Respostas para as perguntas que só as crianças fazem


Quem é mãe, pai ou cuidador já foi surpreendido com uma destas perguntas: “Como eu nasci?”, “Por que meu amiguinho tem dois pais?”, “Você faz sexo?”. É raro pais não titubearem frente a este tipo de questionamento, sobretudo quando referem à sexualidade. Um pouco de insegurança, delongas desnecessárias e linguagem inadequada prejudicam a compreensão infantil. Alguns cuidados são recomendados neste momento, e é deles que vamos tratar hoje.

A sexualidade é um termo que designa o uso do corpo para autoconhecimento, referindo-se às descobertas prazerosas e afetivas em relação a si ou ao outro. Ela faz parte da vida e está presente em todo o desenvolvimento do ser humano. Não seria diferente na infância, uma vez que a criança está explorando o ambiente, o próprio corpo, as diferenças dos gêneros e as formas de se relacionar com o meio e com os outros.

Na infância, as expressões de sexualidade estão nas atividades que lhes trazem satisfação, como mamar, chupar o dedo, receber um carinho, esfregar uma fralda de pano no corpo, entre outras. Vê-se, portanto, que sexualidade não está relacionada ao ato sexual: ao contrário do que comumente se pensa, os dois conceitos não estão necessariamente ligados.

Cabe destacar também a diferença entre a sexualidade infantil e a do adulto: este e a criança estão em fases distintas do desenvolvimento e, por este motivo, as formas de expressarem suas sexualidades também são diferentes. A busca pelo prazer vai se tornando genital com o passar do tempo e apenas na adolescência passará a ocorrer de forma mais próxima à do adulto. Por exemplo, a ereção peniana infantil – diante de afeto ou da estimulação local – não sinaliza a preparação para coito, mas somente uma reação fisiológica reflexa que, funcionalmente, em nada se assemelha à do adulto.

Na prática clínica, é bastante comum verificarmos pais aflitos com a expressão da sexualidade dos filhos, buscando terapia por acharem que “tem algo de errado” com eles. Muitos alegam precocidade, má influência da mídia ou da escola ou conjecturam inúmeras outras hipóteses. Acompanhando essa aflição, existe desconhecimento, insegurança e diversos tabus sexuais que a sociedade (sobretudo a criação familiar e religião) lhes impõe.

Ao questionarem sobre sexualidade, as crianças estão motivadas essencialmente pela percepção das diferenças de gênero (que se inicia entre 2 e 3 anos) e as próprias descobertas corporais. Às vezes, a estimulação visual (televisão, cenas de namoro e sexo de adultos, mulheres grávidas) e auditiva (escutar alguém falar sobre o assunto, usar uma alcunha para referir-se a sexo ou a órgãos genitais) também despertam a curiosidade infantil. Embora as manifestações de sexualidade sejam bem anteriores à aquisição da linguagem, é com o desenvolvimento dela que as crianças passam a externalizar suas dúvidas, questionando para melhor compreensão do que experimentam ou observam.

Neste contexto, cabe destacar a relevância de os pais se auto-observarem perante indagações de seus filhos. Não são importantes apenas as explicações que oferecem, mas também seu comportamento frente às curiosidades das crianças. Se diante de uma pergunta sobre sexo os pais reagem de forma ansiosa, preocupados, emitindo respostas públicas de sudorese, gagueira, sorrisos nervosos, respondendo de forma científica e minuciosa, ou mesmo apresentando repreensões verbais (“você é muito novo para saber disso”, “o que é isso, garoto?!” ou “vá perguntar para o seu pai!”), é possível que a criança compreenda que este assunto é proibido, concebendo a sexualidade como algo aversivo, diminuindo a frequência com que aborde tal assunto com, pelo menos, aqueles adultos.

Se, por exemplo, a criança é repreendida por tocar sua genitália, ela não aprende como deve se comportar para ter autocontrole. O que ela aprende é que o que fez é errado e que da próxima vez deverá fazer com mais cuidado, para não ser descoberta. Outro efeito da punição se refere às emoções correlatas. Neste caso, a criança pode sentir-se culpada por ter chateado seus pais, ou envergonhada por ter feito algo “sujo”. Cabe destacar que sentir culpa e vergonha diante da sua sexualidade não é saudável, uma vez que ela é vital e inerente ao ser humano. Tais sentimentos provavelmente acompanharão qualquer expressão sexual ao longo do seu desenvolvimento.

O modo como nossos comportamentos se apresentam hoje é resultado de um histórico de aprendizagem. No que tange à sexualidade, caso os adultos reajam da forma supracitada, já temos indícios de que, muito provavelmente, também foram repreendidos pelos seus pais diante da sua curiosidade sexual. Dessa forma, a maneira como farão os esclarecimentos às crianças dependerá essencialmente de como lidam com a sua própria sexualidade. Caso isso não seja bem manejado, eles poderão contribuir para que as crianças, na fase adulta, apresentem dificuldades de aceitação do seu corpo e de conseguir prazer consigo e com o outro. Portanto, para isso cabem algumas orientações.

O importante que os pais e educadores reajam com atenção, naturalidade e clareza, usando linguagem adequada à sua faixa etária, com termos que a criança conhece e usa. Estes são aspectos essenciais que tornam a conversa agradável, permitindo abertura e confiança para novos diálogos, além de compreensão sobre o assunto.

