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Comportamento infrator: fatores de risco e de proteção

 
Hoje em dia, ser jovem implica assumir muitos riscos. Um deles diz respeito à luta pela própria vida. Segundo o Mapa da Violência de 2012 [1], as chances de uma criança ou adolescente brasileiro morrer assassinado são maiores atualmente do que eram há 30 anos, fator que rende ao país a quarta pior colocação mundial em violência contra o jovem. Assim, o prazo de validade da juventude, que poderia ser estendido à fase adulta, é reduzido em virtude de comportamentos antissociais e da violência infanto juvenil. Embora a justiça tenha a missão de lidar com as práticas infracionais juvenis, ainda cabe à família delinear práticas educativas que possam inibir comportamentos antissociais e desenvolver o comportamento moral.
 
Segundo pesquisadores, demonstrações de comportamento antissocial podem acontecer desde os dois anos de idade, quando as crianças são consideradas de temperamento difícil ou forte, com tendência a destruir objetos e agredir seus cuidadores. Pesquisas apontam que este padrão de comportamento desobediente, impulsivo, socialmente inadequado e impaciente tende para o estabelecimento do chamado Transtorno Desafiador de Oposição. Caso este seja persistente, facilita-se a exclusão do grupo de pares quando adolescente, que é um dos critérios diagnósticos para o transtorno de conduta na adolescência e antissocial na vida adulta.
 
No tocante à questão familiar, o infrator é oriundo de ambientes altamente coercitivos, nos quais são constantes a violência física e o abandono (ROCHA, 2009). Desta forma, ele acaba por reproduzir em sua relação com o mundo um padrão de comportamento conhecido como antissocial. O comportamento antissocial pode ser definido como aquele que viola e desrespeita os direitos alheios, ou seja, aquele que a todo custo busca beneficiar-se, desconsiderando os possíveis danos que isso possa causar a outrem.
 
Estudos mostram que a disciplina ineficiente e pouco consistente imposta pelos pais está positivamente associada ao comportamento delituoso. Assim, pode-se afirmar que pais de filhos em conflito com a lei geralmente são aqueles que exercem uma supervisão inconsistente, uma disciplina incoerente e inadequada.
 
Quanto a isso, Hasson e Meleiro (2003) [2] destacam ainda que a exposição a abusos físicos, punições excessivas e maus tratos, pais ausentes, com problemas de saúde ou no relacionamento conjugal são fatores relacionados positivamente com o comportamento delituoso. Desta forma, as práticas educativas parentais ineficientes se constituem fatores de risco ao envolvimento criminal.
 
Para Rocha (2009) [3], além das práticas parentais negativas, outros fatores de risco para o desenvolvimento de problemas de comportamento são: a presença de problemas de comportamento durante a infância, a ocorrência de comportamento antissocial em algum momento da vida e o abandono ou fracasso escolar. Outros pesquisadores destacam que a família monoparental (ou seja, famílias com apenas um cuidador/pai), em especial as gerenciadas por mulheres, também é um fator de risco. Hasson e Meleiro (2003) destacaram que o risco de atividade criminal na adolescência se duplica para homens criados sem figura paterna, sendo que em mulheres criadas sem mãe o risco é quase nulo.
 
Cabe destacar que os adolescentes em conflito com a lei têm déficit significativo nas habilidades sociais e em resolução de problemas. Assim, esses adolescentes tendem a reagir de forma totalmente despreparada diante de conflitos interpessoais. Um exemplo disso é quando diante de uma intimidação, o adolescente busca meios agressivos ou coercitivos que podem aumentar o problema ou colocar em risco a própria vida ou a de outras pessoas, como andar armado para fazer com que as provocações que recebe diminuam. Tal fato já abre precedente para outros comportamentos perigosos, como intimidar outras pessoas para roubar, emprestar a arma para amigos, trocá-la por droga, entre outros.
 
Outro fator de risco para o comportamento criminoso do jovem conforme apontado por pesquisadores é a baixa escolaridade ou o desinteresse pelos estudos. Gallo e Williams (2005) [4] constataram que a maior parte dos adolescentes que cumprem medida socioeducativa abandonou os estudos muito cedo. Ressalta-se que os estudos se configuram como uma atividade cujos resultados se apresentam a longo prazo, visto que a conclusão dos estudos básicos é algo que se dá após um período significativo de dedicação e empenho. Dessa forma, é uma atividade que requer persistência, autocontrole e muita tolerância à frustração, fatores muitas vezes prejudicados em adolescentes que estão em conflito com a lei.
 
Quando o jovem está desocupado, sem estudar, fica mais propenso a se envolver em atividades não exigentes, como o lazer, o uso de drogas e a convivência com o grupo de colegas. Assim, diante da desmotivação, das necessidades a serem supridas (por exemplo, uso de droga em virtude da abstinência, a necessidade de alimentação ou dinheiro) e de estímulos concorrentes com o estudo (como amizades, passeios, aventuras), o adolescente se vê em um contexto que é possível engajar-se em uma atividade que não requer tanto esforço quanto o que teria diante da escola (como o roubo) e que terá um resultado mais imediato, que é a satisfação de suas necessidades, mesmo que com os estudos haja resultados mais satisfatórios a longo prazo (como um emprego). Assim, com as atividades delituosas, o adolescente encontra um meio de suprir suas necessidades sem precisar de esforço para tal.
 
Daí a necessidade de os pais, desde cedo, educarem os filhos com afeto e limites, frustrando-lhes quando preciso, orientando-os quanto ao mundo e quanto à necessidade dos estudos. Embora na adolescência a voz do grupo de amigos muitas vezes seja mais forte do que a da família, esforços são necessários para que na infância seja feita uma boa relação com os pais, com diálogo e disciplina. É necessário que os pais se empenhem na tarefa de desenvolver nos filhos a empatia para com o outro, além de outros valores como a polidez, a vergonha, a culpa e a honestidade.
 
O desenvolvimento do comportamento moral e das habilidades sociais é algo que também é possível de se obter no contexto clínico. É inegável os muitos benefícios que a psicoterapia pode oferecer aos indivíduos que não se adaptam às normas sociais e que vivem à margem dos grupos, sobretudo as abordagens comportamentais e cognitivo-comportamentais. Por meio dessas modalidades terapêuticas, o adolescente com histórico infracional aprende novos repertórios comportamentais sobre ele mesmo e sobre o mundo, desenvolvendo novas maneiras de se relacionar. Caso seja implementada a psicoterapia enquanto o adolescente estiver cumprindo medida socioeducativa, os resultados podem ser ainda melhores.
 
