Pequenos Tiranos

Muitas crianças têm seus desejos atendidos pelos pais como se fossem ordens que devem ser cumpridas sem questionamento. A conseqüência é o exercício do poder marcado pela arbitrariedade; sem limites, também não há possibilidade de satisfação

Como nos tornamos aquilo que somos? Essa pergunta, para a qual se buscaram (e ainda se buscam) respostas nas mais variadas áreas do conhecimento, conduziu Freud à descoberta do inconsciente. O homem não é senhor em sua própria casa, suas ações são determinadas por desejos e motivações que ele mesmo desconhece. A psicanálise surge como uma forma de tratamento que visa tais determinações, revelando paradoxos do desejo que evidenciam a existência da divisão entre a consciência e o inconsciente.

Essa subjetividade não é, entretanto, um dado a priori, é efeito de um árduo trabalho psíquico, por meio do qual é possível encontrar os instrumentos necessários para a entrada na cultura, pagando o preço do recalque e de uma divisão subjetiva sem a qual não haveria inscrição na ordem simbólica que orienta os caminhos do desejo. A família encontra aí seu papel fundamental, pois é nela que se recolhe, peça por peça, cada um dos instrumentos necessários para que se encontre lugar na cultura. A família adquire, nesse contexto, seu caráter e sua função de transmissão.

Podemos pensar em um caso particular dessa transmissão de recursos para a entrada na ordem social: o dos pequenos tiranos. Um trecho de conto infantil auxiliará a reflexão acerca de como essa transmissão regula a relação com o desejo, a lei, os valores morais, o narcisismo, e de como o sujeito se apropria dela. Como situar a posição dessas crianças, tanto de sua própria posição subjetiva como do ponto de vista dos vínculos familiares e daquilo que, desse laço, se transmite?

No início da história, somos apresentados ao desejo do casal de ter um filho. Como em todo desejo, há a marca de uma função simbólica: caberá ao príncipe ocupar seu lugar na linhagem paterna, herdando o reino de um pai que, por sua vez, herdou-o de seu próprio pai, numa ordem de gerações que conduz ao primeiro pai sobre a terra.

A família é, em essência, esse lugar de transmissão psíquica, que conta com o desejo dos pais e o lugar simbólico destinado à criança: “serás rei como eu”. A criança encontrará nesse espaço simbólico o ponto de sustentação de seu narcisismo e a organização psíquica que lhe permitirá situar-se como eu – unidade ilusória, mas estruturante, que assegura ao sujeito a consciência de si mesmo como um todo. Temos aí a função alienante do desejo do Outro que, ao mesmo tempo, sustenta o narcisismo e serve de suporte para a eleição dos ideais a serem alcançados: “serei rei”. É na exigência de responder a esse ideal narcísico que o super-ego exerce sua função.

Ocorre que, entre o que se é e o que se realiza desse ideal, há sempre um hiato, uma distância. Essa distância situa o sujeito, em sua essência, marcado por uma falta. Trata-se do que a psicanálise denominou castração, o sentimento de que falta algo, quando se tem no horizonte a referência a um ideal.

Entretanto, é justamente porque há falta que há algo a buscar – e é nessa busca que nos situamos como desejantes. O desejo é sempre condicionado pela falta, própria do ser humano. É uma condição que ao mesmo tempo nos aliena na busca do narcisismo perdido e nos lança em direção à vida, orientados pela aposta na realização de nossos desejos.

Como o principezinho do conto se conduz em relação ao que lhe falta e como isso o faz funcionar psiquicamente? A tirania do príncipe é a tirania do desejo. Seu desejo adquire o estatuto de ordem e a conseqüência é o exercício de um poder marcado pela arbitrariedade de sua vontade: “Mandou cortar todas as árvores, porque um dia lhe caiu uma ameixa na cabeça; mandou estrangular os pássaros, um a um, porque cantavam de manhã muito cedo e isso atrapalhava seu sono; ordenou que sua mãe fosse presa no 749o andar da mais alta das suas torres, porque ela tinha se atrevido a mandá-lo fazer os seus deveres reais”. Quanto maior a arbitrariedade de suas determinações, guiadas não pela lei, mas por seus caprichos, tanto maior a demonstração do peso de seu poder. Um poder tirânico que é exercido à revelia do desejo dos pais, impotentes diante do filho.

Que os pais sofram com o comportamento da criança não quer dizer, entretanto, que não estejam diretamente implicados nele. Como nos ensinou Freud, temos sempre nossa parcela de contribuição naquilo de que padecemos. Não é a própria rainha que diz ao filho “tu és o meu reizinho, o meu único rei, e os teus desejos são ordens”? Não é em resposta a esse desejo da mãe que o principezinho orienta suas ações? Não é como rei, como único rei, que ele se apresenta assim que o tiram de sua redoma de vidro?

Isso não significa, porém, que a resposta que o principezinho oferece não seja sua própria resposta. Afinal, coube a ele, e a ninguém mais, posicionar-se diante do desejo do Outro. É ele quem escolhe afirmar, diante do rei pai: “Passa para cá a sua coroa!”. Nesse sentido, não podemos considerá-lo uma vítima passiva diante do desejo do Outro. Ele produz sua resposta e é justamente ela que faz dele o que ele é: tirano.

