Como desenvolver hábitos de estudo?


Estudar é um dos hábitos mais valorizados nas famílias hoje em dia. A ele está associada a possibilidade de um emprego melhor, de obter êxito na carreira, de acumular conhecimento e de se posicionar criticamente perante o mundo. Porém, os resultados mais significativos do estudo são obtidos apenas a longo prazo e, por isso, muitas vezes é difícil manter-se motivado para tal atividade. Para conseguir fazê-lo, devemos ser disciplinados, persistentes e organizados desde cedo. Este artigo tem como objetivo orientar os leitores quanto ao desenvolvimento de hábitos de estudo, seja para si mesmo ou na educação de crianças e adolescentes.


Antes mesmo da admissão escolar a criança já é ensinada em casa a reproduzir uma série de comportamentos, como sentar-se, pegar no lápis, rabiscar em um papel, fazer cópia de vogais, entre outros. Nesses momentos, já estão sendo treinadas as habilidades acadêmicas. Em termos analítico-comportamentais [1], “estudar” abrange uma classe de respostas que envolve organizar material de estudo, sentar-se, folhear o material acadêmico, fazer a lição (ou resolver questões de concurso), ler um texto ou livro, responder perguntas, entre outras. Dessa forma, uma pessoa que apresenta hábitos de estudo adequados emite diversos comportamentos desta classe e, geralmente, seu desempenho acadêmico é atingido devido ao engajamento nas tarefas de estudo.


“Hábitos inadequados de estudo” é uma expressão, portanto, que se refere à não ocorrência de muitos dos comportamentos da classe “estudar” e à realização de comportamentos que evitam e/ou procrastinam a realização de atividades acadêmicas. Assim, tem-se a dispersão em vários aspectos: olhar em outras direções que não o material pedagógico (pessoas, teto, celular), movimentos de esquiva e fuga, que afastam o sujeito da tarefa (levantar, ir ao banheiro, cochilar, comer); além de verbalizações dispersivas (cantar, conversar com alguém sobre outros assuntos). Esses comportamentos de fuga decorrem de situações diversas, que devem ser controladas para melhor desempenho na tarefa.


Analisando funcionalmente os comportamentos relacionados ao não-estudo, Pergher et al (2012) [2] apontam uma série de hipóteses quanto a contextos que antecedem estes comportamentos, como a falha no controle de estímulos do ambiente de estudo (a inexistência de ambiente apropriado ao estudo, com iluminação inadequada ou com variados estímulos visuais, sociais e auditivos, horários flutuantes para o estudo, desorganização do material, inexistência de uma rotina para tal, entre outros). Tais condições antecedentes são os contextos que facilitam o comportamento difuso na hora de estudar.


As falhas no comportamento de estudar também são aprendidas. Nesse caso, é possível que a escola e os pais não tenham se dedicado adequadamente à orientação de comportamentos pró-estudo, como horários de tarefas no ambiente doméstico, técnicas para otimizar a concentração e atenção, entre outros. Muitas vezes, tais falhas decorrem de crenças de educadores e pais de que é necessário esperar o tempo de despertar do aluno para o estudo, ao invés de estimular e treinar respostas envolvidas na atividade. Cabe ressaltar que os serviços de orientação escolar psicopedagógica são extremamente importantes nesse sentido, pois podem informar, desenvolver técnicas e acompanhar o acadêmico em prol de uma melhor qualidade de aprendizagem e otimização dos estudos.


Outro fato a ser considerado é a rotina extraclasse, muito comum na adolescência, que algumas vezes pode concorrer com os estudos. Por exemplo, as atividades extras às vezes são mais atrativas que a própria rotina de estudo em casa, pois envolvem o contato social, muito prazeroso nessa faixa etária, além do acesso a outros conhecimentos que não se tem em sala de aula. Todo esse contexto de excesso de atividades (como natação, curso de línguas, informática) pode reduzir o tempo disponível para o estudo e, por envolverem a sensação imediata de prazer, felicidade, podem ser mais atrativas que os estudos em casa, muitas vezes pareado com a “obrigação” comumente enfatizadas na sociedade. Com essa associação, o estudo tende a ser vivenciado como algo chato, rotineiro, que necessita de engajamento para evitar punições, o que favorece sentimentos como ansiedade, raiva ou alívio.


No que tange a outros estímulos que concorrem com o hábito de estudar, tem-se equipamentos eletrônicos (videogames, celular, tablet) e a navegação online, que passa sobretudo por comunicação em redes sociais e chats. É importante que existam regras claras quanto ao uso destes recursos, pois são estímulos que podem concorrer com a modalidade tradicional de estudos, que muitas vezes está disposta em materiais pedagógicos menos atrativos, ou até mesmo obsoletos em alguns casos. Como a comunidade valoriza tais recursos e também pelo fato de que há satisfação imediata em contato com tais tecnologias, favorece mais o engajamento nessas atividades, em detrimento dos estudos.


Abordando outros fatores que interferem negativamente na aquisição e manutenção do repertório de estudo, observa-se a exigência dos pais quanto a desempenhos acadêmicos superiores ao que os filhos apresentam, verbalizando que estes são incompetentes e favorecendo a formação de um autoconceito negativo quanto às suas capacidades acadêmicas. Não menos danoso, também é possível que não haja consequências prazerosas diante das respostas de estudar, o que diminui a motivação dos estudantes para tais atividades. Um exemplo disso é a abordagem do boletim dos filhos. Em algumas famílias, os pais elogiam as chamadas “notas azuis”, sem distinção quanto a valores. No entanto, outros podem selecionar a atenção apenas para as ditas “notas vermelhas” e reclamar, colocar de castigo ou mesmo abusar da autoridade para coagir e punir corporalmente o mau desempenho, desconsiderando a existência das notas boas.