No entanto, melhores resultados geralmente são aqueles obtidos quanto mais próximos do início dos comportamentos problemáticos, sobretudo quando crianças. Assim, diante da manifestação de comportamentos opositores e desafiadores na infância, procure um psicólogo de sua confiança.


[1] WAISELFISZ, J.J. Mapa da violência 2012. Crianças e adolescentes no Brasil. Rio de Janeiro: CEBELA, 2012.
[2] HASSON, M.E.; MELEIRO, A.M.A.S. Reflexões sobre a desestruturação familiar na criminalidade. In: RIGONATTI, S.P. (Coord.). Temas em psiquiatria forense e psicologia jurídica. São Paulo: Vetor Editora, 2003.
[3] ROCHA, G.V. M. Psicoterapia com infratores de alto-risco: trabalhando a mentira, a vergonha e a culpa. In: ROVINSKI, S. L.R.; CRUZ, R. M. Psicologia jurídica. Perspectivas teóricas e processos de intervenção. São Paulo: Vetor Editora, 2009.
[4] GALLO, A.E.; WILLIAMS, L.C.A. Adolescentes em conflito com a lei: uma revisão dos fatores de risco para a conduta infracional. Psicologia: Teoria e Prática, n. 7, v. 1, pp.81-95, 2005.
 
Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC. Atua como psicóloga clínica em Teresina-PI (Clínica Lecy Portela, onde atende criança, adolescente e adulto) e como psicóloga forense (Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão), em Caxias-MA. Atuou como pesquisadora no Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas”) e atualmente está vinculada ao Laboratório de Neurociências Cognitivas da Universidade Estadual do Piauí- UESPI. Contato: juliana@inpaonline.com.br.

Experiências dolorosas afetam os cromossomos

Vítimas de agressão durante a infância podem ter maior vulnerabilidade a doenças
 
Zentilia/Shutterstock
Crianças que vivenciaram episódios de violência doméstica têm, em média, as extremidades dos cromossomos – chamadas telômeros – mais reduzidas, descobriram neurocientistas da Universidade Duke. O grupo coordenado por Idan Shalev investigou o DNA de 236 meninos e meninas britânicos, aos 5 anos e depois aos 10. Nesse meio-tempo, os pesquisadores perguntaram regularmente às mães se seus filhos testemunharam ou foram vítima de qualquer tipo de agressão verbal ou física dentro de casa. Shalev também levantou informações sobre possíveis assédios na escola. De acordo com a análise genética, crianças que enfrentaram mais de duas dessas experiências, consideradas altamente estressantes, apresentaram telômeros muito menores que as que viviam em ambiente pacífico.

O encurtamento das pontas dos cromossomos é um efeito característico do envelhecimento celular. Assim, as crianças de 10 anos que viram a violência de perto seriam biologicamente “pré-idosos”, o que pode explicar, segundo os pesquisadores, sua maior vulnerabilidade a doenças. Os telômeros selam a cadeia de DNA como os invólucros de plástico na ponta de cadarços. A cada divisão celular os cromossomos perdem um pouco de sua proteção telomérica, de forma que chega um momento em que as células não podem mais se dividir. Estudos já comprovaram que as tampas protetoras do DNA diminuem com o aumento da idade biológica e são influenciadas por fatores como tabagismo e obesidade.
 

Abuso sexual infantil: um alerta aos pais


O abuso sexual de crianças e adolescentes é mais frequente do que se imagina. Só em Londrina, são denunciados cerca de 200 casos por ano, ocorridos em todas as classes sociais. Os agressores são em sua maioria homens, com idade entre trinta e quarenta anos, familiares das vítimas ou conhecidos da família. Diante disto, fique atento a adultos, inclusive de sua confiança, que freqüentemente estão rodeados de crianças; que oferecem presentes e se colocam a disposição para ajudar com atividades cotidianas, escolares ou religiosas, sem cobrar por isto; que estejam em contato maior com crianças do que com pessoas de sua própria idade. Normalmente os abusadores se colocam em posição que parecem "acima de qualquer suspeita", são cordiais com adultos e com crianças e podem estar em posição de autoridade em relação à criança ou à família.
As conseqüências do abuso sexual são graves e diversas: a criança abusada pode ter crises de choro; medo de ficar sozinha ou de situações específicas; pode ter prejuízo no relacionamento com colegas, ficando retraída ou agressiva; pode apresentar problemas de saúde sem causa médica; queda no desempenho escolar. A criança agredida pode ficar confusa quanto ao que aconteceu; sentir medo de ter provocado a situação; sentir-se coagida a guardar o segredo, e ter medo de ser castigada caso conte o ocorrido. A situação é especialmente problemática quando um abusador for um familiar ou alguém íntimo da família e a criança já apresentar problemas de comportamento. Pois, seria mais provável que uma mãe ou pai acreditasse que o cônjuge ou outro familiar tenha praticado o abuso ou que a "criança problemática esteja buscando uma confusão"? Caso a criança conte que sofreu um abuso, observe, verifique, denuncie! Apenas 6% dos casos em que a criança relata a agressão relacionam-se à fantasia ou mentira.
Saiba que as crianças ou adolescentes
nunca são responsáveis pelo abuso sexual. As crianças são curiosas quanto à sexualidade e ainda que façam perguntas de cunho sexual ou queiram ver ou tocar os genitais de um adulto, ou ainda mostrar seus genitais, é o adulto que tem a responsabilidade de interromper esta interação. As crianças estão explorando o mundo e parte disto diz respeito a sua sexualidade. Portanto, orientar crianças a respeito da sexualidade pode ter impacto preventivo sobre situações potencias de abuso.
 
Por: Annie Wielewicki
Instituto Innove

Abuso infantil triplica o risco de a criança ter depressão

Segundo estudo, maus-tratos físicos, mentais e negligência na infância também elevam as chances de comportamentos sexuais de risco e abuso de drogas
 
 
Um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália, listou as principais consequências provocadas pelo abuso infantil físico e emocional e também pela negligência. De acordo com os autores dessa pesquisa, esse tipo de violência pode até triplicar o risco de uma criança, ao longo de sua vida, ter depressão. O estudo ainda mostrou que outros problemas, como abuso de cigarro e drogas, comportamento suicida e comportamentos sexuais de risco, como um maior risco de contrair alguma infecção sexualmente transmissível, também podem ser desencadeados pelos maus-tratos infantis. Os resultados desse trabalho foram publicados nesta terça-feira no periódico PLoS Medicine
 
A pesquisa australiana, que revisou 124 estudos sobre o assunto, mostrou que indivíduos que sofreram abuso emocional na infância (quando a criança é depreciada ou recebe ameaças constantemente, por exemplo) apresentam o triplo de chance de ter depressão do que aqueles que nunca sofreram esse tipo de violência. Esse risco dobra quando comparadas as pessoas que sofreram abuso físico (quando a força física é usada contra a criança, prejudicando a sua saúde, sobrevivência, desenvolvimento ou dignidade) àquelas que nunca passaram por situações como essa.
 