Não nos esqueçamos, porém, de que ao formular sua resposta o principezinho encontra eco na postura do pai, que lhe entrega a coroa sem dizer uma palavra, “porque nunca havia dito não a ele, nem quando tinha 1 dia, nem quando tinha 3 meses. Como proibi-lo então de alguma coisa aos 7 anos?”. Tal é o dilema desse pai real, que escolhe ceder seu lugar porque lhe parece demasiado pesada a tarefa de ferir o narcisismo do filho para quem nunca fora possível dizer não. É assim que algo se transmite nessa família real, que testemunha, prematura e irresponsavelmente, a transformação do principezinho em rei. O narcisismo intocável do príncipe, a quem não se pode negar nada, é também o narcisismo intocável dos pais, que o criam como criança amada e infinitamente preciosa, numa redoma, servido por uma dúzia de criadas com o que havia de melhor e mais precioso. Protegido de tudo e sem conhecer proibições, não há, para o príncipe-rei de nosso conto, distância entre o ideal a realizar e aquilo que é – delineia-se então uma situação sem lugar para um desejo legítimo, ordenado e orientado simbolicamente pela lei compartilhada socialmente.

“...e viveram felizes para sempre” não parece ser o final que se descortina no horizonte quando o preço pago pela felicidade é a sustentação de um narcisismo que leva a crer num mundo onde não há limites. É justamente isso que nos revela a queixa final do principezinho que, tendo realizado todos os seus caprichos, permanece infeliz, assolado por sentimentos de solidão, tristeza e falta de amor.

Eis o conto:

Num reino longínquo, uma rainha desesperava-se por não ter filhos.

– Temos de ter um! Temos de ter um!, gemia o rei. Para quem ficará este soberbo reino que me deixou o meu pai, que o recebeu do seu pai, e assim sucessivamente, desde a criação do primeiro pai sobre a Terra? A quem entregarei a minha coroa quando os meus ossos se tornarem velhos e quebradiços, quando estiver cheio de cabelos brancos e tolhido de reumatismo?

– Que quadro tão terrível da velhice! Mas não deixa de ter razão: precisamos ter uma criança.

A rainha consultou todos os manuais e os médicos mais poderosos e mais sábios. Por fim, graças aos tratamentos, finalmente engravidou.

– Cuidado, este principezinho será seu tesouro, mas não lhe dêem mimo demais. Não tenham pressa em fazer dele um pequeno rei, preveniu o médico, assim que o bebê nasceu.

Mas mal ele virou as costas, a rainha pegou logo o pequeno príncipe e começou a enchê-lo de mimos.

– Tu és o meu reizinho, o meu único rei, e os teus desejos são ordens.

Os pais meteram o menino numa redoma infinitamente preciosa e, todas as manhãs, uma criada diplomada levava-lhe mamadeiras de cristal com leite da melhor qualidade e mel de abelhas raras. Dormia num colchão de pétalas de rosa colhidas na Abissínia exatamente às 5 horas da manhã -– quando estavam mais frescas -– e em lençóis bordados a ouro. Para servir o menino, uma dúzia de criadas corriam de um lado para o outro durante o dia e, à noite, dormiam a seus pés. Estava protegido de tudo: da mais leve brisa, do menor sopro… Para o aquecer, os pais mandaram construir um sol artificial, que não queimava a pele, mas fornecia vitamina D. Foi assim que o garotinho cresceu, tranqüilamente, em silêncio. Seus desejos eram ordens, sempre atendidas prontamente.

No dia em que completou 7 anos, pareceu conveniente aos pais tirar a criança adorada da sua redoma de vidro.

– Meu pequerruchinho, agora já és grande!, disse a mãe, aproximando-se para lhe fazer um carinho.

– Não sou pequerruchinho coisa nenhuma, disse o príncipe com desdém. E se quer me beijar, autorizo que me beije os pés. É o quanto basta.

Depois, dirigiu-se ao pai:

– Ei, velhote, passa para cá a sua coroa!

O rei entregou-lhe a coroa sem dizer uma palavra, porque nunca havia dito “não” ao principezinho, nem quando ele tinha 1 dia, nem quando ele tinha 3 meses. Como proibi-lo então de alguma coisa aos 7 anos? E foi assim que o principezinho se transformou em rei. Um rei tirano de 7 anos e alguns dias. Mandou cortar todas as árvores, porque um dia lhe caiu uma ameixa na cabeça; ordenou que todos os pássaros fossem estrangulados, um a um, porque cantavam de manhã muito cedo e isso atrapalhava seu sono; determinou que sua mãe fosse presa no 749o andar da mais alta das suas torres, porque ela tinha se atrevido a mandá-lo fazer os seus deveres reais. É o que por vezes acontece quando se é criado numa redoma.

O pior é que, apesar dos seus caprichos, ele tinha sempre um rosto infeliz e gritava:

– Sinto-me sozinho! Estou triste! Ninguém gosta de mim!

Trecho de O principezinho tirano, extraído do blog Gerações Dialogo

Michele Roman Faria é psicanalista, doutora em psicologia clínica pela USP e atualmente desenvolve pós-doutorado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. É autora de Constituição do sujeito e estrutura familiar (Cabral Editora e Livraria Universitária, 2003) e Introdução à psicanálise de crianças: o lugar dos pais (Hacker Editores, 1998).

Comentários

Anônimo disse…
O texto é bom e bem escrito. Só discordo primeiro de que Freud descobriu o inconsciente. A muito essa idéia já estava em voga. Shoppenhauer foi um dos que já falava na mesma coisa bem antes que Freud. Segundo que seria mais interessante falar dos controles ambientais sobre o sujeito. Faz mais sentido do que falar em algo misterioso e etc como o insconsciente freudiano
Obrigada pela contribuição e esclarecimento!!! Bjkss

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