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Leitura nos olhos dos outros

 
Recentemente foi comemorado o Dia Nacional do Livro. A data lembrou a importância da leitura na vida das crianças e de todos nós.
 
Esse é um bom motivo para refletirmos sobre a contribuição que o mundo adulto dá para que os mais novos tenham a chance de desenvolver o gosto pela leitura.
 
Primeiramente, é bom reconhecer que temos uma posição bastante moralista a esse respeito. Famílias e escolas repetem à exaustão que ler é uma coisa boa.
 
Desde os primeiros anos escolares até o último ano do ensino básico, a lista de livros obrigatórios é enorme.
 
Mas será que ler é mesmo bom? Se é, por que temos de repetir tanto essa recomendação e nem assim conseguimos resultados?
 
Talvez porque obrigação não combine com prazer e ler deveria ser uma questão de prazer. Muita gente se preocupa em desenvolver o hábito da leitura. Prova disso é que nossas crianças ficam com a agenda abarrotada de coisas para ler.
 
Entretanto, hábito é coisa bem diferente de vontade. Em relação à leitura, o que podemos fazer é plantar nos mais novos a vontade de ler, mostrando as emoções que essa experiência proporciona.
 
A segunda questão que temos é a seguinte: se ler é tão bom assim, por que é que nós, os adultos, lemos tão pouco? Pesquisas mostram que o índice de leitura espontânea no Brasil é de pouco mais de um livro por ano! Muito pouco, quase nada, na verdade.
 
Isso significa que, depois que o jovem sai da escola, ele simplesmente deixa de ler.
 
O que podemos fazer para que os jovens encontrem seu próprio caminho no mundo dos livros? Para que desenvolvam um gosto verdadeiro pela leitura?
 
Os pais podem, por exemplo, ler e contar histórias para os filhos pequenos. Muitas famílias já cultivam o momento da história, lendo para os filhos de até seis anos antes de a criança se recolher. A questão é que eles não sabem como seguir com esse ritual depois que a criança cresce.
 
A partir dos sete, oito anos, muitas famílias se rendem aos outros interesses que a criança passa a ter: programas de televisão, internet, videogames, jogos de computador etc.
 
Entretanto, ouvir e contar histórias para os filhos é um hábito que poderia seguir até o fim da infância como um grande incentivador não apenas do gosto pela leitura, mas também como um elemento intensificador das relações familiares.
 
Depois que a criança ganha fluidez, é hora de pedir para que ela também leia para os pais. Mostrar interesse pelos livros que ela escolhe, ouvir com atenção as histórias que a criança conta sobre sua própria vida e ler ao seu lado são excelentes maneiras de estimular a atividade leitora dos mais novos.
 
As bibliotecas também poderiam funcionar como locais de incentivo do gosto pela literatura. Para isso, precisariam ser fisicamente mais atraentes, com livros e atividades interessantes. As famílias poderiam incluir a ida à biblioteca como um programa familiar, não é verdade?
 
Ler sempre --mesmo que por pouco tempo--, comentar sobre os livros que estão lendo e incluir alguns exemplares na bagagem das férias são atitudes que os pais podem adotar para mostrar aos filhos, na prática, que ler é bom de verdade.
 
E as escolas? Essas têm um enorme potencial para desenvolver com seus alunos o interesse pela leitura. A maioria tem optado pelos caminhos mais fáceis e menos produtivos: responsabilizar as famílias por isso e obrigar os alunos a ler. Poucas são as escolas particulares que têm uma biblioteca atraente.
 
Aliás, aí está uma boa questão para os pais que procuram escolas para os filhos: visitar a biblioteca escolar e saber como ela é usada por alunos e professores.
 
E, por falar em professor, quantos deles demonstram aos alunos que têm paixão pela literatura?
 
Se ler é mesmo bom, vamos provar isso aos mais novos.
 
Fonte: Folha

É importante ser popular na escola? Veja a resposta de crianças

Crianças do Colégio Rio Branco discutem se é importante ser popular
 
Ser ou não ser popular. Será que essa é uma preocupação das crianças na escola? Gustavo diz que, para ele, não. "Estou muito bem com a minha turminha." Já para um grupo de 11 alunos do colégio Rio Branco, em São Paulo, a resposta é: "siiiiiim".
 
Segundo eles, para entrar nessa lista, tem que ser engraçado, ser bom em algum esporte e ter seu próprio grupo. Gabriela Argentino, 10, completa: "Também não pode tirar sempre nota 10, porque ninguém quer ser amigo dos que só estudam. Tem que tirar na média".
 
Mostrar que não é mais "criancinha" também pega bem. Giullia Gardin, 8, confessa que, quando tinha seis anos, morria de vergonha de contar para alguém que gostava do programa "Backyardigans". "Meu irmão tinha oito anos e dizia que eu devia assistir a um programa para gente maior."
 
A psicóloga Maria Cláudia Oliveira, professora da Universidade de Brasília, acha que atualmente as pessoas dão mais importância à imagem do que ao caráter (por exemplo, se a pessoa é boa, honesta, egoísta etc.). Mas isso deve ser colocado em questão, pela família e pela escola. "Quais são os valores com que estamos nos identificando?", pergunta.
 
