser valorizada. Sua auto-estima torna-se baixa e sua tendência é a submissão. A auto-confiança se desenvolve a partir de uma história de vida em que a criança tem sucesso com seu desempenho. Adquire, assim, consciência de que é capaz de realizar tarefas, assumir responsabilidades etc. Os pais podem favorecer o desenvolvimento da auto-confiança propiciando situações em que o filho possa fazer coisas por si mesmo, estimulando sua iniciativa. Para aumentar as chances de sucesso eles devem organizar as tarefas a serem executadas pela criança em níveis crescentes, progressivos de dificuldades, a fim de maximizar a probabilidade de sucesso. Uma criança com bom nível de auto-estima e de auto-confiança é segura, afetiva, assume responsabilidade pelos seus atos, é cooperativa, se compromete com a realidade, enfrenta desafios. É comportamental e afetivamente madura. Tem uma forte tendência a liderar construtivamente e não a ser liderada de forma alienada.

10. Muitos pais deixam para a escola a correção de padrões de comportamento e, sozinha, a escola não está conseguindo isso, os professores estão assustados. Os limites apenas na escola não são suficientes?

A escola sozinha não tem a menor chance de orientar seus “alunos-problema”. A relação com o professor pode se tornar mais uma situação em que o aluno testa seu poder de dizer “não” e avalia as conseqüências de sua oposição. Em geral, a escola não dispõe de mecanismos eficazes para consequenciar adequadamente o desrespeito do aluno. Este, bem como os demais que observam a situação, constata que a impunidade é a regra. É fácil relacionar a impotência da escola com outros segmentos da sociedade em que a impunidade é despudorada e até valorizada. A saída é a integração básica entre família e escola: ambas devem ter critérios comuns de avaliação e procedimentos comuns de consequenciação para os atos dos alunos. Se a escola considera um comportamento abusivo e os pais o avaliam como evidência de inteligência, esperteza do filho... Se a escola resolve punir um ato do estudante e os pais consideram a medida arbitrária e desmedida... Além disso, a sociedade como um todo precisa rever seus valores. Enquanto enganar o outro, levar vantagem, humilhar o mais fraco, competir forem comportamentos valorizados, as unidades funcionais menores da sociedade (família, escola) terão poucas chances de se impor. Acrescente-se ainda a imagem ruim (às vezes real) que a sociedade tem do papel da escola. A instituição escolar é considerada incapaz de preparar adequadamente o aluno, terminar um curso superior não garante emprego satisfatório, as mensalidades são caras, o currículo está ultrapassado, os professores estão desmotivados e intimidados. Não há porque o aluno respeitá-la como instituição , nem respeitar quem nela trabalha, incluindo os mestres. Qual o lugar da Educação entre as prioridades do governo?

11. Existe um caminho para mudar o quadro?

O caminho confiável é o da prevenção. Os pais precisam ser orientados sobre a maneira de lidar com seus filhos; eles precisam conhecer a fundo o processo do desenvolvimento infantil. Boas intenções não bastam para educar adequadamente um filho. Sensibilidade afetiva e conhecimento formam uma boa combinação. Basicamente uma criança precisa aprender a ter disciplina, a lidar com frustrações, a assumir responsabilidade pelos seus atos, a lidar com a verdade (toda mentira é uma distorção da realidade e nesse sentido uma “micro-alucinação”), a ser capaz de se colocar na posição do outro e “captar” seus sentimentos e necessidades, a cooperar aprendendo a se sentir gratificado pela satisfação do outro. Precisa ainda aprender a receber e dar afeto e a usar o diálogo como instrumento de conscientização de seus defeitos e qualidades. Há necessidade de se sentir amado, único caminho para desenvolver auto-estima, e de se sentir protegido na exploração do mundo, requisito para desenvolver auto-confiança. A criança deve ser cuidada pelos pais, já que o amor é o elemento fundamental e insubstituível para um desenvolvimento saudável. E a função de amar não pode, em hipótese alguma, ser delegada. Se os pais não podem assumir diretamente a função de cuidar dos seus filhos devem repensar a disposição de concebê-los. Cuidar do desenvolvimento dos filhos é atividade fundamental, não passa tempo. A prevenção envolve também alteração nas prioridades políticas. Educação, saúde, lazer, esporte, oportunidades para trabalhar e vivenciar a própria vocação são alguns dos aspectos fundamentais para o apropriado desenvolvimento do ser humano. Enquanto não forem enfatizados, a família estará desamparada e impotente para cumprir satisfatoriamente seu papel. Concluí-se que o desenvolvimento saudável do ser humano envolve a integração de vários níveis de cuidados. É necessário considerar os fatores orgânico, social, cultural, econômico, político etc. O psicológico é apenas um desses níveis.

E quando a prevenção falhou? Há necessidade de intervenções terapêuticas “arbitrárias”: psicoterapia, uso de medicação, orientação para os pais, terapia familiar e, em casos extremos até internação. São todos procedimentos intrusos no cotidiano das pessoas, de eficácia limitada, embora não se negue que tragam contribuições apesar das suas limitações. Fique claro, porém, que a ação terapêutica confirma o fracasso da ação preventiva. O que é uma lástima.

Nem todos os seres humanos são sensíveis, porém, às práticas terapêuticas. Há desvios de conduta que revelam que a pessoa não compartilha dos valores morais e éticos do seu grupo social e são, como tal, insensíveis às práticas terapêuticas conhecidas. Casos extremos de privação afetiva e de isolamento social nas etapas básicas do desenvolvimento do indivíduo produzem “entidades” (não homens) que são genotipicamente seres humanos, mas que não desenvolveram, e quase certamente não mais virão o desenvolver, características intimas fundamentalmente humanas. Falta-lhes valores morais, não possuem um código de ética existencial, não têm respeito pelo outro, nem pela vida e são incapazes de se enternecer e de amar. São feras com espectro de homem . Tristemente produzidas pelo próprio homem e pela sociedade.

12. Existe alguma receita para mudar o relacionamento entre pais e filhos dentro de casa, que resulte em adolescentes mais saudáveis do ponto de vista comportamental? do comportamento?

Os pais precisam conhecer melhor os processos de desenvolvimento do ser humano como salientei acima. As escolas, igrejas, entidades comunitárias, cursos de preparação de noivos etc. deveriam ser alertados sobre a relevância e possibilidade de promoverem cursos de orientação de pais. Mas, cursos que efetivamente se voltem para uma preparação prática, não só conceitual. É claro que esses encontros revelariam pessoas momentaneamente despreparadas para terem filhos e sobre isso deveriam ser orientadas. Como disse Eva, a personagem central do filme Sonata de Outono (de Bergman): “há pessoas que deveriam ser impedidas de ter filhos” (tamanho o mal que lhes vem a causar). Eu diria que impedi-las seria um exagero, mas conscientizá-las, sem dúvida, de suas limitações e de como poderão vir (se possível) superá-las... antes de ter um filho.