Ainda de acordo com o estudo, crianças que sofreram negligência ou abuso físico e emocional tendem a desenvolver comportamentos de risco, como tabagismo e sedentarismo, que podem levar a doenças crônicas ao longo da vida. “Essa pesquisa mostra uma relação causal entre abuso infantil, exceto o abuso sexual, e uma série de danos à saúde física e mental”, escreveram os autores. “Todas as formas de maus-tratos devem ser consideradas como fatores de risco importantes para a saúde da criança. A consciência sobre as graves consequências que o abuso infantil tem a longo prazo deve encorajar medidas que identifiquem e protejam crianças com maior risco de sofrer maus-tratos.”
 

Fonte: Veja

Exploração e Abuso Sexual de Crianças e de Adolescentes

O abuso sexual é definido como uma situação em que uma criança ou um adolescente é usado para a gratificação sexual de um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho, com mais de 16 anos e 5 anos mais velho que a vítima. O abuso sexual geralmente é praticado em situações nas quais o adulto induz a criança ou o adolescente, por meio de sedução, mentiras, promessas, presentes, ameaças e até violência física.
A exploração sexual de crianças e de adolescentes caracteriza-se pelo uso deles com fins comerciais e de lucro, seja levando-os a manter atividades sexuais com adultos ou adolescentes mais velhos, seja utilizando-os para a produção de materiais pornográficos como revistas, filmes, fotos e sites na Internet. São considerados exploradores, o cliente que paga pelos serviços sexuais e, também, os intermediários que induzem, facilitam ou obrigam crianças e adolescentes a se prostituírem. Há ainda aqueles, geralmente homens mais velhos, que iniciam adolescentes na vida sexual, sem terem a intenção de estabelecer qualquer vínculo afetivo duradouro com eles. Eles usam a sua capacidade de sedução para conquistá-los e se enaltecem com isso. Para manter o status de conquistador, fazem revelações de suas “proezas sexuais” e apresentam materiais, como fotos, filmes, gravações em áudio, demonstrando a intimidade que eles têm com a vítima.
Em uma pesquisa realizada a partir da análise de documentos de processos de casos denunciados de violência sexual ajuizados pelas Promotorias Especializadas na Infância e na Juventude de Porto Alegre, constatou-se que 80,9% das vítimas de abuso sexual eram do sexo feminino e 19,1% do sexo masculino. A maioria das crianças abusadas tinha entre 5 e 10 anos, mas havia casos de crianças de 1 e 2 anos de idade. De forma geral, a denúncia é feita quando a vítima já é adolescente: 42,6% apresentavam idade entre 12 e 18 anos, quando a situação abusiva foi delatada. Esses são dados de denuncias ajuizadas, mas de acordo com o depoimento de Alda Inácio, é muito comum as pessoas terem medo de fazer a denúncia.
Alda Inácio tem um  site na Internet (http://www.pedofilia-nao.inf.br), através do qual ela faz uma campanha contra a exploração e o abuso sexual de crianças e adolescente. Em contato pessoal, ela escreveu que são raras as pessoas que se interessam em fazer um trabalho nesse campo. “A maioria das pessoas não quer nem pensar que esses crimes são verdadeiros, até que aconteça dentro da sua própria família”. Diz ela que pelo  site são recebidas muitas denúncias de pessoas que têm medo de fazê-las pessoalmente, e que ela, então, as envia para a Polícia Federal.
Decidi escrever sobre este tema, contextualizando-o na história de Mauro, Maria e Pedro, porque o abuso e a exploração sexual de crianças e de adolescentes, além de ser um grande problema de saúde pública é um problema psicológico grave. Do ponto de vista psicológico, devemos considerar não somente a vítima, como, também, o abusador e a família de ambos. Todos eles necessitam apoio psicológico, pois todos sofrem com essa situação. Além disso, o abusador ou estuprador que for preso, mas não receber tratamento psicológico, certamente voltará a praticar esse tipo de crime ao ser solto.
Na história de meus personagens, Maria descobriu que seu noivo esteve preso em Portugal, por ter sido acusado de ter abusado de uma menina na escola em que trabalhava. Maria ficou chocada e indignada. Pedro havia sido violento com ela, mas ela não imaginava que ele tivesse um distúrbio de comportamento tão grave assim. Ela sentiu muita raiva, mas aos poucos foi se acalmando e começou a pensar no sofrimento da mãe dele e considerou que ele, igualmente, deve sofrer muito. Ao comentar, com sua amiga que estava com pena dele, Corina reagiu explosivamente:
-Você não está pensando em desistir de denunciá-lo pelo que ele fez com você! Está?
-Corina, eu estou com dó do Pedro. Embaixo daquela couraça, tem uma pessoa que deve sofrer muito.
Ele é um coitado!
-Tá bom, Maria! Mas vê se não desiste de fazer a denúncia, pois se não, você é que vai fazer os outros sentirem dó de você. E tenho certeza, que ele não se sente culpado pelo que fez a você e àquela menininha lá de Portugal.
- É verdade, gente assim não sente culpa. Eu nunca vi o Pedro arrependido de algo que tenha feito. Ele não sabe pedir desculpas. Se não for denunciado, vai continuar fazendo o que bem entender. Eu não posso pensar só em mim, né?
Corina e Maria estão certas quanto ao fato de que pessoas com distúrbios de comportamentos graves, como assassinos, estupradores e abusadores de crianças e de adolescentes, raramente sentem culpa. Essa é uma das grandes dificuldades para que se possa submetê-los a tratamento psicológico.
Professora da Universidade Estadual de Londrina
Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo

Falta de carinho pode prejudicar desenvolvimento de crianças

Cientistas conseguiram medir o quanto a falta de carinho afeta o desenvolvimento das crianças. Os pesquisadores analisaram duas crianças de três anos, uma bem tratada pela família e a outra nem tanto. Veja!
 