Fonte: Folha

Crianças têm mais preocupações do que pais pensam

Preocupações de criança
Crianças estão sempre brincando, não têm preocupações e geralmente são muito otimistas.
Pode ser cômodo e desejável concordar com essas crenças largamente disseminadas, mas elas parecem estar bem longe da realidade.
Um novo estudo mostrou que os pais não são bons em avaliar o bem-estar emocional das crianças.
E que as crianças têm sim suas preocupações, que podem ir do medo do escuro à preocupação com algo de ruim acontecer com algum membro da família.
Filhos heróis
Uma série de estudos têm demonstrado duas coisas importantes quanto às crianças menores de sete anos.
A primeira é que elas não conseguem relatar com precisão como estão se sentindo, o que tem feito com que todos os estudos sobre essa idade dependam de declarações dos pais.
O segundo problema é que essas declarações dos pais são positivamente superestimadas.
Assim, os pais acham que seus filhos são mais inteligentes do que são na realidade, superestimando como eles se sairão em matemática, português e em testes cognitivos.
Da mesma forma, os pais geralmente avaliam que seus filhos estão se sentindo melhores emocionalmente do que eles estão na realidade.
Emoção de pai e emoção de filho
Para sair desse círculo vicioso, Kristin Lagattuta e sua equipe da Universidade da Califórnia, em Davis, idealizaram um teste emocional para crianças baseado em desenhos e associações que as crianças fazem naturalmente.
Em três avaliações diferentes, envolvendo mais de 500 crianças com idades entre 4 e 11 anos, os cientistas confirmaram que os pais consistentemente avaliam suas crianças como sendo menos preocupadas do que elas são realmente.
O estudo também mostrou que as próprias emoções dos pais influenciam a forma como eles percebem as emoções das crianças - quanto mais emocionalmente afetados por uma situação os pais estão, maior é a discrepância das avaliações que eles fazem das emoções dos filhos.
De forma consistente, as crianças deram a si próprias índices mais elevados de preocupação do que os atribuídos pelos pais e, ao inverso, disseram-se menos otimistas do que os pais consideravam.
As preocupações demonstradas pelas crianças foram limitadas às que faziam partes dos jogos e imagens apresentadas a elas, o que não significa que as preocupações infantis estejam limitadas a elas.
 

Amor Materno e Amor Paterno

Conforme citei no artigo anterior desta coluna, o amor materno é considerado, de forma inapropriada, como sendo um comportamento/sentimento típico de mulheres, que se manifesta de imediato quando elas são expostas a condições apropriadas de maternagem. Análises científicas indicam que o amor das mães por seus filhos desenvolve-se no processo de interação entre esses pares, sendo fortemente influenciado por aspectos culturais. Isto não quer dizer que não existam componentes característicos da espécie humana, os quais são transmitidos por herança genética, como pode ser observado em outras espécies animais.
 Por outro lado, o amor paterno é analisado com menor freqüência e, mesmo do ponto de vista poético, parece ocorrer somente quando o homem é seduzido ou cativado por seu filho. Para mostrar esse tipo de visão reproduzo, a seguir, um texto que recebi pela Internet, cujo autor é desconhecido, e que adaptei para adequar a tradução à maneira como falamos em nossa região.
Papai... Quanto me amas?
No dia em que nasceu a nossa filha, meu marido não ficou muito feliz porque a decepção que sentia parecia ser maior que a alegria de ter uma filha.
- Ah!!! Eu queria um filho homem!!!! Lamentava meu marido.
Mas, em poucos meses, ele deixou-se cativar pelo sorriso de nossa linda Carmenzita e pela infinita inocência de seu olhar fixo e penetrante. Foi então que ele começou a amá-la intensamente.
Seu rostinho, seu sorriso, sua ternura não o desprendiam mais dela. Ele fazia planos e mais planos. Tudo seria para nossa Carmenzita.
Numa tarde, estávamos reunidos em família, quando Carmenzita perguntou a ele:
- Pai, quando eu completar 15 anos, qual será meu presente?
Ele lhe respondeu:
- Meu amor, você tem apenas 7 aninhos, não parece que falta muito tempo para essa data?
Respondeu Carmenzita:
- Pai,... você sempre diz que o tempo passa voando!
Carmenzita já tinha 14 anos e preenchia de alegria nossa casa e, em especial, o coração de seu pai. Num domingo, quando fomos à igreja, Carmenzita tropeçou. Seu pai agarroua imediatamente para que ela não caísse. Já sentados, no banco da igreja, vimos Carmenzita desfalecendo lentamente e quase perder a consciência. Nós a levamos imediatamente para o hospital. Ela permaneceu internada por 10 dias, pois ela tinha uma enfermidade cardíaca grave. Os dias foram passando e o pai de Carmenzita renunciou ao seu trabalho para ficar ao lado da filha. Todavia, eu, sua mãe, decidi trabalhar, pois não suportava ver Carmenzita sofrendo tanto.
Numa manhã, ainda na cama, Carmenzita perguntou a seu pai:
-Papai, os médicos disseram a você que eu vou morrer?
Ele respondeu:
 