A receita básica é conseguir desenvolver um vínculo afetivo forte. Quando nos sentimos amados e amamos somos capazes de ouvir uma crítica sem defesas rígidas, aceitamos uma mudança de rumo sem resistência, participamos abertamente do diálogo que gera influências recíprocas. Se não há amor entre os que dialogam, as palavras se tornam espadas agudas das quais há que se defender e contra atacar. O vínculo afetivo, porém, não se estabelece repentinamente. É resultado de um longo e consistente processo de interação, que melhor se define quanto mais cedo se inicia. Quando a relação é de amor ela suporta equívocos de critérios, de valores, de dominância (desde que não sejam exagerados)... Para um profissional da Psicologia o melhor indicativo do sucesso de um tratamento é identificar se seu cliente foi (ou é) amado genuinamente. Porém, há que se lembrar que amor envolve sentimento e ação em relação ao outro. Amor é um sentimento que se mostra e que tem como critério de prioridade a pessoa amada (e não a pessoa que ama).

13. Como agir efetivamente com nossos filhos, como melhorar a comunicação?

O filho é um produto dos pais e do mundo. Como tal não repete os pais, vai além e é único. Para bem conhecer seu filho os pais tem que observá-lo, estar ao seu lado, ouvi-lo e vê-lo sem intervenção para melhor captá-lo. Os filhos não deveriam repetir os pais, mas ampliá-los. Nossa intervenção deve ser diretiva no início do seu desenvolvimento a fim de mostrar-lhes os limites para sua segurança e dos que os cercam. Uma vez adquirido um padrão de conduta e de valores básicos (e isso varia de acordo com a família e a comunidade) então, a diretividade deve ir se esvanecendo gradualmente para que o indivíduo consiga ele próprio passar a ser um agente ativo de sua vida. O destino não está pré-determinado: é constituído ativamente a cada ato da pessoa. Nós atuamos no mundo e assim o transformamos; mas, nossas ações também são influenciadas pelas transformações que produzimos. Essa interação de influências recíprocas em que sou sujeito de transformações do meu ambiente (físico, social e psicológico) e ao mesmo tempo objeto transformado pelo mundo sobre qual atuei, é que dá ao homem a privilegiada posição de se tornar um ser consciente que constrói sua existência.

14. O futuro pode sinalizar com a necessidade de um treinamento especial para pais de adolescentes, como forma de tentar melhorar os relacionamentos e atitudes do indivíduo diante da sociedade?

Essa necessidade já existe. Ou seja o futuro já chegou. Pena que poucos tenham consciência disso e atribuam a conceitos alienantes, tais como “personalidade”, “força de vontade”, “livre arbítrio” a função de produzir a melhora das pessoas. Esses conceitos desviam a atenção dos verdadeiros determinantes dos comportamentos humanos: seu arsenal genético, sua história de vida e sua relação atual com o mundo físico, social e cultural. Enquanto se buscar dentro dos indivíduos as causas primárias dos seus comportamentos, a compreensão do ser humano não evoluirá satisfatoriamente. È o mundo que cerca a pessoa que precisa ser melhorado pelas nossas ações. Esse mundo inclui o ambiente físico, as pessoas, a sociedade, a cultura. Quando ocorrerem progressos significativos nesses componentes da nossa existência o homem viverá melhor e se sentirá mais feliz.

15. Existe algum atalho que facilite o entendimento entre as gerações. Por que a maioria dos pais não entende comportamento que já vivenciou quando era mais jovem?

Os pais conseguem acompanhar e influenciar o desenvolvimento dos seus filhos até uma certa etapa. Isso é desejável e fundamental. Mas, o filho não deve restringir suas experiências de vida àquilo que os pais lhes oferecem. A uniformidade numa cultura determinaria o seu fim. Há necessidade da diversidade. Os filhos ao experimentarem vivências próprias se diferenciam dos seus pais e geram variabilidade, tão necessária para a evolução da comunidade humana. A partir de um estágio de desenvolvimento do filho, os pais – por não terem vivido as mesmas experiências dos filhos – não estão mais habilitados a propor-lhes regras de conduta válidas. A sociedade evolui a partir da evolução dos seus membros e os pais não estão completamente preparados para conduzir os filhos além de determinados níveis. Nem todas as variações são benéficas para a sociedade, ou para o indivíduo. Caberá a sociedade e ao indivíduo (não aos pais em particular) selecionar quais padrões de comportamentos devem ser preservados (para benefício do indivíduo e da cultura) e quais devem ser eliminados.

16. Alguns dizem que as crises mais bravas de relacionamento passam com a idade. É verdade ou mito?

Não há mudanças pela inércia. A mera passagem do tempo não muda comportamento. O que muda comportamento é a percepção das conseqüências desse comportamento. Quanto mais consciente um indivíduo, mais perspicaz ele é para observar as conseqüências (se desejáveis ou não) do seu ato. Consequentemente, mais apto ele estará para manter ou alterar determinado padrão de conduta. Paralelamente, a flexibilidade (característica oposta à rigidez) comportamental faz com que o indivíduo seja capaz, ao avaliar as conseqüências do seu comportamento, de alterar rapidamente seus comportamentos e testar novas possibilidades. Perspicácia para observar as conseqüências dos comportamentos e flexibilidade para testar novas alternativas comportamentais compõem a interação necessária para as mudanças.  
 

Mães conversam mais com os bebês durante a gravidez do que durante os seis primeiros meses, diz pesquisa

Levantamento apresentado em simpósio sobre desenvolvimento da primeira infância também aponta que mais da metade das mães acredita que processo de aprendizagem só começa após este período
 
Ouça a reprotagem, clique aqui

Sinais de que há algo errado com o comportamento da criança

A seguinte matéria foi elaborada pela jornalista Cristiane Marangon, do Site do Bebê (Editora Abril) em maio de 2012, tendo como um dos entrevistados a psicóloga e colunista do Blog do InPA Juliana de Brito Lima.


Detectar desconfortos emocionais nos pequenos não é tão simples quanto perceber os de ordem física. Saiba reconhecer indícios como agressividade, recusa a se alimentar, problemas de sono, entre outros, e identificar suas causas

Desejar que um filho cresça saudável, feliz e que nada de mal aconteça a ele é natural e faz parte de cada dia da vida de pais e mães. A pergunta “será que está tudo bem o meu filho?” ecoa como um mantra na cabeça dos adultos. Afinal, quais são os sinais que revelam que algo está fora dos padrões?