Clique Aqui para assistir a reortagem!

Infância traumática pode levar à dependência de drogas durante a vida

Crianças que passam por situações de abuso físico, sexual ou emocional são mais propensas a desenvolver comportamentos associados ao vício.
 
 
Segundo uma nova pesquisa da Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, pessoas que tiveram uma infância traumática adquirem traços de personalidade, como impulsividade ou compulsão, que são associados a um maior risco de dependência em drogas. O estudo foi publicado nesta sexta-feira no periódico American Journal Psychiatry. “Há muito se sabe que situações de abuso e violência na infância ajudam a determinar o comportamento e a personalidade que uma pessoa apresenta durante a vida, e nossos resultados confirmaram esse conceito”, diz a coordenadora do trabalho, Karen Ersche.
 
Estiveram envolvidos no estudo 50 adultos dependentes de cocaína, que foram comparados com seus irmãos biológicos que nunca haviam apresentado problemas com drogas. Todos esses indivíduos foram submetidos a extensas e aprofundadas análises de personalidade e também relataram se haviam sofrido experiências negativas na infância — como abuso físico, emocional ou sexual.
 
Consequências — Os resultados indicaram que existe uma relação direta entre situações traumáticas na infância, personalidade impulsiva e dependência de drogas. “É uma associação interessante, pois traços de impulsividade são conhecidos por elevar as chances de dependência química, mas não podem ser considerados como uma desculpa para o abuso de drogas”, diz Ersche.
 
A pesquisa ainda mostrou que os irmãos dos dependentes, que também tiveram uma infância traumática, embora não abusassem de drogas, apresentavam traços de personalidade associados ao vício. Os pesquisadores pretendem estudar de que maneira os irmãos que apresentavam essas características não se tornaram dependentes de drogas durante a vida — ou seja, o que torna uma pessoa que é propensa ao vício ‘resistente’ ao problema. Com isso, eles acreditam que seja possível criar abordagens terapêuticas mais eficazes para combater a dependência química
 
Fonte Veja

Muito além da palmada: alternativas para práticas coercitivas


Educar um filho deve ser, provavelmente, a maior responsabilidade dos adultos. Crianças não vêm com um manual de instrução: os pais educam treinando, fazendo uso dos modelos que tiveram acesso enquanto filhos e nem sempre com as práticas menos danosas ao desenvolvimento infantil. Diante de uma reflexão quanto à punição corporal exposta anteriormente no Blog [1], este texto pretende demonstrar outras formas de educar, baseadas em pressupostos científicos. Sua eficácia é verificada nas famílias que as aplicam e na prática de orientação parental do psicólogo em consultórios e instituições.

Antes de tudo, é importante destacar que a maior alternativa para a punição corporal é um conjunto de atitudes preventivas dos pais, como clima familiar amistoso, com muito diálogo (comunicação positiva), envolvimento e participação na rotina infanto-juvenil, estabelecimento de regras claras e consistentes (adequadas à faixa etária), tolerância emocional, demonstrações de afetos, reconhecimento dos comportamentos adequados realizados (imediato à ocorrência), uso de consequências lógicas ao invés de punição corporal, dentre outras. Práticas punitivas em geral, se forem inevitáveis, devem ser utilizadas como último recurso, esporadicamente, pelas mesmas razões apontadas anteriormente.

Considerando que geralmente a surra acompanha verbalizações rudes e depreciativas, que servem para dar ênfase à chateação dos pais, percebe-se tais palavras ferem mais do que um castigo físico, pois atinge a autoestima. Exemplos como “Você é um menino mau”, “O que há de errado com você?” e “Você é mesmo um estúpido, você me decepciona” são inapropriados porque não destacam o comportamento inadequado de quem o executa: não é o comportamento que é inoportuno, mas o próprio filho. E o mais importante de tudo: o pai extravasa suas emoções e a criança continua sem entender o que fez de errado e como poderia fazer diferente. Contrapondo a punição corporal e a agressão verbal, tem-se a comunicação positiva, termo que descreve o diálogo claro, apropriado à faixa etária dos filhos, que revela os desejos e as emoções de forma adequada, sem causar danos ao ouvinte.

A comunicação positiva pode ser implementada nesses momentos quando o pai destaca o que a criança deve fazer, explicar o por quê, suas consequências e apresentar uma alternativa. Por exemplo, ao invés de “Para de pular, menino-macaco”, pode-se dizer “Se você pular enquanto bebe o suco, vai se sujar, quebrar o copo no seu pé e vai doer. Você pode beber primeiro e depois ir brincar”. Ao invés de “você é mesmo um estúpido, você me decepciona”, pode usar “Não gostei do que fez”. Como pode ser verificado, diante de um comportamento inadequado deve-se ter autocontrole não somente para o comportamento motor, mas ao verbal também. Cabe então a famosa contagem até 10 (ou o número mais adequado à irritação!), a respiração lenta e profunda e a retirada do local para que nenhuma dessas frases salte da boca e façam um estrago na autoestima infantil.

Uma boa qualidade de diálogo é uma prerrogativa para que também haja seguimento de regras. Através dele, as regras familiares são repassadas, relembradas quando necessário (antes e mesmo depois de o comportamento adequado se estabelecer) e supervisionadas quanto ao seu cumprimento. Caso não haja o estabelecimento de regras, como será possível uma criança perceber que burlou uma norma? Daí a importância de que elas sejam bem claras, coerentes à idade, consistentes e realistas. Diante de crianças menores, a clareza deve ser fundamental, em frases sucintas. Já em crianças maiores, pode-se explicar o que foi feito de inadequado, colocando as consequências para evitar uma próxima ocorrência (ou mesmo nessa, caso a regra já tenha sido exposta anteriormente à criança).

Caso você tenha estabelecido uma consequência a algo que é inadequado, não se deve mudá-la por conta do seu humor. Regra é regra, e caso haja descumprimento, deve ser devidamente consequenciado. No entanto, o mais importante de tudo é que, caso haja cumprimento da mesma, é necessário o reconhecimento social do que foi feito adequadamente.

Esta, aliás, é uma grande dificuldade humana: a tendência em deixar passar o que está bom ou o que é adequado e dar mais atenção ao que poderia ser melhor, ou o inadequado. No caso dos pais, quando a criança se comporta bem, muitas vezes não há elogios ou reconhecimento social. No entanto, diante de uma travessura ou de algo inadequado, os pais usualmente conferem mais atenção que, mesmo negativa (como uma palmada), possui um efeito significativo na criança, sobretudo se usualmente ela não tem atenção daquele porte.