- Não meu amor... Você não vai morrer, Deus é grande. Ele não permitiria que eu perdesse o que mais tenho amado neste mundo.
Perguntou Carmenzita:
- Quando a gente morre vai para o céu? A gente pode ver, lá de cima, nossa família? Um dia, a gente pode voltar?
- Bem filha... Na verdade, ninguém voltou de lá e contou algo sobre isso. Porém, se eu morrer, não deixarei você só, onde eu estiver, encontrarei uma maneira de me comunicar e, em última instância, utilizarei o vento para lhe ver.
- O vento? E como você faria isso?
- Não tenho a menor idéia filhinha, só sei que se algum dia eu morrer, você sentirá que estou bem pertinho quando um suave vento roçar seu rosto e uma brisa fresca beijar a sua face.
Mais tarde, neste dia, fomos informados pelos médicos de que nossa Carmenzita necessitava de um transplante de coração, caso contrário, ela só teria mais 20 dias de vida.
- Um coração! Onde conseguir um coração? Um coração! Onde, Deus meu?
Neste mesmo mês, Carmenzita completaria seus 15 anos. E foi numa sexta-feira à tarde que conseguiram um doador. Ela foi operada e tudo saiu bem.
Carmenzita permaneceu no hospital por mais 2 semanas e em nenhuma vez, depois da cirurgia, seu pai foi visitá-la. Depois disso, os médicos lhe deram alta e ela foi para casa.
Ao chegar em casa, Carmenzita muito ansiosa gritou:
- Papai! Papai!... Onde você está?
Eu saí do quarto com os olhos molhados de lágrimas e disse-lhe:
- Aqui está uma carta seu pai deixou para você.
Na carta estava escrito:
Carmenzita, filhinha do meu coração, no momento em que você ler a minha carta, já terá completado 15 anos e terá um coração forte batendo em seu peito. Essa foi a promessa que me fizeram os médicos que te operaram. Você não pode imaginar, nem de longe, o quanto lamento não estar ao seu lado agora. Quando eu soube que você poderia morrer, decidi dar-lhe o presente mais bonito. Um presente que ninguém jamais daria a você...
Eu lhe dei toda a minha vida, sem nenhuma condição, para que faça com ela o que quiser. Viva filha! Amo você com todo meu coração!!
Carmenzita chorou por todo o dia e toda a noite. No dia seguinte, foi ao cemitério e sentou-se sobre a tumba de seu pai e chorou tanto, como ninguém poderia chorar.

E sussurrou:
Pai, agora posso compreender o quanto você me amava. Eu também o amava, mesmo que nunca tenha dito. Só agora compreendo a importância de dizer que o amo e peço-lhe perdão por não ter dito antes.
Neste instante, as copas das árvores balançaram suavemente, caíram algumas folhas e flores e uma suave brisa roçou a face de Carmenzita. Ela, então, olhou para o céu, enxugou as lágrimas de seu rosto, levantou-se e voltou para casa.
Este texto descreve uma situação do tipo em que a filhinha seduziu o pai com sua meiguice, apesar de ele ter-se decepcionado com o nascimento de uma menina. Este aspecto mostra que o amor paterno, assim como o materno, desenvolve-se na interação entre pais e filhos, e pode crescer tanto, a ponto do pai sacrificar a própria vida para que seu filho ou sua filha viva. Sacrificar-se a esse extremo pela sobrevivência dos filhos já aconteceu muitas vezes em situações extremas, mas devo salientar que o texto é uma ficção, pois não se pode doar um órgão vital, como o coração, em vida. Isto só pode ser feito quando um a pessoa tem morte cerebral, portanto, não pode ser uma opção pessoal.
Professora da Universidade Estadual de Londrina
Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo

Na prática, homens participam pouco da criação dos filhos

A figura paterna deixa a desejar na criação dos filhos pequenos. Na parte qualitativa da pesquisa, realizada com mães e gestantes, o papel do pai é muito valorizado, tanto na gestação (94%) como na criação dos filhos (92%) (mais informações nesta pág).
Porém, na prática é muito diferente. Apenas 41% dessas mulheres afirmaram que os pais participam ou participaram ativamente da gestação e 51% das grávidas vão sozinhas às consultas. Somente 47% dos pais atuam efetivamente na criação dos filhos, nos cuidados, nas consultas ao pediatra e nas vacinas. Além disso, o tradicional papel de impor limites não é cumprido. Menos da metade (43%) assume essa responsabilidade.
"Se não é pelo instinto que move as mulheres, ao menos pela importância da questão ética os pais precisam participar", pondera Yves de La Taille, da Faculdade de Psicologia da USP.
Mesmo sem a ajuda do marido e tendo de trabalhar (55% das entrevistas estão empregadas), a creche não é vista com bons olhos: 57% acham que a casa é o melhor lugar para a criança se desenvolver. / O.B.
Fonte: Estadão