Para a psicanalista e professora Isabel Kahn Marin, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o principal critério é observar se a criança, frente ao novo, busca coragem para ir adiante. “Estranhar as novidades é comum. O que não pode acontecer é a paralização diante de um desafio”, explica. “Não conseguir dormir, ter medo de tudo, ficar calado demais e ter atitudes de recusa o tempo todo são indícios de que algo não vai bem.” Cuidado apenas com os diagnósticos antecipados. O pequeno pode até não querer comer, mas, se no fim das contas se alimenta, tudo corre dentro da normalidade.


Em um primeiro momento, as referências familiares são fundamentais para detectar qualquer dificuldade. Pais, mães, avôs, avós e babás devem se organizar para ajudar o pequeno. “Se ele quer o brinquedo de outro garoto e, por isso, joga a areia do parque nele, cabe aos responsáveis orientá-lo, alertando que essa atitude não é adequada”, ensina a professora. “É fundamental a mediação de um adulto para que ele se adapte às exigências do mundo.”



Quando uma dificuldade não é resolvida em casa, vale conversar com os profissionais que atendem a criança – professor e pediatra. Caso não se observe mudanças importantes nas manifestações de desconforto, o caminho é buscar orientações com profissionais ligados ao desenvolvimento infantil, como os psicólogos.

Cabe ressaltar que muitos problemas apresentados sofrem influência paterna ou materna. Agressividade pode indicar pais permissivos ou abusadores e ansiedade tem a ver com pais autoritários ou também ansiosos. “Muitas vezes, na psicoterapia infantil, um treinamento parental é o suficiente para reduzir a frequência do comportamento problemático”, afirma a psicóloga Juliana de Brito Lima, de Teresina (PI), e também colunista do blog do Instituto de Psicologia Aplicada (InPA), de Brasília (DF).

Segundo a psicóloga não é raro encontrar crianças com problemas de comportamento que são reflexo de desajustes conjugais ou mesmo emocionais de seus progenitores, uma vez que elas estão sensíveis ao ambiente que as cerca. “Daí a importância da avaliação comportamental do pequeno e encaminhamentos dos responsáveis para outros tratamentos, como terapia de casal ou individual.”

Comecinho de vida

Os bebês, desde cedo, apresentam sua personalidade, mesmo que ainda em formação. “Com o tempo, identificamos suas preferências e aprendemos a vê-lo como um indivíduo, trazendo em si aquilo que diferencia um ser humano de outro – sua subjetividade”, explica a equipe do Entre Laços – núcleo de atenção à primeira infância. “Quanto mais nos abrimos para ler o bebê, mais aprendemos sobre ele!” Para que sua mensagem seja interpretada pelo adulto que o cuida, é fundamental estar aberto para aprender e ensinar como a relação entre eles vai se desenvolver.

No início da vida, a criança traduz, por meio do corpo, suas experiências psíquicas. Ela pode expressar bem-estar quando o desenvolvimento se dá de maneira harmoniosa ou algum sofrimento psíquico quando algo não vai bem. “Ao observarmos como acontece a alimentação, o sono, a vocalização, o olhar, o brincar e a postura desse bebê, podemos traçar um panorama de como ele está se desenvolvendo do ponto de vista cognitivo, social e emocional”, afirmam os profissionais do Entre Laços.

Bebês que comem demais ou rejeitam com frequência diversos alimentos, que dormem muito ou mantém um sono curto por longo período, que não se comunicam com o olhar ou emitem gritos inarticulados ou mudismo excessivo, que não interagem ao brincar com o próprio corpo ou na exploração de objetos, que apresentam o corpo relaxado ou tensionado demais podem estar sinalizando que algo não vai bem do ponto de vista emocional.

Vale destacar que o estranhamento a cada fase nova de seu desenvolvimento é esperado, como apresentar dificuldade de sono por mudar do berço para a cama ou recusar a se alimentar na passagem da dieta pastosa para a sólida. Os adultos serão os condutores dessas mudanças. Se elas forem feitas respeitando o ritmo individual, as fases de estranhamento não devem permanecer por muito tempo.


Pouco depois

Mesmo quando o quando o bebê cresce e já faz uso da fala para expressar seus desejos e protestos, os adultos que o rodeiam devem se atentar. O fato de começar a dominar o discurso não quer dizer que ele já domina as causas de seu desconforto, principalmente se for emocional. “O que dá pistas de que algo não vai bem é, de novo, o seu comportamento”, explica o pessoal do Entre Laços. “Além de todos os sintomas já citados como preocupantes para os bebês, roer unha, diminuição do apetite, reagir à entrada na escola e pesadelos também são indícios.” Vale destacar que essas manifestações podem ser ocasionais, frente à introdução de novidades, afinal, qualquer um apresenta alguma mudança de comportamento diante do novo.

Juliana enfatiza outros fatores de observação, considerando a necessidade de auxílio profissional: apatia, tristeza, irritabilidade, olhar vago ou perdido, esquiva de contato visual, atrasos na aquisição e desenvolvimento da linguagem e psicomotricidade, dificuldade na compreensão e aprendizagem, déficit no seguimento de regras impostas pelos cuidadores, agressividade, agitação psicomotora e perturbação do sono.

Os cuidadores, ao observarem mudanças de comportamento nos pequenos, podem traduzir o que imaginam estar acontecendo, independentemente de sua idade: “Você pode estar estranhando essa nova comida, mas já tem dentinhos fortes e condições de mastigar”, “Sua cama está diferente, mas o papai e a mamãe vão continuar contando historinhas antes de você dormir”. Com palavras tranquilizadoras e apostando na condição da criança de superar as dificuldades iniciais, o comportamento não tende a persistir.

Bem maiorzinho

Quando ingressa na escola, a criança exercita aspectos cognitivos (pela aprendizagem de conteúdos escolares) e sociais. É nessa fase que se desenvolve a socialização, pois já é possível interagir, brincar em grupos e assimilar regras, valores, habilidades (como civilidade, expressão emocional, empatia, fazer amizades e resolver problemas interpessoais).

Os pais devem observar, sobretudo, dois sinais: se há problemas acadêmicos (baixo desempenho escolar, alguma dificuldade de aprendizagem, baixas concentração e atenção, agitação ou retardo neuropsicomotor, recusa de ir à escola, ansiedade diante de atividades escolares) e prejuízos sociais (se exclui ou é excluído dos grupos de amigos, se é isolado, se é bem quisto pelos colegas, se é agressivo ou retraído diante dos amiguinhos etc.). Como a criança chega da escola também merece de atenção. Perceba como ela relata as atividades acadêmicas de que participa (se com entusiasmo ou apatia, por exemplo), se chega com dúvidas que poderia ter sanado com os professores e como interage socialmente.