Não é raro encontrarmos famílias que fazem reuniões sociais cujas pautas incluem as últimas travessuras de seus filhos: as frases que surpreendem pela elaboração intelectual (ou pela malandragem), as “artes” na escola e em casa, entre outras. Comportamento inadequado não é digno de tanta repercussão social, mas algo sério que precisa ser remediado e não exposto. Quando uma criança constata que suas “artes” são reconhecidas pelos adultos significativos, isso possui um efeito reforçador, prazeroso para elas. É como se, sendo aluno bem comportado, com boas notas ou um bom atleta ficasse em desvantagem, pois diante das travessuras a sua popularidade é maior, aumentando a probabilidade de o comportamento inadequado ser fortalecido.

Como abordar, então, as ações infantis inapropriadas?

Uma estratégia que costuma ser efetiva, embora pais tenham dificuldades em manterem-se firmes na sua aplicação é ignorar o comportamento. O procedimento é indicado nas condutas infantis em que os pais podem ser indiferentes, como birras, caprichos ou pedidos inoportunos. A contraindicação é para aqueles comportamentos agressivos ou destrutivos, como auto ou heteroagressão. A técnica consiste em ignorar o comportamento, não cedendo ao que a criança quer. Por exemplo, uma criança insiste em querer a sobremesa antes da refeição, diante de uma negativa dos pais e o infante ainda birrar, o capricho deve ser prontamente ignorado por eles.

Cabe aqui uma observação: inicialmente o comportamento ignorado pode aumentar de intensidade ou de frequência, mas logo depois tende a desaparecer. Assim, mesmo que dê a impressão que na verdade a criança está piorando (birrando mais, ficando agressiva ou buscando outras formas de chamar a atenção ou de ter o que quer), basta que os pais continuem firmes, não cedendo à pressão da criança. Se por acaso os pais concederem ao desejo do infante, estarão ensinando que mais cedo ou mais tarde ele terá o que quer, de forma mais intensa. Costumo dizer aos pais que ninguém gosta da sinfonia dos gritos e choros infantis, tampouco se sente confortável em ver a criança sofrendo por não ter o que quer. No entanto, a frustração é necessária se quisermos que limites sejam dados a elas, cabendo para tanto o preparo emocional dos pais ao sofrimento infantil.

O uso de consequências lógicas para as regras também se mostra efetivo. Deve-se descrever o comportamento e as consequências caso haja infrações. Por exemplo: se a criança ao brincar for espalhar os brinquedos, ao terminar deve guardá-los, senão ficará sem brincar com eles no dia seguinte; se não desligar o computador no horário combinado, ficará sem ele por 3 dias. Esta técnica possibilita o desenvolvimento da responsabilidade da criança sobre seus comportamentos, e tem efeito se os pais forem consistentes com o combinado, ou seja, se não se esquecerem de aplicar as consequências. Além disso, o uso da técnica também é efetiva (e mais desejável) colocando o comportamento adequado e as boas consequências: “se o quarto ficar arrumado todo dia, nós iremos ao clube no sábado”. Assim, não se cria um clima negativo em torno das regras, sendo mais atrativo o cumprimento delas.

Retirar a criança da situação por alguns minutos para que ela reflita sobre o que acabara de fazer (técnica chamada de time-out) é também uma opção. O critério de tempo baseia-se na idade da criança: um minuto para cada ano de vida (cabe destacar, no entanto, que a técnica é contraindicada em crianças menores de dois anos). Para que haja efeito, é necessário uma preparação ambiental: um lugar sem distratores ou atrativos, em que a criança possa ficar longe dos demais da casa, sentada, por exemplo. Deve ser feito imediatamente após o comportamento inadequado, colocando-se a criança no ambiente escolhido e explicando por qual razão está indo para aquele local, de modo que os pais não podem voltar atrás (o que não quer dizer que não possam ficar supervisionando de longe). Após o tempo estipulado, o cuidador a retira do local e verifica o que a criança aprendeu, reafirmando que pode ocorrer de novo caso se comportem inadequadamente.

Outro método punitivo alternativo é o já conhecido castigo, que consiste em retirar algo que a criança gosta muito diante de um comportamento inadequado. Por exemplo, “você bateu no irmãozinho, e isso não é permitido aqui. Então, você ficará sem vídeo-game por 3 dias”. Cabem aqui alguns cuidados: o castigo deve ser coerente com a idade da criança e com a infração cometida, sendo justa com o comportamento, mas não com a raiva do aplicador (caso assim fosse, certamente haverá excessos); deve ser imediata ao comportamento em questão e também moderada, para não causar raiva na criança, o que prejudicaria a técnica.

Com este texto, esperamos que tenha ficado claro que há outras possibilidades além da punição corporal. As outras formas de punição aqui descritas podem ser utilizadas esporadicamente. No entanto, a prevenção com o reconhecimento e reforçamento dos comportamentos adequados continua sendo a melhor estratégia.

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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Telefone - (61) 3242-1153

Maus-tratos psicológicos são tão prejudiciais às crianças quanto agressões físicas

Em artigo, especialistas americanos afirmam que esse tipo de conduta é a forma mais comum de abuso na infância e, assim como punições físicas, pode causar diversos problemas comportamentais ao longo da vida

Maus-tratos psicológicos: excluir, aterrorizar e desprezar uma criança são
condutas que afetam a saúde delas tanto quando agressões físicas (Thinkstock)

Maus-tratos psicológicos — como depreciar, denegrir, ridicularizar, aterrorizar, explorar e praticar bulliyng —  são tão prejudiciais à saúde de uma criança quanto punições físicas, afirmaram especialistas em um artigo publicado nesta segunda-feira na revista Pediatrics. Segundo os autores, que fazem parte da Academia Americana de Psiquiatria da Criança e do Adolescente (AACAP, sigla em inglês), esse tipo de conduta é a forma mais prevalente de abuso e negligência infantil e pode acarretar, ao longo da vida, problemas de relacionamento, de desenvolvimento e de educação, que costumam ser mais intensos quando os maus-tratos ocorrem nos primeiros três anos de vida da criança.
 