Mães não valorizam carinho e lazer na primeira infância, mostra pesquisa

Para as mães de crianças menores de 3 anos, cuidar da saúde do filho é muito mais importante que dar carinho, brincar ou conversar com ele. Esse é o resultado de uma pesquisa realizada pelo Ibope que ouviu mais de 2 mil pessoas em 18 capitais brasileiras.
Quando perguntadas sobre o que é importante para o desenvolvimento da criança de 0 a 3 anos, 51% delas responderam que a principal contribuição é levar ao pediatra regularmente e dar as vacinas. O porcentual de quem acredita na importância de brincar, passear e conversar cai para 19% e fica menor ainda se forem considerados os que defendem a necessidade da socialização com outras crianças: 8% (veja tabela nesta página)
"Isso mostra como a questão da saúde está bem resolvida - e é muito bom que esteja -, mas ainda precisamos avançar muito em relação aos fatores emocionais e comportamentais", diz Saul Cypel, neuropediatra e consultor da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV). "Os pais ainda desconhecem a importância de estabelecer os vínculos afetivos e, consequentemente, os danos que podem haver quando se ignora o potencial de aprendizagem da primeira infância."
A fundação apresentou a pesquisa em um simpósio internacional sobre a primeira infância que promoveu em São Paulo.
Os números mostram o desconhecimento dos pais: grande parte dos entrevistados acha que sentar, falar e andar são sinais mais claros do desenvolvimento infantil do que a criança ser capaz de interagir ou estranhar pessoas distantes; mais de 50% dos entrevistados acreditam que o bebê só tem capacidade de aprender a partir dos 6 meses.
"Precisamos de uma campanha que diga: 'nasceu, começou a aprender'. Sem isso, corremos o risco de perpetuar um cuidado instintivo que se preocupa com a sobrevivência, mas se esquece da dimensão ética, dos valores", diz Yves de La Taille, da Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
Trabalho integrado. O caminho para essa conscientização passa pela criação de políticas públicas que unam as Secretarias de Saúde, Educação e Assistência Social, diz Eduardo Marino, gerente de avaliação da fundação. Desde 2009, a fundação tem trabalhado com seis municípios na implementação de ações simples, porém eficazes.
O trabalho abrange a criação de espaços lúdicos nos quais as crianças possam brincar e interagir com seus pais e cuidadores, encontros de reflexão interativa com a família e um pré-natal que inclua não só questões biológicas, mas também outros aspectos relevantes do desenvolvimento infantil e - muito importante a partir dos resultados desta pesquisa -, a ampliação do tempo da consulta pediátrica.
"Já que 79% das mães recorrem ao pediatra nos momentos de dúvida, é importante que esses profissionais assumam um papel que vá além do diagnóstico físico. Com uma consulta estendida, ele pode orientar sobre a importância dos momentos de lazer, do afeto", resume Cypel.
Por enquanto, os pais têm sido norteados por um censo comum que não difere escolaridade nem classe social: 55% das mães e gestantes acreditam que deixar as crianças assistirem a desenhos ou a programas infantis ajuda no desenvolvimento. "A gente propõe, nessa etapa, atividades em que a criança se movimente, interaja, brinque, faça atividades artísticas, ao ar livre. Isso tem um papel muito mais importante. Ainda que a TV seja uma possibilidade cotidiana, o uso tem de ser muito cauteloso no sentido do tempo gasto e do que é proposto", diz a diretora da Escola Santi, Adriana Cury. / COLABOROU MARIANA LENHARO.
Fonte: Estadão

Saiba identificar os sinais de que algo não vai bem com seu filho na escola

Deixar a criança sob os cuidados de uma creche ou escola é, em geral, uma boa opção para os pais que não podem passar o tempo todo com seus filhos. Muitas vezes, a única. Mas é preciso ter atenção aos sinais físicos e comportamentais que a criança dá quando o estabelecimento não consegue cumprir bem o seu papel.

Creches, berçários e escolas de educação infantil oferecem vantagens, como equipe de profissionais treinados, respaldo educacional e eliminação da necessidade de babá. Apesar disso, a criança pode se mostrar infeliz por várias razões: não se adaptar à instituição, estar sendo negligenciada ou sendo vítima de maus-tratos.

“Mudanças de comportamento são o primeiro indício de que algo não vai bem. Elas podem se manifestar na alimentação ou no sono. A criança pode ainda se tornar mais chorosa ou violenta”, diz a psicóloga Ana Laura Schliemann, da PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Ao notar alterações comportamentais, os pais devem investigar o que pode estar acontecendo. Veja quais são as principais pistas de que algo está errado.
Alterações do sono A criança que enfrenta problemas de qualquer tipo fica mais agitada, o que prejudica o sono. São comuns os despertares noturnos, seguidos ou não por crises de choro. “É importante checar também o quanto ela está dormindo na escola”, diz Rita Romaro, doutora em psicologia clínica pela USP (Universidade de São Paulo). Dormir pouco durante o dia não significa dormir bem à noite, principalmente no caso dos bebês. Pular as sonecas do dia pode deixá-los irritados e dificultar o sono da noite.

Falta ou excesso de apetite
A alimentação está intimamente ligada às emoções da criança. Se ela estiver infeliz ou com medo de algo, certamente, vai mudar seus hábitos alimentares. O mais comum é parar de comer, mas o contrário também pode acontecer: a alimentação exagerada provocada pela ansiedade. Vale a pena prestar atenção, também, se a criança fica com medo ao ser alimentada, indício de que pode estar sendo forçada a comer na escola.

Medo
“Mostrar-se com medo das pessoas, assustada, encolhendo-se diante da aproximação de um adulto pode indicar que a criança esteja sendo maltratada de alguma forma”, afirma Rita Romaro.