Recomenda-se que os pais observem um pouco a criança antes do início das aulas ou na saída da escola. “Muitas vezes, as questões escolares são fontes de ansiedade quando um fracasso ou um erro vem acompanhado de uma punição. É o caso das provas, que podem desencadear ansiedade significativa quando a família é exigente quanto às notas”, explica Juliana.
 É importante avaliar cada comportamento em seu contexto, buscando variáveis que o influenciam e o mantêm. O contato frequente com os professores e com os demais pais nas reuniões escolares e a conversa diária com os filhos, verificando como foi o dia, o que aprendeu, quem são os amigos, de quem gosta mais, o que faz diante de alguém que não gosta muito, também constituem fatores que ajudam na detecção precoce de problemas infantis, favorecendo um melhor prognóstico.
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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
Telefone - (61) 3242-1153

Já pensou se todo mundo torcesse pelo mesmo time

Pequena reportagem sobre tolerância e respeito às diferenças, baseada no livro JÁ PENSOU SE TODO MUNDO TORCESSE PELO MESMO TIME de Almir e Zilda Del Prette.


O livro é indicado como entretenimento para crianças de todas as idades mas é também útil para pais e professores que podem usá-lo como recurso educativo para ensinar valores às crianças.
 

O assunto é mesada...

Entrevista concedida pelo Prof. Hélio Guilhardi à Revista Integra



1) Como os pais devem proceder quando os filhos lhes pedem dinheiro? Dar o dinheiro à medida que vão aparecendo as necessidades ou estipular um valor a ser dado mensal ou semanalmente?

H Lidar com dinheiro faz parte de uma aprendizagem abrangente que envolve as maneiras de manejar os múltiplos aspectos da vida, o que extrapola, portanto, a especificidade dos aspectos financeiros ou econômicos. Por essa razão, a relação que os pais desenvolvem com seus filhos, ao estabelecer as práticas do uso de dinheiro, pode ser muito educativa. Assim, para dar um exemplo, se o filho pede dinheiro para comprar um sorvete durante um passeio, o pai pode lhe dar o dinheiro, dizendo a ele: “Tome esta nota de dez reais. Mas vamos antes comigo até a livraria e depois você compra seu sorvete. Aproveite e compre também um ‘sonho de valsa’ para sua irmã. Fique esperto porque ainda vai sobrar troco”. Com essas instruções, o pai estará ensinando os seguintes aspectos fundamentais para o desenvolvimento sadio do filho:

- controlar a impulsividade e aumentar a tolerância à frustração, uma vez que o dinheiro está disponível para comprar o sorvete, mas o filho deve fazer alguma coisa antes, o que atrasará o acesso imediato à gratificação;
 
- pensar no outro e fazer alguma coisa em benefício do outro, no momento em que o pai o lembrou de que a irmã gosta de bombom, dando-lhe um modelo de cooperação e de ficar atento aos interesses, desejos, necessidades etc. do outro;

- desenvolver sentimento de responsabilidade, pois lembrou ao filho que haverá sobra do dinheiro e, sem dirigi-lo diretamente, poderá observar e intervir, se necessário, na iniciativa do filho de devolver o troco, que pertence ao pai;

- desenvolver sentimento de autoconfiança, ao organizar uma situação na qual o filho fará várias atividades sem ajuda do pai, tais como: escolher o sorvete, solicitá-lo à atendente, comprar o bombom, pagar, aguardar e conferir o troco etc., o que envolve tomar iniciativa, assumir a decisão de uma escolha, interagir socialmente, vencer a timidez etc.

Se este tipo de preocupação estiver presente na interação entre pais e filhos, desde muito cedo na vida da criança, partindo de situações simples, compatíveis com as habilidades atuais da criança, esta se sentirá competente e protegida. Aos poucos, o filho irá generalizando e ampliando para novas situações o que aprendeu e sentiu, sem necessidade de qualquer tipo de orientação direta, aprimorando seu desenvolvimento afetivo e comportamental. Respondendo diretamente à pergunta, enfim, os pais devem atender inicialmente às necessidades imediatas da criança, mas com a preocupação de proporcionar o desenvolvimento de autocontrole. Isso poderia ser feito dando uma quantia maior de dinheiro para o consumo planejado e moderado de alguns dias e, a partir daí, ir aumentando gradualmente as exigências que irão aprimorando passo a passo o autocontrole.

2) Quando os pais optam por dar a mesada aos filhos, como ela deve ser encarada por ambos os lados? Obrigação dos pais? Merecimento dos filhos? Ou apenas um instrumento de educação financeira?

H A mesada não deve ser enfocada como uma interação especial entre pais e filhos, diferente de outras interações. É obrigação dos pais pagarem o médico, a escola, a roupa, a comida dos filhos? Esses itens raramente são questionados, pois fica claro que se os pais não assumirem essas responsabilidades haverá danos para ambos os lados. Pais e filhos devem compartilhar direitos e obrigações: cada qual deve dar o melhor que puder e, se não for possível dar, isso deve ser explicitado sem nenhum sentimento de culpa ou de incompetência. Há alguns parâmetros para guiar o ato de dar. A doação deve envolver o amor agápico, aquele amor em que meu maior bem é o bem que produzo para o outro. Deve envolver reciprocidade: quando uma pessoa aprende apenas a receber e não é ensinada a dar, torna-se egoísta e tem dificuldade para reconhecer, espontaneamente, o bem que vem recebendo; diz-se que é ingrata. Os pais devem ensinar os filhos a retribuir, a ter a iniciativa de dar e não, simplesmente, esperar que tais comportamentos surjam naturalmente. Mais que isso, devem ensinar aos filhos que devem dar não apenas para aqueles de quem receberam algo. O ato de dar deve ser por amor e cooperação e não por dever; assim também retribuo o bem que recebi de alguém, fazendo o bem para um outro alguém qualquer. A doação deve envolver limites: quem recebe tudo o que deseja e de imediato, se torna impulsivo, consumista compulsivo e terá enormes dificuldades para lidar com o “não”, com limites, com conseqüências gratificantes que só aparecem a médio ou a longo prazo. A criança deve ouvir “sim” e “não” e deve também aprender a dizer “sim” e “não”. A mesada não é obrigação dos pais; não é direito dos filhos. É uma forma de interação — em particular, envolvendo dinheiro —, na qual aquele que tem dá (os pais, no exemplo) — dentro de certos limites - o que o outro (o filho, no caso) não tem, para benefício deste, sem prejuízo para nenhuma das partes envolvidas. O filho, por sua vez, sempre terá algo a dar para seus pais: um sorriso, um abraço, uma conduta equilibrada, um ato de cooperação, amostras de um desenvolvimento sadio etc., simplesmente porque isso tudo se pode dar por amor, por respeito, por gratidão aos pais. Nunca por obrigação, nem só por dever.