Como explica Harriet MacMillan, professor da Universidade McMaster, no Canadá, e um dos autores do relatório, os abusos psicológicos aos quais o artigo se refere são os casos mais extremos, que fazem com que uma criança se sinta frequentemente “inútil, desprezada ou indesejada”. Um pai que levanta a voz após ter pedido ao filho várias vezes para que ele calçasse o sapato, por exemplo, não pode ser considerado como um abuso psicológico. “Mas gritar com a criança todos os dias, fazendo com que ela pense que é uma pessoa horrível, é exemplo de uma relação potencialmente prejudicial à saúde dessa criança”, diz o especialista. “Todos os pais já tomaram atitudes das quais se arrependeram depois, mas um padrão crônico de menosprezo e negligência em relação aos filhos constitui um abuso psicológico”.


De acordo com MacMillan, embora o abuso psicológico contra crianças tenha sido descrito na literatura médica pela primeira vez há mais de 25 anos, e apesar de ser tão prejudicial quanto os outros tipos de maus-tratos, essa conduta é pouco reconhecida e notificada. Na conclusão do artigo, os autores destacam a importância de os médicos estarem atentos aos maus-tratos psicológicos apresentados pelos pacientes pediátricos — e que uma colaboração entre pediatras, psiquiatras e profissionais que trabalham com a proteção da criança é essencial para ajudar uma criança em risco de abuso.


Brasil — Embora esse artigo tenha apontado para os maus-tratos psicológicos como o tipo de violência mais comumente sofrido pelas crianças, dados do Brasil tiveram outros resultados. Em maio deste ano, o Ministério da Saúde divulgou um levantamento indicando que, no país, entre crianças de até nove anos de idade, os tipos de violência mais comuns são negligência e abandono (36%), seguidos de abuso sexual (35%). Entre jovens de dez a 14 anos, os principais abusos são os físicos (13,3%) e os sexuais (10,5%); e entre adolescentes de 15 a 19 anos, os principais tipos de violência são as físicas (28,3%) e as psicológicas (7,6%).


Fonte: Veja online

Palmadas e surras: reflexões sobre práticas coercitivas


Medidas punitivas são práticas educacionais milenares, bastante arraigadas na sociedade. A prova disso é a referência encontrada em provérbios bíblicos e culturais por todo o mundo, que as associam a amor, boa educação e até a salvação [1]. Seja concebida como medida acessória ou como prática essencial na educação dos filhos, verifica-se que em alguns momentos existe um limite tênue entre a palmada, a surra e os maus tratos à criança ou adolescente. É nesse contexto que o Estado [2] propõe a proibição da palmada e seus derivados, dividindo opiniões entre pais e educadores. O texto de hoje vem acrescentar à discussão uma reflexão em torno dessa prática para que, posteriormente, sejam propostas alternativas para a punição normativa.

O termo práticas educativas parentais denomina uma série de comportamentos que os pais apresentam na criação de seus filhos. Tais atitudes são transmitidas de geração em geração, não pela via genética, mas pelo fato de o sujeito aprender tais comportamentos na convivência com seus antepassados imediatos, e assim sucessivamente.

Passemos, então, ao seguinte raciocínio: se um comportamento é aprendido e é perpetuado ao longo das gerações, significa dizer então que este é selecionado historicamente. Suas consequências devem ser fortes o suficiente para que uma pessoa se comporte dessa forma. No entanto, isso não quer dizer que sejam somente comportamentos adequados os perpetuados: o mesmo processo vale para os comportamentos ditos inadequados. Por exemplo, quando uma pessoa privada de atenção (ou sem atenção suficiente) se lesiona diante de pessoas ocupadas, isso provavelmente busca olhares e investimentos de quem a rodeia. Apesar de provocar dor, é funcional porque foi aprendido na história de vida e é mantido pelas consequências (obter atenção social). Existem outros comportamentos alternativos com a mesma finalidade, mas a pessoa aprendeu que dessa forma obtém o que deseja, e quanto maior essa associação, maior a dificuldade de mudança.

Dito isso, fica o questionamento: quais são as consequências da punição física quando ela é adotada no manejo de comportamentos inadequados?

O primeiro efeito observado é o resultado imediato: o comportamento inadequado (aquele que é contrário ao que é socialmente aceito ou que traz risco a quem o executa ou a outras pessoas) é prontamente suprimido. Por exemplo, quando um pai surra uma criança por esta bater em seu irmão, é possível que a criança não tente fazê-lo novamente. É um efeito que acaba fortalecendo o comportamento do agente punidor, pela sua própria eficácia. No entanto, o comportamento inadequado pode reduzir a frequência inicialmente, mas pode voltar a ocorrer. Vejamos.

Ao ter seu comportamento punido, a pessoa aprende que não deve se comportar daquela maneira, pois assim teria punição, pelo menos diante daquele que puniu. Aproveitando o exemplo supracitado, a criança pode não brigar com o irmão na presença do pai (para evitar a punição), o que não quer dizer que deixará de bater diante de outra pessoa ou mesmo sozinho com o irmão. O que a população comumente defende ser a mais efetiva prática educativa, na verdade ocasiona uma operação de esquiva das consequências aversivas, tão somente, e não uma aprendizagem quanto ao modo certo de se comportar. Ainda no exemplo, a criança não aprenderá a ter comportamento amistoso, colaborativo, empático e amoroso com o irmão, pois isso não foi desenvolvido com o tapa recebido.

Assim, outro efeito que pode ser observado na punição corporal é que, por não aprender a se comportar de modo adequado, a pessoa pode buscar outras maneiras de fazer exatamente o mesmo, sem ser descoberta. É o caso de uma adolescente que está namorando precocemente. Ao receber punições, ela pode tanto deixar de namorar, quanto também pode mudar o horário das conversas ao telefone, mentir que rompeu o relacionamento, fugir de casa para encontrar o amante, ou mesmo não ouvir nenhuma orientação dos pais quanto a isso. Observe que, apesar da punição, ela continua tendo acesso a algo prazeroso, que é o namoro. É como se fosse um “estágio” que, embora sofrido, tende a passar e logo ela encontra algo reforçador que a fará “esquecer” da dor.

Na punição física, também se observa efeitos ligados às emoções de quem a recebe. A criança ou adolescente pode ter raiva do agressor, sobretudo quando ela não sabe a razão da agressão. Nesses momentos, ela pode usar-se de estratégias para ferir moralmente ou emocionalmente quem puniu, como por exemplo desafiar a bater mais forte ou mais vezes, ou dizer que não está doendo. Nem é preciso dizer que a raiva na relação entre ambos prejudica o clima familiar e a afetividade.