Marcas no corpo
Esse é um dos pontos mais importantes a serem observados. Hematomas, arranhões e mordidas são provocados, normalmente, pelos amiguinhos do berçário ou da escola. “Mas pode significar que a instituição não lida bem com a agressividade das crianças. Não sabe como controlá-las”, diz Rita. A hipótese de haver algum funcionário agressor não pode ser descartada e precisa ser investigada.

O melhor momento para observar o corpo do seu filho é no banho e o ideal é que você aja naturalmente. Segundo Ana Paula Cuocolo Macchia, do ABC Aprendizagem, Centro Pedagógico Interdisciplinar, em Santo André, na Grande São Paulo, caso a criança perceba que os pais estão procurando algo, ela pode desenvolver o sentimento de que o corpo corre sérios riscos.
Ausência de cuidados básicos
Segundo a neuropediatra Lívia Cunha Eklis, da Unisa (Universidade Santo Amaro), em São Paulo, há sinais corporais que podem demonstrar que a escola não está cuidando bem da criança. “Preste atenção se o nariz está cheio de secreção, se as mãos do seu filho estão sujas quando ele chega em casa, se há vermelhidão no corpo, assaduras ou picadas de insetos na pele”, diz a especialista.

Choro
Chorar é um sinal bastante importante e que pode aparecer a qualquer momento. Insegurança e irritação são alguns de seus significados. A manifestação se torna mais preocupante se a criança se mostrar arredia e chorosa na porta da escola, demonstrando que não quer ficar no lugar.

É bastante comum que seu filho chore nos primeiros dias em que vai para a escola, por não querer se separar de você. Se ele já estava ambientado e começa a apresentar esse comportamento, pode significar a existência de algum problema.
Desenvolvimento
A máxima de que cada criança tem seu ritmo é verdadeira, mas é esperado que ela sente por volta dos seis meses de idade, comece a engatinhar com cerca de nove meses e a andar e a falar por volta de um ano. Clique aqui para saber mais sobre o desenvolvimento da criança até os dois anos.

Caso essas etapas demorem a acontecer, é possível que seu filho --principalmente se ele ficar em período integral na escola-- não esteja sendo devidamente estimulado. Por exemplo: se fica muitas horas deitado, pode demorar mais para sentar ou engatinhar.

Cara fechada
A falta de sorrisos de seu filho também pode ser uma pista de que algo está fora do trilho. “Crianças infelizes ou abusadas psicologicamente passam a sorrir menos”, afirma Ana Paula Cuocolo Macchia, do ABC Aprendizagem, Centro Pedagógico Interdisciplinar, em Santo André, na Grande São Paulo.

Evite atitudes precipitadas
Se perceber que a criança está realmente desconfortável ou descontente, não procure o estabelecimento sem antes investigar melhor. Muitas vezes, a culpa não está ali. Em primeiro lugar, é preciso prestar atenção no que ocorre fora do ambiente escolar. “A instituição não é responsável por toda alteração negativa no comportamento da criança. O ambiente familiar tem um grande peso também”, explica Rita Romaro.

Mesmo que a causa esteja dentro da escola, nem sempre representa negligência ou má conduta. “Às vezes, a criança está recebendo menos atenção porque entrou um aluno novo ou um colega está doente, exigindo mais cuidados”, diz Lívia Cunha Elkis. Outras vezes, a criança está triste porque um amiguinho saiu da escola. Isso pode gerar estresse e mudança de comportamento. Nesses casos, converse com o responsável pela instituição para ajeitar as coisas.
Fonte: Uol

Por que crianças têm dificuldade de compartilhar

Estudo sugere que o ambiente onde os pequenos vivem e a educação que recebem são decisivos para aperfeiçoar a sociabilidade
© Oleinikova Olga/Shutterstock

A recusa em emprestar brinquedos ou dividir alimentos pode resultar de conexões neurais imaturas. Um estudo publicado na revista Neuron revela que a interação de centros de controle de impulsos é mais frágil em crianças pequenas e tende a se intensificar com o passar dos anos, na mesma medida em que elas aprendem e colocam em prática estratégias sociais.

Cientistas do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e do Cérebro, na Alemanha, observaram crianças de 6 a 10 anos e pré-adolescentes tomando decisões simples durante um jogo. Eles deviam dividir fichas que valiam pontos (e prêmios) com um receptor anônimo em duas situações: escolher aleatoriamente quanto ceder sem nenhuma consequência e correr o risco de ter sua oferta recusada se a outra criança a achasse injusta – nesse caso, nenhuma das duas ganharia nada. Ou seja, a segunda tarefa exigia maior habilidade social.

Todos os participantes se comportaram de forma semelhante na primeira situação. Na segunda, porém, os mais jovens fizeram ofertas piores e se revelaram mais propensos a aceitar poucas fichas mesmo percebendo que era injusto. Neuroimagens captadas durante o experimento revelaram menor atividade no córtex pré-frontal, centro de tomada de decisões e autocontrole, das crianças mais novas. Estudos anteriores apontaram que menor atividade nessa região está associada a habilidades sociais menos aprimoradas.

Os autores do estudo sugerem que o ambiente onde a criança vive e a educação que recebe podem ser decisivos para aperfeiçoar a sociabilidade e o controle de impulsos nesse período de amadurecimento neural.