3) Seria interessante estabelecer um “pagamento” por atividades consideradas positivas pela família dentro do lar, como por exemplo, arrumar o quarto, manter os brinquedos em ordem etc? Ou o dinheiro da mesada deve ser dado independentemente da realização dessas tarefas?

H Independentemente. O lar é um contexto de vida e de interação entre todos. Não há patrão, nem empregado. As responsabilidades, os deveres, assim como os prazeres, devem ser compartilhados de maneira cooperativa e harmoniosa, cabendo a cada um fazer aquilo que está dentro de suas possibilidades e desejos. No entanto, meus desejos não podem reinar soberanos, pois há o risco de prevalecer o egoísmo e a prepotência. Meus desejos devem ser limitados pelos desejos do outro que convive comigo. O diálogo pode gerar acordos harmônicos para benefício de todos. Mesada não é salário por tarefa realizada. Mas as tarefas devem ser realizadas... por todos, mesmo reconhecendo que algumas podem ser desagradáveis para mim. Mas podem ser indesejadas para o outro também. A mesada deve ser vista como um instrumento para o filho ter acesso a coisas, eventos, situações que são importantes para o seu desenvolvimento pessoal; para dar acesso a um livro, a um filme, a uma viagem, a uma festa, a uma roda de amigos, a um encontro com a namorada etc. e não como instrumento de prepotência, de exibição e de exercício de poder. Isso também vale para os pais: o dinheiro que eles entregam ao filho não deve ser um instrumento de coerção, de domínio, de opressão.

4) Uma vez que tenham optado pela mesada, a entrega do dinheiro é suficiente para uma boa educação financeira? Ou os pais devem aproveitar essa situação para educar os filhos quanto ao valor do dinheiro, quanto ao uso parcimonioso, quanto à sua destinação?

H As respostas anteriores esclarecem a questão. Mas volto a insistir que o dinheiro é instrumento de poder num sentido amplo. Às vezes, o uso parcimonioso do dinheiro, que aparentemente indicaria um equilíbrio na esfera financeira, pode ser uma estratégia para acumular bens e mais dinheiro, para usá-los como instrumento de poder e de opressão. O fato de o dinheiro ser instrumento de poder não significa que ele deva ser usado para oprimir. Além disso, o poder pode - e deve – ser usado para o meu bem e para o bem daqueles que me cercam. Os pais devem sim ensinar seus filhos a observarem as suas necessidades e a tentarem supri-las; mas devem também ensiná-los a ficar atentos às necessidades dos outros e a tentar supri-las. Este raciocínio não se aplica estritamente ao uso do dinheiro. O uso do dinheiro pode ser visto como uma metáfora de tudo aquilo de que uma pessoa é capaz. Todas as minhas capacidades devem estar a meu serviço e a serviço daqueles que me são relevantes. Ter dinheiro é apenas um dos itens – aliás, nem o mais relevante -, para nos capacitar a lidar com a vida.

5) A mesada deve ser dada a partir de que idade? E a educação financeira? Deve começar a partir de quando?

H O mais cedo possível, a criança deve entrar em contato com as relações de troca e, quando possível, estas devem ocorrer de forma consciente. Quando uma mãe brinca com seu filhinho bebê durante o banho e este ri com os afagos, já há uma troca. A passagem para as trocas que serão mediadas pelo dinheiro ocorrerá num momento além. Não há idade específica para ensinar o uso do dinheiro, pois esse uso ocorrerá normalmente durante o processo de desenvolvimento da criança. Quando dou uma bala para meu filho e digo que deve chupá-la só após o almoço, estou ensinando uma relação equivalente a dar-lhe uma moeda e dizer-lhe para aguardar o momento apropriado para gastar. Devo dar a bala e devo dar a moeda, como devo dar um brinquedo, um livro, um passeio no bosque etc. e, com tudo isso, ensino alguns conceitos básicos da vida. Quando programo com meu filho, na 2a feira, que irei levá-lo ao bosque no sábado, estou lhe dando algo: meu amor, uma promessa, uma esperança, uma visão antecipada de um programa gostoso... Tudo isso ele guardará e virá a usufruir com moderação, mas com entusiasmo, dias depois. Não é análogo a ter, guardar e usar no momento oportuno? A própria criança acaba fazendo a passagem de um nível de interação vivencial para outro nível. Informações específicas – como usar um cartão de crédito, como aplicar algum dinheiro, como controlar a conta bancária -, quando o filho for mais velho, serão aprendidas facilmente, quando os comportamentos básicos já estiverem devidamente instalados. Não se aprende a lidar bem com o dinheiro repentinamente, sem uma base de formação que ensinou a pessoa a lidar bem com as múltiplas facetas da vida: moderação, cooperação, autocontrole, respeito ao próximo etc.

6) A criança ou o adolescente deve participar da elaboração do orçamento familiar? Em que medida?

H A criança e o adolescente devem participar de quaisquer problemas ou planos familiares. Os filhos são parte funcional da família e não apêndices, que só são acionados em momentos específicos, ou quando os assuntos são “para crianças”. Há pais que dizem que nunca brigaram diante dos filhos. “Sempre nos trancamos no quarto, para discutir nossas diferenças”, costumam dizer. Seria ingênuo imaginar que as portas e paredes não têm ouvidos infantis nessas ocasiões e que os sentimentos e percepções dos filhos estão adormecidos. Todo problema ou plano familiar deve ser compartilhado por todos da família, mantidas, por certo, limitações inerentes às faixas etárias. Isso é verdade se os problemas forem moderados. Se as desavenças e problemas são agudos, então os próprios pais devem procurar ajuda profissional específica para o problema e não envolver e nem usar os filhos durante os conflitos. Os filhos, às vezes, têm importantes sugestões para encaminhar problemas, que os adultos não conseguem desvendar (não foi uma criança que gritou no meio da multidão: “O rei está nu?”). Além disso, em situações difíceis, os pais sentem-se aliviados sabendo que os filhos conhecem as dificuldades em curso, e não precisam usar o recurso da farsa: “Nada de preocupante está ocorrendo!”

7) Até que ponto os pais devem interferir na forma como o dinheiro da mesada está sendo gasto? Se os filhos quiserem fazer algo com o dinheiro com o qual os pais não concordem – comprar cigarros ou bebidas alcoólicas, por exemplo – como eles devem proceder?