É comum observar que o jovem que tem seu comportamento punido obedece e respeita o pai punidor. Na verdade, complementando o que fora dito anteriormente, o que existe é o medo do agressor, que se tornou aversivo. Muitas vezes, no raciocínio da criança, estar diante dele pode sinalizar uma punição iminente, e o melhor é afastar-se (fugir) para evitar problemas futuros.

Caso as punições sejam inconsistentes, frequentes e que dependem do humor dos pais, o jovem pode desenvolver um quadro de desamparo aprendido, que se assemelha à depressão. Esse quadro se instala devido ao jovem não entender porque está sendo punido, nem por saber o que pode fazer de correto para evitar as consequências aversivas inesperadas.

A partir do momento em que pais associam amor à dor, como ao dizer “eu te bato porque quero seu bem”, a criança aprende que quem ama pode machucar, o que pode trazer disfunções em outros relacionamentos futuros (como submissão a violência conjugal, por exemplo). Excessos de punições corporais também apresentam o risco de a criança desenvolver em longo prazo comportamentos antissociais, como mentir, enganar, provocar e também reproduzir a agressão com outras pessoas.

Uma última consequência é a baixa autoestima: os excessos de eventos físicos aversivos podem produzir culpa, vergonha, crenças de baixa valia e de que seus comportamentos nunca são bons o suficiente para seus pais, o que repercute negativamente no autoconceito e em como a pessoa se apresenta socialmente.

Cabe agora um destaque para as diferenças descritivas entre palmada e surra, visto que muitos pais buscam defender que não batem nos filhos, mas apenas empregam uma “palmadinha”. Aqui vem uma provocação: qual é o limite entre a palmada e a surra?

Em um levantamento bibliográfico realizado em 2005 [3] constatou-se que os preditores da punição física são: irritação, raiva, estresse, mau humor, doença e infelicidade dos pais, dentre outros fatores. Dessa forma, percebe-se que ao punirem fisicamente seus filhos, os pais estão emocionalmente alterados. Então, o limite de uma modalidade para a outra é a força física, inversamente proporcional ao autocontrole e diretamente proporcional ao humor dos pais. Assim, é mais provável que haja uma palmada em infrações leves ou diante de um autocontrole maior da força e das emoções e uma surra diante de infrações mais graves, quando os pais estão de mau humor e quando não dosam o controle do castigo físico.

Quando os pais descontam nos filhos suas irritações, encontram uma maneira de extravasar suas emoções, ao passo em que verifica que o comportamento inadequado reduziu imediatamente de frequência. Muitas vezes, é para obterem alívio da raiva que pais adotam a punição física. Dessa forma, a punição corporal abandona o aspecto educativo e já se aproxima de agressão por envolver déficit no autocontrole dos pais.

Além disso, observa-se o limite tênue entre palmada e surra também quando há uso frequente dessa prática. Por exemplo, se uma criança se comporta de forma inadequada e recebe um castigo físico a cada reincidência, ela pode habituar-se diante dessa prática, de modo que não faz mais o mesmo efeito, ou seja, não suprime a frequência.

Por esse “costume” diante da punição, o familiar pode utilizar uma intensidade maior da força ou mesmo um tempo maior de punição física, o que, então, caracterizaria um nível mais profundo do castigo. Dessa forma, há uma progressão entre palmada, surra e espancamento de acordo com a ineficácia do método, que muitos pais só percebem quando de fato constatam os danos na criança.

Outro fato a ser observado é a força empregada na punição física e o crescimento infantil. À proporção do desenvolvimento infantil, maiores são as forças físicas empregadas. Como é possível, então, delimitar o que seria uma agressão em um adolescente, por exemplo?

Portanto, a palmada é a parte inicial de uma escala progressiva para a agressão. Os princípios são os mesmos de um espancamento, que é o uso da força e da coerção para intimidar uma pessoa. É difícil delimitar onde termina um e quando começa outro. É fato que educar filhos não é uma tarefa fácil: ela é contínua, para a vida toda, requer investimento, observação, conhecimento, flexibilidade, criatividade e muitas outras habilidades. Realmente, modelar um comportamento adequado é mais trabalhoso, é muito cômodo aplicar uma punição física: é fácil, rápida e tem efeito breve. Porém, como foi descrito, trazem alguns efeitos indesejáveis e, além disso, podem ser substituídas por outras medidas menos danosas.

Quando o projeto de lei proíbe a palmada, está indo de encontro a pais que aprenderam na sua experiência de vida que esta é uma alternativa válida, coesa com seus valores e crenças. De fato, com a proibição vem o sentimento de incompreensão, revolta e desamparo quanto ao que fazer. O projeto vem fazer o papel punitivo tal qual a palmada: não ensina a melhor maneira de educar os filhos, mas apenas normatiza a regra.

O objetivo deste texto foi apenas descrever o outro lado das punições normativas, provocando uma reflexão diante dos pontos abordados. Não se pretendeu aqui apenas iniciar a discussão sem realizar uma orientação mais pormenorizada. No entanto, as alternativas no manejo de comportamentos inadequados serão abordadas na próxima oportunidade.

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[1] A título de curiosidade, na Bíblia Sagrada, Pv 23, 13-14, tem-se: “Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá; castigando-o com a vara salvarás sua vida da morada dos mortos”. Um provérbio russo diz: “Ama as crianças com o coração, mas educa-as com tua mão” e um provérbio grego estabelece que “Quem não foi bem castigado com a vara, não foi bem educado”.

[2] O Projeto de Lei da autoria da Deputada Federal do PT Maria do Rosário foi proposta em 2003 e recentemente foi aprovada pela Câmara dos Deputados, faltando apenas a aprovação do Senado e da Presidente.

[3] Brandenburg, O.J.; Weber, L.N.D. (2005). Revisão de literatura da punição corporal. Interação em psicologia, v.9, n.1, p.91-102.
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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Telefone - (61) 3242-1153

Exposição infantil à violência pode levar ao desenvolvimento de distúrbios do sono

Segundo estudo realizado por pesquisadores americanos, crianças que convivem com situações de violência podem desenvolver problemas relacionados ao sono, sendo que o impacto e a severidade dos sintomas violentos podem continuar ao longo do tempo e afetar o desenvolvimento da criança.

De acordo com o estudo, a severidade da violência vivenciada pela criança está diretamente relacionada ao impacto sofrido na quantidade e qualidade do sono infantil; Percebeu-se também que a experiência violenta afeta aspectos mais profundos do sono (além de pesadelos e insônia, características já associadas a violência), como o fato da criança que envolve-se diretamente no ato violento tende a sofrer mais impacto do que o infante que somente testemunhou a violência, ou ainda um aumento gradativo de um sono inconsistente por parte da criança que presencia um homicídio.