Atritos fraternos e o posicionamento dos pais

Imagine um tempo que seus pais são crianças. Agora, faça de conta que eles querem muito um presente, com todas as forças. De repente eles o ganham: ficam felizes, brincam bastante, se torna o brinquedo preferido deles. No entanto, após alguns anos brincando com o presente, eles ganham outro mais novo, que tem regras de jogo diferentes das que estão acostumados a jogar. O primeiro brinquedo agora deixa de ser o único na vida dos donos, e tem o desafio de compartilhar a atenção e o amor com o segundo brinquedo. Similarmente, é assim que algumas crianças vivenciam a experiência de receber um irmão mais novo. Mas essa história pode ter um final feliz.


O relacionamento entre irmãos é um dos mais longos estabelecidos no decorrer da vida. Eles compartilham as mesmas raízes, costumam ser bons conhecedores um do outro e, sendo assim, possuem bases para que estabeleçam entre si laços de ternura e amizade por toda a vida. Como qualquer outro relacionamento de intimidade, onde há partilha – não só de espaço físico, mas sobretudo do amor e atenção dos pais – já é de se supor a existência de algumas peculiaridades inerentes da própria convivência, como brigas, brincadeiras, companhia, ciúmes, coleguismo, dentre outros. Esses conflitos podem desgastar o relacionamento fraterno, mas podem ser minimizados desde cedo a partir de condutas dos pais.


Quando os pais se preparam para receber outro filho, é importante incluir o primogênito na expectativa do nascimento: apresentar a barriga, explicar a vinda de um irmão, esclarecer o que eles podem fazer juntos, incentivar a sua participação na evolução da gestação e, sobretudo, assegurar à criança que ela continua tendo o seu espaço e importância na família, mantendo inclusive o tratamento carinhoso que delimita o seu papel. Por exemplo, se o apelido do filho mais velho for “neném”, recomenda-se que outra alcunha seja atribuída ao novo membro da família.


No período gestacional, algumas dicas são válidas, como mostrar fotos de ultrassom ou materiais pessoais do bebê, incentivar a interação entre ambos, como o toque na barriga, os diálogos e presentes (como desenhos ou esculturas). Apresentar fotos do filho mais velho quando bebê pode ser útil para a criança discernir que todo o cuidado que os pais estão tendo na gravidez (fotos, carinhos na barriga, por exemplo) também fora feito com ele, quando estava prestes a nascer.

Cabe destacar que, assim como os pais, o irmão mais velho (seja ele criança ou adolescente) também apresenta expectativas quanto ao bebê. A família pode compartilhá-las e, sobretudo, delimitar se e quando elas serão atendidas. Por exemplo, quando o sexo poderá ser revelado, quando o bebê poderá interagir verbalmente com o irmão, em que tempo será possível brincarem de bola ou boneca, dentre outros. Se o bebê vier com alguma deficiência, é importante apresentar a síndrome ao irmão, em linguagem compreensível. Cabe também descrever suas limitações, ressaltando que toda a família será responsável pelo desenvolvimento da criança deficiente através da estimulação para que, assim, possa superar a deficiência e conviver de modo semelhante caso a síndrome não existisse.


Diante de uma aparente adaptação diante do novo irmão, é possível que a criança possa regredir em seu comportamento. Assim, voltar a sugar o dedo, querer mamar no seio ou na mamadeira, adotar a linguagem de bebê, urinar na cama, entre outros comportamentos regredidos, são esperados. Isso é explicado, na maioria das vezes, porque os pais cuidam exatamente desses comportamentos emitidos pelo bebê: suas necessidades básicas, que requerem cuidado e afeto. Como a atenção dos pais agora não vem de forma integral como outrora, o filho mais velho emite esses comportamentos tal qual o bebê com a função de resgatar a atenção. Pode-se evitar ou minimizar estas questões a partir do momento em que os pais equilibram os investimentos em ambos os filhos. Obviamente que um bebê necessita de cuidados intensivos, pois é mais dependente dos pais. No entanto, o filho mais velho também necessita de afeto, cuidados, monitoria e supervisão, mesmo que diferentes de um bebê e cabe aos pais provê-los. Mesmo que não seja possível ser como antes, recomenda-se que ao menos dediquem qualidade na relação quando estiverem juntos: tirar um tempo para, de fato, brincarem com a criança, ajudar nas tarefas escolares, fazer afagos, entre outros.


Também é bastante comum que os pais fiquem comparando um filho com o outro, muitas vezes atribuindo rótulos a um (ou ao outro), como por exemplo, “mais danado”. Recomendamos cuidado quanto a esse rótulo especificamente, por razões simples: a fase do desenvolvimento em que cada um se encontra e os possíveis prejuízos à autoestima. Diante de um recém-nascido, qualquer outro filho será considerado “mais danado”, por já apresentarem mais independência, por explorarem os ambientes, ao contrário de um bebê, cuja mobilidade é reduzida, sendo mais dependente e, assim, mais passível de controle dos pais.