H Os pais não devem ser cúmplices daqueles desvios dos filhos, que podem acarretar, a médio ou a longo prazo, prejuízos drásticos para estes. Há outros desvios também graves, mas que não aparecem de forma tão clara. Assim, por exemplo, os avanços tecnológicos determinam muitos comportamentos e sentimentos humanos, sem que as pessoas se dêem conta disso. A produção de bens de consumo descartáveis (“use e jogue fora”; “troque logo o modelo – de carro, de computador etc. -, pois o seu já está ultrapassado”; “é mais barato comprar um novo relógio do que pagar o conserto” etc.) interfere na vida cotidiana de maneira tão sutil e desastrosa, que as pessoas passam a lidar umas com as outras como se fossem bens de consumo a serem usados e, em seguida, postos de lado, como produto descartável. Os pais devem estar atentos a esse tipo de problema e lembrar-se de que o dinheiro facilita o envolvimento com tal estilo de desumanização do homem. Assim, se o dinheiro está sendo usado com bebidas ou drogas, casos extremamente preocupantes, retirar a mesada ou reduzi-la drasticamente pode ser uma alternativa, mas não basta. Há necessidade de um conjunto de medidas de intervenção para se obter um bom resultado “terapêutico”. Já ocorreram outros erros no passado, na interação pais-filhos, que ultrapassam a questão da mesada e da quantia de dinheiro disponibilizado. E esses erros provavelmente continuam ocorrendo. Há necessidade de avaliação e orientação profissionais mais profundas sobre o que está ocorrendo. Por outro lado, quando não se está falando de problemas graves – como álcool e droga - é de se esperar que os filhos tenham preferências e hábitos diferentes daqueles apresentados pelos pais. É preferível, por parte dos pais, maior tolerância; afinal, os filhos não têm que ser como eles querem que os filhos sejam. Permitam, os pais, que os filhos ensaiem seus vôos e aprendam com as conseqüências de seus atos. Um grupo homogêneo na forma de agir, pensar e sentir se condena à própria degradação. A evolução de uma comunidade, pequena como uma família ou extensa como uma nação, será mais saudável e sólida se houver heterogeneidade entre os membros que a compõe.

8) É correto os pais darem palpites sobre a compra – com o dinheiro da mesada, evidentemente - de produtos que julguem supérfluos ou desnecessários?

H Se dar palpite não significar “impor”, não vejo problemas. Os filhos podem saber o que os pais pensam sobre a vida, sobre as atividades dos filhos etc. Esse diálogo é importante porque, através dele, podem ocorrer influências recíprocas: os filhos podem ponderar os argumentos dos pais e concordar ou discordar. Da mesma maneira, os pais podem aprender melhor as razões dos atos dos filhos. Influência recíproca não significa opressão. Humildade para aprender com o outro é louvável e não uma fraqueza. Ceder é uma forma de aprofundar as relações, desde que a concessão não seja hipócrita, nem por fraqueza. Neste caso não haveria autenticidade na relação. É preferível saber o que o outro pensa e como ele agirá – mesmo que se possa discordar dele – do que ser iludido por palavras doces que se quer ouvir, mas que omitem a realidade.  

“É preciso ser menos egoísta"


Entrevista que o psicólogo Hélio Gulhardi concedeu para o jornal A Gazeta, Vitória - ES

Texto: Paula Stange

“Educação vem de berço”. O bordão é antigo, mas está esquecido pela atual geração de pais de crianças e adolescentes, que estão empurrando essa tarefa para os professores. “Antes, a criança chegava pronta à escola”, destacou o psicólogo paulista Hélio Guilhardi, que esteve em Vitória na semana passada, a convite da Rede Salesiana, para falar aos professores sobre como melhorar a relação com a família. Na conversa com A GAZETA, o psicólogo dá conselhos importantes aos pais - e também um leve puxão de orelha.

Por que as famílias estão abrindo mão do papel de educar seus filhos?

As famílias são vítimas de uma pressão e da nova dinâmica da sociedade. Querem ter filhos, mas não podem deixar de trabalhar. Aí, se enchem de culpa por não terem tempo para ficar com as crianças e passam a apelar para soluções paliativas. Acabam vitimando as escolas, que têm que assumir a responsabilidade de educar seus filhos.

O bordão “educação vem de berço” está meio esquecido?

Está. Antes, as crianças eram mais educadas, mais obedientes e mais disciplinadas - talvez até de forma exagerada, reprimida. A criança chegava pronta à escola, que só ficava com o trabalho técnico da educação, da instrução. Quando os pais passaram a se sentir inseguros e culpados por não estar tão próximos dos filhos, a escola tentou ocupar esse espaço. Mas ela não tem condições de fazer bem as duas coisas.

E qual o papel da escola?

A escola deve instruir, passar o conhecimento técnico, criar condições para a criança aprender a atuar na comunidade, socializá-la no sentido mais amplo, em níveis que a família não é capaz de levar. Deve estimular novos interesses e repertórios para além do círculo familiar. Acho que a família também pode cuidar desses aspectos, de acordo com sua competência e seu conhecimento, mas confiando que escola vai ser o complemento.

Uma das principais queixas dos professores é a indisciplina dos alunos. Falta limite em casa?

Os pais devem detectar desde cedo os primeiros sinais do mau comportamento e corrigir. A escola tem suas regras. O professor tem sua autoridade, mas não pode dar uns tapas no aluno e colocá-lo de castigo. Antigamente, dizia-se “O professor tem sempre razão”. Claro que não é bem assim. Mas a família deve reforçar a disciplina que é dada na escola. Se o menino levou uma suspensão, deve ter castigo equivalente em casa. Caso contrário, vai adorar ficar de folga em casa. Mas o que se vê é pai dizendo “Quem esse professor pensa que é para fazer isso?” ou “eu pago a mensalidade”.

Outra reclamação dos professores é a ausência dos pais nas reuniões.

Eles devem tirar um tempo para ir às reuniões, que não são “uma bobagem que a escola inventou”.Vemos que a maioria dos pais que participam das reuniões são pais de alunos sem problemas. As famílias que estão com problemas não querem dividir isso com a escola e ficam posando de “estamos todos bem”. Quando a escola as chama para falar do aluno, dizem “mas ele é malcriado aqui?”, omitindo ou mentindo sobre o comportamento do filho, que geralmente é ruim em casa.

Como driblar a falta de tempo e cuidar da educação dos filhos?

Acho que estamos numa transição. Antigamente, as mães ficavam 100% do tempo com os filhos em casa. Hoje, praticamente não têm nenhuma disponibilidade para eles. Mas as famílias vão ter que se organizar de forma diferente, e a sociedade vai ter que rever essa questão também, permitindo, por exemplo, que elas passem mais tempo com os filhos, trabalhem meio período.