O caso se torna ainda mais grave quando, diante de bom desempenho, os pais dizem que aquilo “não foi mais que a obrigação do filho”. Este exemplo ilustra um contexto em que o comportamento adequado teve uma consequência aversiva. Como resultados, pode-se obter desmotivação, aumento da ansiedade diante das atividades acadêmicas, ou mesmo supressão do envolvimento nos estudos, o que é contrário à “obrigação” que os pais desejam que os filhos tenham.


Outra questão a ser considerada é a criação de situações de pressão e punição por parte de pais e professores. Desqualificar um aluno em função de seu baixo desempenho acadêmico, aplicar punição e/ou brigar com ele quando ele comete algum erro são exemplos destas situações. Elas podem gerar diversos sentimentos nos jovens estudantes, como raiva, sentimento de injustiça, além da formação de autoconceitos negativos. Muitas vezes, como resultado disso, as outras atividades com os pares, às vezes disruptivas, se tornam mais interessantes para o jovem, aumentando o risco de evasão escolar, envolvimento com drogas, agressões, entre outros.


Além disso, a realização das tarefas de casa também constitui um âmbito a ser discutido. Diante das dificuldades próprias do processo de aprendizagem, para evitarem conflitos ou para diminuírem o tempo despendido e desgaste, muitos pais oferecem respostas prontas, fazendo a tarefa pelas crianças. Diante disso, a aprendizagem será prejudicada, pois o aluno não aprendeu a desenvolver o raciocínio diante da questão de forma adequada. Além disso, torna-se muito provável que a criança recorra novamente a outras pessoas diante de suas dificuldades, eximindo-se de exercitar o próprio aprendizado e aprender a resolver a tarefa. Outro risco é a dependência, que ocorrem quando os jovens passam a estudar apenas na presença (ou com ajuda) dos pais.


Diante desse contexto, os jovens comumente são encaminhados para o consultório psicológico. Nesse escopo, muitas são as intervenções possíveis na terapia analítico-comportamental: treinamento de agentes educativos e professores, orientação de pais e professores para motivarem adequadamente comportamentos pró-estudo; a contratação de alunos com bom repertório de estudo (tutores) para fornecer modelo de comportamento pró-estudo ao paciente, além da orientação individual, no caso de jovens adultos, e acompanhante terapêutico (psicólogos que atuam no ambiente extraconsultório para favorecer a aquisição e manutenção de comportamentos).


Cada caso envolvendo dificuldades nos estudos deve ser considerado individualmente. Porém, algumas dicas são válidas. A primeira delas é a preparação do ambiente, que deve ter o mínimo de estímulos visuais (como computador, adesivos e pôsteres na parede e outros distratores) e auditivos, além de iluminação e temperatura adequadas, existência de mesa ampla (o suficiente para manipulação do material de estudo) e cadeira adequada. O ideal é que esse local seja fixo para esta atividade, sem interrupções sociais. A organização do material de estudo também se faz necessária: dispor de todo o material necessário, organizado. Porém, excessos não são adequados, pois podem desencadear ansiedade e favorecer a dispersão.


O estabelecimento de prioridades se faz necessário, cujos critérios podem ser a proximidade da avaliação, a quantidade de páginas, a dificuldade em cada disciplina, a nota que será necessário atingir, entre outros. Orienta-se que, para evitar a probabilidade de desistência diante da atividade, o estudante possa começar com tarefas que ele já sabe, aumentando gradativamente a exigência. Recomenda-se que a cada conclusão de tarefas ou após 50 minutos ou 1 hora seja dada uma pausa breve, como um momento de lazer ou prazer. Esta situação é interessante sobretudo quando se trata de crianças, pois pode ser usada como recompensa pelo esforço despendido.


Para deixar o estudo mais satisfatório, é mister associar o estudo a momentos agradáveis. Por exemplo, no caso de crianças, os pais podem utilizar de humor, fazer comentários engraçados sobre os conteúdos e desafiar o infante de forma divertida (“Quero ver se você sabe disso aqui!”) e usar a imaginação para facilitar a memorização do conteúdo são algumas medidas simples que tornam a tarefa tão agradável quanto uma brincadeira. Não esqueça de apresentar consequências incentivadoras diante de um bom desempenho da criança, e, diante da dificuldade, ensine, mas não faça a tarefa por ela. E, ao término de todas as atividades, proporcione um bom momento de lazer para você ou para a criança/ adolescente. Afinal, é o que é merecido após um esforço bem executado.
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[1] A Análise do Comportamento é uma abordagem da Psicologia calcada na filosofia do Behaviorismo Radical de B. F. Skinner. É uma das forças da Psicologia, juntamente com Psicanálise e Humanismo. A aplicação desses conhecimentos na clínica é denominada Análise Comportamental Clínica ou Terapia analítico-comportamental. Todos os textos escritos nessa coluna são baseados nessa abordagem.


[2] Pergher, N.K. et al (2012). Desenvolvimento de hábitos de estudo. In: Borges, N.B.; Cassas, F.A. (orgs) Clínica analítico-comportamental. Aspectos teóricos e práticos. Porto alegre: Artmed.
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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
Telefone - (61) 3242-1153

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