Nesse âmbito, também pode-se destacar que, por haver essa diferença de idade, é provável que os pais brinquem menos com a criança mais velha, seja menos sensível a seus interesses, dê mais ordens e, sobretudo, que cobrem mais comportamentos adequados do primogênito [1]. É como se os pais tivessem expectativas de mais responsabilidade e maturidade do filho mais velho, que às vezes são inadequadas para a faixa etária em que ele se encontra. Se ele for adolescente, as expectativas de maturidade são ainda maiores, assim como as cobranças de monitoria ou companhia ao filho mais novo. Quando isso ocorre, é necessário lembrar que o adolescente ainda é um ser em formação, ainda está se desenvolvendo. Embora se aproxime da idade adulta, ainda não o é: tem dificuldades próprias da fase em que se encontra.


Ainda nas comparações entre irmãos, é importante ressaltar que algumas comparações não favorecem o clima familiar. Por exemplo, “por que você não é como seu irmão?” é uma fala que, nas entrelinhas, coloca o outro irmão como modelo de conduta, atribuindo certa conotação negativa àquele que é comparado. Nesse exemplo, não é o comportamento que é abordado, mas a pessoa, o que pode ferir a autoestima da criança. Assim, uma alternativa seria descrever o que se espera dele, como “gostaria que ficasse conosco à mesa e não almoçar vendo televisão”.


Além disso, se um determinado comportamento é feito por um dos filhos e reconhecido pelos pais, se o outro filho o fizer, também deverá sê-lo. A idade não é critério para que haja atenção social, mas sim o comportamento adequado. O que se deve fazer é buscar maneiras diferentes para reconhecê-lo, buscando adequação quanto à idade e quanto ao que é satisfatório para a criança. Exemplo disso é o boletim: se notas acima da média são reconhecidas, devem sê-lo independente de quem teve êxito. O detalhe consiste na adequação à faixa etária: um simples “parabéns!” pode ser efetivo para uma criança menor, mas para um adolescente pode soar infantil ou artificial, por haver a erosão do reforço com o tempo de uso por parte dos pais. Uma alternativa é descrever o comportamento e associá-lo à satisfação dos pais, como “Gosto quando o boletim vem assim, cheio de notas boas! Fico feliz, assim poderá se dar bem no vestibular!”.


O mesmo raciocínio vale para reconhecimentos materiais. Muitos pais relatam que, se for aniversário de um filho, o outro também ganha presente; ou se um tem êxito em determinada tarefa, o outro – que não contribuiu para tal momento – também é recompensado. Algumas reflexões são feitas nesses casos: se o presente não for devido a um comportamento específico (como souvenir de viagem), não há transtornos em ambos serem presenteados. No entanto, se for consequência de algo específico que um deles executou e o outro não, o ganhar pela regra “ser irmão” não é adequado.


Um bom contexto para haver a recompensa é quando o outro irmão comporta-se consoante a regra que beneficiou o irmão premiado. Todas as regras devem ser explicadas para serem seguidas e consequenciadas adequadamente (por exemplo, “se secar as louças do almoço, então pode tomar sorvete”). Nesse exemplo, se o irmão, que não secou as louças, tomar sorvete aproveitando o esforço do outro, o que será aprendido aqui? Que não é necessário esforço para haver recompensa: basta ser irmão. Ao passo disso, se for o caso de haver regras diferentes conforme à idade, também devem ser esclarecidas. Por exemplo, o filho adolescente que namora pode beijar na boca, mas ao caçula que está vivendo o primeiro amor aos 6 anos é permitido apenas beijo na bochecha.


O mesmo raciocínio cabe nas práticas punitivas. Castigar um filho por um comportamento inadequado, após este ser efetuado, está pertinente. Mas punir o outro, que não participou do episódio, só para “dar exemplo” e prevenir ocorrências é inadequado. Caso tenham brigado, a punição deve ser para os dois. Se não, quem se comportou de forma inadequada deve ser punido e o outro orientado, para que se lembre da regra e esteja ciente de que a consequência será a mesma se ele se comportar da mesma forma. Se a punição for arbitrária, poderá haver um clima fraterno pior, existindo sentimentos de injustiça e raiva. O caçula, de forma alguma, deve ser imunizado nos castigos caso se comporte de forma inadequada. A questão a ser considerada é a adequação à faixa etária e à infração cometida. Um castigo de 2 meses sem sobremesa por ter quebrado uma vidraça é mais adequado para um púbere que para um bebê de 2 anos.


Caso seus filhos briguem muito, algumas reflexões devem ser feitas: o contexto em que brigam e quais as consequências disso. Dessa forma, podemos verificar a função do comportamento. Há mais ênfase dos pais nos conflitos fraternos do que quando estão em paz? Existe postura parcial de um ou de ambos os pais, sendo um filho preterido diante do outro, mesmo este estando correto? Nesses casos, é importante que as posturas sejam revistas, pois fortalecem os comportamentos envolvidos nos conflitos.


Algumas alternativas são possíveis: qualquer mínimo interesse dispensado de um em direção ao outro deve ser digno de atenção. Campanhas familiares, como “Dia do Irmão” ou “Dia Sem Briga”, prêmios para o irmão legal do mês e similares são possibilidades a serem avaliadas dentro da realidade de cada família. Outra questão é o respeito à individualidade: mesmo que sejam irmãos com idades bem próximas, ainda assim não são um só. Podem ter grupos de amigos e necessidades diferentes a serem respeitadas. Serem forçados a estarem um com o outro em detrimento de seus próprios interesses não constituem alternativas totalmente válidas.