Enquanto isso, o que a família pode fazer?

É possível dar pequenos passos. Por exemplo: o pai sai do trabalho às 18 horas e quer ir para a cademia. Em vez disso, pode ir direto para casa e levar o filho para andar no calçadão. Se quer ir ao cinema, deve dar preferência ao filme que a criança quer ver. Tem que abrir mão, ser menos egoísta. Deve se interessar pelo que o filho está estudando, acompanhá-lo no dever de casa. Há mulheres que trabalham fora, fazem inglês e ainda MBA. Só vêem os filhos no final de semana. Isso está errado.
 

O motivo por trás dos tiros

Fui procurada pela Jornalista Flavia Bianchi do Jornal da Universidade Federal do Paraná para conceder uma entrevista sobre Bullying. Confiram a interessante reportagem...
 
Reportagem Flavia Bianchi
Edição Carla Cavagnolli

O motivo por trás dos tiros

Embora possa parecer brincadeira de criança, o bullying pode acarretar consequências futuras alarmantes
 
O estudante de Letras Lucas Seman, 18 anos, não enfrenta problemas sérios de relacionamento, mas nem sempre foi assim. Dos 13 aos 16 anos, o convívio social era perturbado, já que Lucas foi vítima de um tipo de violência muito comum: o bullying.

A escola, tida como o primeiro lugar onde a criança se impõe socialmente fora de casa, é o principal palco da agressão. Sendo o bullying um ato de violência física ou psicológica e executado dentro de uma relação de poder, não é de se surpreender que algumas vítimas carreguem marcas pela vida toda. Lucas diz não possuir traumas dessa época, entretanto, nem sempre é isso o que ocorre.

 
Continue lendo: Jornal UFPR
 

Depressão na Infância e na Adolescência

Entrevista com o psicólogo Hélio José Guilhardi sobre o tema "Depressão na Infância e na Adolescência" concedida a revista Mackenzie


1. Porque o número de casos de depressão na infância e adolescência tem aumentado? A que se deve este aumento?

R: O mundo tem se tornado, progressivamente, mais complexo. Os desafios para lidar com ele exigem padrões comportamentais muito elaborados, em que a diferença, entre o desempenho que leva ao bem-estar e ao desenvolvimento e aquele que produz insatisfação e fracasso, é sutil. Depressão é um sentimento produzido por condições de vida diante das quais a pessoa não possui um repertório de comportamento para lidar com elas de maneira satisfatória, qual  seja, reduzir os eventos aversivos e melhorar as condições favoráveis e satisfatórias. O que contribui para esse déficit comportamental? Excesso de liberdade, com pouca orientação e falta de limites para lidar eficazmente com as situações adversas e, até mesmo, com as gratificantes. Maior acesso às informações, sem parâmetro para distingüir o “joio” do “trigo”. Afastamento de fontes tradicionais de limites para ação, as quais tinham diretrizes construtivas para o desenvolvimento humano, tais como a escola, a religião e a estabilidade da família. (O fato de que tais instituições no passado exageraram nos controles coercitivos sugere que os exageros deveriam ser amenizados e não que eles devessem ser esvanecidos e tão enfaticamente enfraquecidos.) O despreparo dos pais para lidar com seus filhos: criar é diferente de propiciar desenvolvimento através do amor. “Pouco tempo com qualidade” tem sido usado como justificativa para “pouco tempo com consumismo e prepotência”: os filhos usufruem de prazeres fáceis ofertados pelos pais e os tiranizam, a partir da culpa que os pais sentem. Atualmente, impera o sensorial (prazer imediato, que agrada aos órgãos dos sentidos) em detrimento do sensível (gratificação a longo prazo, a partir de valores de cooperação e entendimento recíproco). Esvaíram-se preocupações com o outro, que passou a ser visto como instrumento para “meus” objetivos e não co-participante de um processo de crescimento e desenvolvimento mutuamente influenciável. Quando uma pessoa não se importa com o outro, parcialmente não se importa consigo mesma. As relações deixam, progressivamente, de levar em conta o outro, como extensão necessária de mim mesmo, e passam a ser canibalescas.


2. Como diagnosticar a depressão em uma criança ou jovem?

R: A depressão não se manifesta, exclusivamente, de uma única maneira, com um só fenótipo como deixar-se ficar a sós, isolado, vivenciando sofrimento associado a desamparo e perda de sentido da vida. Ela aparece também na forma de hiperatividade, de agressividade, de consumo de substâncias químicas, de
isolamento, de ingratidão, de improdutividade, de engajamento excessivo com atividades que levam a desfecho nenhum. Como distinguir, então, a depressão, se, atualmente, ela não tem um fator patognomônico? Ela deve ser inferida da relação entre a pessoa e seu contexto de vida social e não-social. Os  comportamentos da pessoa estão harmonizados com o que o ambiente espera dela? Ela corresponde razoavelmente ao que se espera dela? Ela cresce na sua relação com as pessoas e com o ambiente em que está inserida? Ela coopera para o desenvolvimento das pessoas e do ambiente? Ela se sente bem e contribui para que as pessoas que a cercam também se sintam bem? Ela é fisicamente saudável, dentro dos limites de sua constituição genética, isto é, depurada de sintomas psicossomáticos? Respostas positivas a tais questões indicam uma pessoa em relação harmônica com seu universo. Não estará deprimida, independentemente da maneira como realiza a harmonia em sua vida.
 
3. A depressão na infância é um fator de risco para a depressão na idade adulta?

R: Em geral, em termos práticos, sim. Conceitualmente, não precisaria ser assim. Se a criança for orientada, bem como seu ambiente social (note que não se defende o “tratamento” isolado da criança, mas do sistema social, do qual ela faz parte: não é a criança que está “doente”, mas o conjunto. A “depressão” denuncia o
desequilíbrio do contexto humano), então, a resposta é não. O adulto será um “novo” adulto: integrado, cooperativo, solidário, construtivo, com pitadas de altruísmo, desde que seu universo de desenvolvimento tenha se transformado na direção apropriada. A depressão (conforme a estamos definindo aqui) não está
inscrita nos genes, mas é produto de condições – ainda que sutis – de desenvolvimento. (Mais uma vez, é oportuno destacar que há casos – mais raros do que se pensa – de determinantes neurofisiológicos de quadros depressivos. Nestes casos, a intervenção médica é essencial, em conjunto com a psicológica.)
É enganoso supor que ter acesso a privilégios, a recompensas, a bons momentos, a “coisas”, faz bem. É mais importante a maneira pela qual se tem acesso a tais “bens”. Tudo que é “dado” não engrandece, nem realiza duradouramente. E, o que é pior, nem sequer cria vínculos afetivos genuínos com a pessoa que 
“patrocina” os privilégios. (É comum crianças mimadas serem tirânicas, agressivas e pouco reconhecidas com pais incondicionalmente dadivosos.) Somente quando a pessoa tem acesso àquilo que lhe é importante por méritos próprios, os bens conseguidos contribuem para o crescimento pessoal, para o desenvolvimento de boa auto-estima, consolidam a autoconfiança e a responsabilidade. O crescimento pessoal é constituído, a partir de comportamentos emitidos por ela própria, e não através do livre acesso a bens que lhe são dados. O homem é construído e se constrói, nunca uma alternativa ou outra.