Uma das dúvidas dos pais é quando oferecer orientação sexual e se isso vai estimular práticas sexuais precoces. Estudos confirmam que informações sobre sexo e drogas, por exemplo, não estimulam a aproximação prática com o tema, sendo uma efetiva medida preventiva. Neste raciocínio, a melhor época para orientar sexualmente a criança é quando ela expressa a curiosidade sobre o assunto. A recomendação é que os pais respondam objetivamente ao que é solicitado, sem delongas ou excessos. A complexidade das informações e da linguagem deve ser progressiva ao desenvolvimento da criança, de modo que com o passar do tempo pode-se fazer uso de termos e explicações mais científicas e detalhadas.

A título de informação, estatisticamente sabe-se que a ordem cronológica das curiosidades sexuais infantis é: entre 2 e 3 anos questionam sobre a origem dos bebês e as diferenças entre os sexos; dos 3 aos 4 anos, passam a se interessar pelos fatos relacionados ao nascimento e a partir daí se interessam em como se dá a reprodução humana. No entanto, esta é apenas de uma estimativa, não constituindo uma regra absoluta.

Cabe destacar também que, neste momento, os pais devem entrar em consenso quanto às informações repassadas, utilizando-se do mesmo discurso. Além disso, o uso de recursos lúdicos como imagens, desenhos, livros educativos, metáforas e bonecos também facilitam a compreensão da criança. Porém, é mister ressaltar o papel acessório dos livros educativos: eles não substituem as informações pessoais, cálidas e afetivas dos pais. O mesmo vale para a escola, cuja orientação apenas complementa a educação sexual iniciada no lar, não excluindo a responsabilidade dos pais nesta tarefa.

Outro ponto a ser considerado diz respeito às mudanças nas configurações familiares. Com a formação de famílias homossexuais e também monoparentais, é importante que os pais também eduquem seus filhos quanto a isso, sem juízo de valor. Caso haja teor preconceituoso nas explicações, a criança poderá reproduzir o padrão comportamental [1] dos pais, que pode culminar em práticas interpessoais negativas, como bullying [2], além de outros problemas que virão posteriormente, à proporção do seu crescimento.

Quanto ao manejo de práticas masturbatórias infantis, é importante que os pais as concebam como um acontecimento normal e fisiológico. A auto-estimulação só deverá ser preocupante quando a frequência passar a interferir a vida social ou acadêmica da criança. Um exemplo disso é quando ela, ao invés de se engajar em outras atividades prazerosas (como brincar com colegas), isola-se para se manipular. Neste caso, cabe a avaliação da sua rotina, se está havendo escassez de fontes de prazer, se ela tem atividades suficientes para se entreter e gastar energia ou se a criança está ansiosa. Outras hipóteses a serem consideradas são a busca de repercussões ambientais em torno do fato [3] e a exposição a situações de abuso sexual.

Uma possível abordagem dos pais seria ensinar a criança que algumas partes do corpo são públicas, que todos veem por estarem expostas (como braços, pernas, cabeça, mãos e pés), que por isso podem ser tocadas por ela mesma ou outra pessoa próxima. E que, do contrário, existem as partes privadas ou íntimas, que ficam cobertas por cuecas ou calcinhas e que, por isso, só podem ser tocadas por ela mesma – em um canto só dela – ou pelos pais, durante higienização das mesmas. Neste caso, podem também ensiná-las quanto aos diferentes toques em seu corpo. Dessa forma, além de abordar a masturbação, a criança também é alertada quanto à proibição de manipulação genital em certos contextos e por pessoas inadequadas, prevenindo submissão ao abuso sexual.

Quanto a jogos sexuais infantis (ocorrência de contatos, manipulações e tentativas de coito praticadas entre duas crianças), algumas observações devem ser feitas. Estes decorrem de um impulso na descoberta das diferenças sexuais anatômicas (no caso de sexos diferentes) ou busca de novas sensações corporais (entre sexos iguais). Assim como na masturbação, são as circunstâncias e a frequência de tais episódios que caracterizarão o caráter “patológico” dos mesmos. Conforme anteriormente recomendado, é fundamental que os cuidadores concebam a naturalidade dos fatos, até porque com o despreparo fisiológico e anatômico das estruturas genitais infantis, o próprio episódio tenderá ao fracasso, sendo incorporado ao acervo vivencial da criança como mais uma das preparações para a vida adulta.

Como se pode constatar, a orientação sexual infantil necessita de habilidades específicas dos pais: conhecimento, atenção, paciência, criatividade, autocontrole emocional, tolerância quanto à idiossincrasia dos prazeres sexuais, auto-avaliação e, sobretudo, um bom manejo quanto à sua própria sexualidade. Assim, se os pais não se considerarem aptos nesta tarefa, recomenda-se o auxílio de outros profissionais, como psicólogo, pediatra ou professor, que, embora não substituam o papel parental, ao menos podem orientá-los para uma melhor educação da criança e, consequentemente, melhor desenvolvimento sexual nesta fase e também nas posteriores.

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[1] Como estabelece o referencial da aprendizagem social de Bandura (1977), existem três condições básicas para que haja probabilidade de reprodução do comportamento (modelação) por uma criança: (1) quando o modelo é uma figura de poder e de autoridade, (2) quando o comportamento executado por ele é mais reforçado que punido, (3) e quando o modelo e a criança compartilham características similares, havendo identificação da criança com aquele. Cabe destacar que os pais são os modelos de referência para os filhos, seguidos dos professores.

[2] Para aprofundamento do tema, consulte o texto “Bullying: O que é e o que podemos fazer” aqui no blog.

[3] Em privação de reforçadores (ou quando estes não são tidos como suficientes), como atenção dos pais, a criança pode buscar meios alternativos de obtê-la, como efetuando algum comportamento inadequado.

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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
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