No fim das contas, irmãos precisam de incentivos para que haja um melhor relacionamento. Não podemos esquecer que, na maioria das vezes, são eles que restarão após o falecimento dos pais e que experimentarão modalidades diferentes de relacionamento, como compadres/ comadres, tios/ tias, avós/ tios-avós. São eles quem deterão as raízes da família quando nada mais restar, perpetuando ao longo das gerações subsequentes. Portanto, não se pode confiar que apenas o tempo será o responsável pela sintonia fraterna: as medidas estão ao alcance dos pais. Assim, retomando a história iniciada no primeiro parágrafo: o final pode ser feliz, bastam ações adequadas e sensíveis dos protagonistas.


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[1] PAPALIA, D. E.; OLDS, S. W. (2000). Desenvolvimento Humano. 7ª edição. Porto Alegre: Artmed.


Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
Telefone - (61) 3242-1153

“É preciso ser menos egoísta"


Entrevista que o psicólogo Hélio Gulhardi concedeu para o jornal A Gazeta, Vitória - ES

Texto: Paula Stange

“Educação vem de berço”. O bordão é antigo, mas está esquecido pela atual geração de pais de crianças e adolescentes, que estão empurrando essa tarefa para os professores. “Antes, a criança chegava pronta à escola”, destacou o psicólogo paulista Hélio Guilhardi, que esteve em Vitória na semana passada, a convite da Rede Salesiana, para falar aos professores sobre como melhorar a relação com a família. Na conversa com A GAZETA, o psicólogo dá conselhos importantes aos pais - e também um leve puxão de orelha.

Por que as famílias estão abrindo mão do papel de educar seus filhos?

As famílias são vítimas de uma pressão e da nova dinâmica da sociedade. Querem ter filhos, mas não podem deixar de trabalhar. Aí, se enchem de culpa por não terem tempo para ficar com as crianças e passam a apelar para soluções paliativas. Acabam vitimando as escolas, que têm que assumir a responsabilidade de educar seus filhos.

O bordão “educação vem de berço” está meio esquecido?

Está. Antes, as crianças eram mais educadas, mais obedientes e mais disciplinadas - talvez até de forma exagerada, reprimida. A criança chegava pronta à escola, que só ficava com o trabalho técnico da educação, da instrução. Quando os pais passaram a se sentir inseguros e culpados por não estar tão próximos dos filhos, a escola tentou ocupar esse espaço. Mas ela não tem condições de fazer bem as duas coisas.

E qual o papel da escola?

A escola deve instruir, passar o conhecimento técnico, criar condições para a criança aprender a atuar na comunidade, socializá-la no sentido mais amplo, em níveis que a família não é capaz de levar. Deve estimular novos interesses e repertórios para além do círculo familiar. Acho que a família também pode cuidar desses aspectos, de acordo com sua competência e seu conhecimento, mas confiando que escola vai ser o complemento.

Uma das principais queixas dos professores é a indisciplina dos alunos. Falta limite em casa?

Os pais devem detectar desde cedo os primeiros sinais do mau comportamento e corrigir. A escola tem suas regras. O professor tem sua autoridade, mas não pode dar uns tapas no aluno e colocá-lo de castigo. Antigamente, dizia-se “O professor tem sempre razão”. Claro que não é bem assim. Mas a família deve reforçar a disciplina que é dada na escola. Se o menino levou uma suspensão, deve ter castigo equivalente em casa. Caso contrário, vai adorar ficar de folga em casa. Mas o que se vê é pai dizendo “Quem esse professor pensa que é para fazer isso?” ou “eu pago a mensalidade”.

Outra reclamação dos professores é a ausência dos pais nas reuniões.

Eles devem tirar um tempo para ir às reuniões, que não são “uma bobagem que a escola inventou”.Vemos que a maioria dos pais que participam das reuniões são pais de alunos sem problemas. As famílias que estão com problemas não querem dividir isso com a escola e ficam posando de “estamos todos bem”. Quando a escola as chama para falar do aluno, dizem “mas ele é malcriado aqui?”, omitindo ou mentindo sobre o comportamento do filho, que geralmente é ruim em casa.

Como driblar a falta de tempo e cuidar da educação dos filhos?

Acho que estamos numa transição. Antigamente, as mães ficavam 100% do tempo com os filhos em casa. Hoje, praticamente não têm nenhuma disponibilidade para eles. Mas as famílias vão ter que se organizar de forma diferente, e a sociedade vai ter que rever essa questão também, permitindo, por exemplo, que elas passem mais tempo com os filhos, trabalhem meio período.

Enquanto isso, o que a família pode fazer?

É possível dar pequenos passos. Por exemplo: o pai sai do trabalho às 18 horas e quer ir para a cademia. Em vez disso, pode ir direto para casa e levar o filho para andar no calçadão. Se quer ir ao cinema, deve dar preferência ao filme que a criança quer ver. Tem que abrir mão, ser menos egoísta. Deve se interessar pelo que o filho está estudando, acompanhá-lo no dever de casa. Há mulheres que trabalham fora, fazem inglês e ainda MBA. Só vêem os filhos no final de semana. Isso está errado.