4. Quais são os “gatilhos” clássicos que despertam a depressão infanto-juvenil?
 
R: A criança, em geral, torna-se dependente do outro (usualmente, a pessoa socialmente mais significativa e mais provedora), que pode vir a falhar: adoecer, ausentar-se, ser incapaz de prover as necessidades – cada vez mais sofisticadas e exigentes – etc. A realidade externa não se harmoniza com os privilégios distorcidos, obtidos nas relações familiares íntimas, ou seja, a criança passa a ser exigida por professores, colegas de escola, autoridades, e revelam-se, então, os  déficits de comportamentos para enfrentar tais exigências, falta de disciplina e autocontrole para se empenhar em superar tais déficits, instabilidade emocional para enfrentar e conviver com as perdas e diferenças. Em resumo, qualquer condição que evidencie para a criança que ela é “diferente”, que os recursos de manipulação social que vem manejando não mais funcionam, que entra em contato com perdas e frustrações, que precisa adiar suas gratificações e compartilhá-las, quando se disponibilizarem, que seu grande mundo (o das pessoas que a protegem) é, de fato, um micro-universo, que não lhe proverá uma vida satisfatória... qualquer destas condições pode precipitar a depressão.

5. A vida moderna, a internet, os compromissos, a cobrança pelos estudos e pelo emprego, o culto ao corpo “sarado”, aceleram o processo de depressão?

R: Podem acelerar, dependendo da pessoa com quem se está lidando. De qualquer forma, porém, internet, compromissos, excessos nos estudos e no trabalho, culto ao corpo podem ser importantes fatores alienantes. Comprometem extensa gama do potencial e do repertório comportamental da pessoa, bem como de suas emoções e sentimentos, limitando o ser humano para atuar e sentir dentro dos estreitos limites de tais atividades. A perda de contato com os valores naturais, que são intrínsecos ao ser humano, produz uma triste sensação de contínua carência no meio da abundância. Onde há tempo para o diálogo, para o afago, para o desabafo...? O ser humano tem excesso, exatamente, daquilo de que pouco precisa essencialmente. A rotina das pessoas, os valores que elas privilegiam, a forma como se relacionam, todos esses itens espelham os avanços tecnológicos, a acumulação de riqueza, as estratégias comerciais. Exemplificando, um objeto bonito, que impressiona os sentidos, prevalece sobre a qualidade do produto; o descartável é preferido ao duradouro... As pessoas “saradas”, na moda, com etiquetas de marcas são mais notadas e cobiçadas do  que aquelas que possuem valores humanos e ética interpessoal. Da mesma forma, os afetos são passageiros, descartáveis, já que o tempo todo se está em busca do novo, do diferente. Nada mais é perene; a transitoriedade se tornou a marca da época atual. Se as pessoas são descartáveis, para onde estará se deslocando a segurança, o conforto do amor genuíno, a estabilidade da família, das amizades? Cada vez mais se torna atual, em todos os níveis, a constatação de que “tudo que é sólido se desmancha no ar”.

6. Qual é o papel dos pais, psicólogos e professores nesses casos?

R: A eles cabe uma tarefa insubstituível: a de resgatar os velhos valores humanos, mesmo que numa simetria atualizada e contextualizada. Dar limites, por ex., não é mais ajoelhar-se no milho; respeito ao outro não é calar-se quando o mais velho está presente; colaborar não é se escravizar e assim por diante. No entanto, limite precisa existir, a valorização dos sentimentos e valores do outro precisa ser reinstalada, a cooperação deve substituir a competição, preservação do ambiente deve ser prioridade, não mania de ecologistas etc. O ser humano se torna melhor e vive melhor quando se desenvolve de forma abrangente. Porém, não se pressuponha que pais e professores estejam preparados para assumir os papéis que lhes cabem. O mundo se transforma muito rapidamente e não há soluções prontas num mundo globalizado, pós-moderno e... tão repleto de rótulos, conceituações que mais confundem do que esclarecem, pois não instrumentam pais e educadores a lidarem com seus filhos. Nem mesmo os psicólogos têm respostas prontas, pois também eles fazem parte – como pessoas e como profissionais – deste complexo mundo em transformação. Há, no entanto, algumas diretrizes que podem ser apontadas: as relações inter-pessoais têm que se basear no afeto; o outro deve ser tão importante quanto o próprio eu; as interações devem ser amenas; os critérios éticos devem incluir o respeito ao próximo e ao ambiente, sem prejuízo e sem vantagens individuais. Como se pode concluir, a maneira própria de lidar com a depressão infantil é a prevenção. Esta deveria começar antes de os filhos nascerem. Tarefa difícil; possível, porém!

7. Qual é o momento certo para se procurar um especialista?

R: O ideal seria um trabalho preventivo. Os pais deveriam ler livros a respeito de educação de filhos, freqüentar cursos. As escolas, as igrejas, as instituições comunitárias deveriam se preocupar com a saúde mental de seus membros e dos cidadãos em geral e criar e oferecer oportunidades de acesso ao conhecimento para pais, educadores e interessados em geral. Os especialistas por sua vez deveriam melhor se preparar para oferecerem cursos conceitualmente consistentes, mas, principalmente, práticos e voltados para instrumentalizar os participantes com procedimentos para melhorar a vida familiar, dos pais e dos filhos. Os especialistas, ora mal preparados, ora muito preocupados com formulações teóricas e acadêmicas, não prestam um real serviço à comunidade. Textos e cursos deveriam ser preparados e oferecidos sob controle das necessidades do público a que devem servir, não a serviço do próprio ego.

8. A terapia é capaz de resolver o problema?

R: A terapia ajuda, sim. É, porém, uma intervenção que começa quando o problema já se cristalizou e muito sofrimento já dilacerou pessoas e famílias. A prevenção, foi já afirmado, é a melhor solução. A terapia deve enfocar as relações envolvidas: pais, criança, escola, a comunidade, enfim, que está dinamicamente envolvida com o problema. É equívoco grave rotular a criança depressiva como a doente. O sistema está doente. Todos são parte do problema e parte da solução.