Segundo James Spilsbury, autor do estudo, a violência permeia a sociedade de tal maneira que o próprio estudo demonstra que apenas um ato violento sofrido pela criança – seja como vítima ou testemunha – pode influenciar o comportamento do sono de diferentes maneiras, sendo que posteriormente isso afetará o desenvolvimento e saúde do indivíduo.

Crianças que não dormem bem tendem a não se desenvolver corretamente e a ter problemas comportamentais, além de tal fato estar relacionado a diversos riscos à saúde, como hipertensão, problemas cardíacos, depressão, diabetes, obesidade, entre outros.

O estudo analisou o sono de 46 crianças com idades entre oito e dezesseis anos, em sua maioria residentes de áreas urbanas; os dados foram coletados por sete dias, medindo-se a atividade durante o dia e a noite. Ao analisar-se os resultados, os pesquisadores atentaram-se a fatores como idade, sexo, aspectos familiares e exposição à violência no último ano.

“Mesmo depois de controlar os possíveis efeitos da exposição à violência durante o ano que se passou, percebemos que a severidade de eventos mais recentes tiveram influência negativa na qualidade e quantidade do sono infantil”, aponta Spilsbury.

Informações: American Academy of Sleep Medicine
Fonte: RedePsi

Gritar, ameaçar e humilhar uma criança são atitudes tão nocivas quanto bater

Seja aprovado ou não pelo Congresso Nacional, o projeto apelidado de "Lei da Palmada", que proíbe os castigos físicos e tratamentos degradantes de crianças e adolescentes pelos pais, já vem provocando mudanças. Desde 2003, quando começou a ser delineado, bater nos filhos tornou-se uma atitude politicamente incorreta, em especial depois que psicólogos, psiquiatras e educadores passaram a questionar seus resultados como medida educativa. É óbvio que é praticamente impossível saber o que acontece dentro dos lares, mas, hoje em dia, quem desfere uns tabefes, em local público, é alvo imediato de olhares de reprovação –e pode ter de dar explicações ao Conselho Tutelar. Some-se a isso os vídeos caseiros de flagrantes de violência e uma patrulha informal está formada.

Para os especialistas em comportamento, no entanto, não é só bater que é prejudicial e traumático. "Educar não é fácil. Não nascemos sabendo ser pais. Apesar de os tempos terem mudado, costumamos seguir os modelos que já conhecemos, de nossos pais e avós", explica o pediatra Moises Chencinksi. "E, se não se bate mais, por ser politicamente incorreto, e de fato inadequado, busca-se outras formas de ‘opressão’ para ‘educar’: gritar, castigar, xingar, ofender, humilhar...", declara. E, por essa lógica, o próprio especialista questiona: quem gosta de ser humilhado? Quem aprende algo assim? Quem pode ser feliz sendo tratado dessa forma?

Na opinião da psiquiatra Ivete Gianfaldoni Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo, primeiro é preciso entender que bater em um filho com a pretensão de educá-lo ou corrigi-lo é um engano, já que está apenas a serviço da descarga de tensão de quem pratica a violência. "Mas xingar, humilhar ou gritar, além de colaborar para que as crianças cresçam com medo e a autoestima prejudicada, nos afastam delas", afirma. Para Miriam Ribeiro de Faria Silveira, diretora do Departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo, quando os pais gritam o tempo todo com a criança demonstram muito mais desequilíbrio do que autoridade. "O pior é que elas também começam a gritar e ficam ansiosas, angustiadas e com muito medo, pois, onde deveriam ter seu porto seguro e soluções, encontram pais desesperados em se fazerem obedecer", diz.

A psicóloga Suzy Camacho concorda que a violência verbal é tão agressiva quanto a física, principalmente se os gritos tiverem uma conotação de ameaça: "Uma hora eu sumo e não volto nunca mais!", "Ainda vou morrer de tanta raiva", "Seu pai vai brigar comigo por sua causa!". "Diante de frases como essas, as crianças se sentem responsáveis por coisas que não são", explica Suzy. Ela também destaca o efeito devastador que os rótulos têm para a autoestima: chamar o filho de preguiçoso, bagunceiro, inútil, por exemplo. "Até os sete anos, a personalidade está em formação. Qualquer termo pejorativo pode marcar para sempre. Tente corrigir ou apontar a atitude, nunca uma característica", afirma. Exemplos? "Não gosto quando você deixa seu quarto desarrumado", "Você precisa prestar mais atenção no que eu falo" etc.

Para as crianças, a opinião dos pais e educadores a respeito de suas atitudes, da sua performance ou mesmo de seus atributos de beleza e inteligência são muito importantes na construção de uma personalidade. Ao perceberem que os pais não a admiram, elas tendem a se depreciar, o que pode culminar em casos de depressão, agressividade e fuga do convívio familiar. "Xingar e usar palavrões trazem consequências, pois é uma forma de depreciação. E como todas as crianças costumam copiar os pais, consequentemente, vão se comunicar dessa forma", diz Miriam Silveira. Já castigos cruéis despertam nas crianças a agressividade. "Nas mais extrovertidas observaremos atitudes hostis com adultos, com outras crianças e animais de estimação. Nas tímidas, as sequelas são angústia e ansiedade, sentimentos que podem impedir um desenvolvimento neuro-psíquico normal", diz Miriam.

Em muitos casos, a irritação e o cansaço causados por um dia difícil não conseguem ser controlados e o resultado acaba sendo a impaciência com os filhos. Os passos seguintes são a culpa, a frustração, a compensação para, no próximo dia, começar tudo de novo, num ciclo nocivo. Para os especialistas consultados por UOL Comportamento, a velha tática de contar até dez antes de tomar uma atitude drástica opera milagres. "Um adulto sabe que pegou pesado quando se sente angustiado. Dar um tempo freia essa sensação ruim e ajuda a esfriar a cabeça", conta a psicóloga infantil Daniella Freixo de Faria. "E se os pais, mesmo assim, extrapolarem, sempre recomendo pedir desculpas, porque um grito ou uma palavra mais pesada causa um abalo na segurança que o filho tem nos pais. Admitir que ficou triste com o que aconteceu, que estava bravo, que exagerou, demonstra respeito e ajuda a recuperar a confiança e o carinho", afirma ela.