Adoção: quando e como contar?

Imagine que há algo sobre sua vida que todos sabem, menos você. É algo que poderia mudar sua vida, que poderia revelar mais sobre você, a peça que faltava para melhor compreender a sua própria história. Este fato, assemelhado a um roteiro cinematográfico, é o drama de crianças cujos pais adotivos ainda não lhe revelaram suas origens. É muito comum os pais apresentarem dúvidas sobre qual seria o melhor momento para conversar sobre a adoção e também como fazê-lo. É sobre isso que falaremos neste texto.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) estabelece que toda criança e adolescente tem direito a ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta, sob condições biopsicossociais adequadas ao seu pleno desenvolvimento. Acrescenta ainda que a colocação em família substituta se dará por meio da adoção, guarda ou tutela, atendendo aos critérios estabelecidos na Lei.
A entrega da criança pode ser motivada por inúmeras razões, sejam elas de âmbito emocional (alguns exemplos são o desinteresse no exercício da maternidade, os agravos à saúde física e/ou mental, como depressão pós-parto ou drogadição) ou estrutural (ausência de suporte conjugal e/ou familiar, social ou econômico). Sob diversas formas, também, a criança vai ao encontro dos adotantes: através da entrega a abrigos ou a pessoas da confiança da genitora [1], da negligência, da destituição do poder familiar ou pelo abandono em locais públicos.
Ao passo disso, a escolha pela adoção pode assumir vários significados, como livrar-se da frustração biológica e da pressão social de não poder gerar filhos, completar a família, unir o casal, exercer a maternidade/ paternidade (sobretudo em casos homossexuais) ou comportar-se consoante valores como empatia e solidariedade.
Ao descrever este contexto, busca-se identificar as variáveis que atuam e que controlam o comportamento de não conversar sobre a adoção. As dificuldades relacionadas à adoção perpassam pela forma como o casal concebe e lida com ela. Aqueles que a entendem como algo natural, que lidam de forma adaptativa com as frustrações em torno da esterilidade ou infertilidade ou mesmo que acreditam que a revelação não será a única causadora de um suposto abandono de seu filho são os que tendem a proceder de forma adequada na revelação da adoção.
Pesquisas recentes (Weber, 2011 [2]) destacaram as situações que podem trazer dificuldades: revelação tardia (após os seis anos de idade) e/ou inadequada (realizada por terceiros e não pelos pais adotivos), tratamento diferenciado dos pais em relação ao filho por adoção e o filho genético, e vivência de discriminações diretas ou veladas na comunidade ou na escola.
Por sua vez, as situações que favorecem o relacionamento das famílias por adoção são a preparação antecipada dos adotantes (tanto emocional quanto comportamental), a revelação precoce da adoção, o diálogo aberto sobre a adoção e a história do filho em diferentes etapas do seu desenvolvimento, o respeito ao filho e o colocar-se à disposição caso ele deseje saber mais informações sobre a família de origem, falar do tema com tranquilidade e sentir-se confortável perante estranhos, além do desenvolvimento de habilidades parentais e práticas educativas que proporcionem o pleno desenvolvimento infanto-juvenil (não superproteger, por exemplo).
Mas afinal, se a revelação precoce da adoção é um fator de proteção ao desenvolvimento infanto-juvenil, quando e como fazê-lo?
Primeiramente, cabe destacar que à medida que a criança vai se desenvolvendo, ela vai demonstrando interesse quanto à origem da vida, geralmente entre três e seis anos. No entanto, crianças podem ser preparadas quanto à adoção antes mesmo de completarem três anos de idade, aumentando a complexidade dos detalhes e da linguagem paulatinamente.
Cabe destacar que, na primeira conversa, é importante se ater a alguns detalhes essenciais, como o autocontrole emocional, visto que essa conversa pode eliciar emoções nos pais. Expressões faciais indicativas de desconforto, medo ou ansiedade poderão interferir na compreensão da criança quanto ao que é falado. Antes dos três anos, a criança entende tons de voz que indicam emoções antes mesmo de compreender o conteúdo. Assim, os pais devem buscar o controle emocional para que a criança associe a adoção como uma situação positiva e com a qual seus cuidadores ficam alegres e orgulhosos em contar.
Antes dos três anos, como as crianças não entendem direito questões sobre nascimento, adoção e diferentes famílias, expressões de afeto (verbais e não verbais) são válidas para que o apego e uma relação de confiança e segurança sejam estabelecidas, preparando a criança para outra etapa da revelação.
Já entre três e seis anos, é comum as crianças questionarem sobre sexualidade, sobre como nascem os bebês, de onde ela veio, entre outros fatores. Diante desses perguntas, os pais podem questionar o por quê do interesse (para avaliarem o grau de conhecimento sobre a questão ou verificarem possibilidade de alguém já ter indicado a adoção), sobre como acha que ocorre e, em seguida, responder francamente o modo como acontece. No entanto, pode acontecer também de ela não questionar aos pais sobre sua origem, motivo pelo qual se recomenda que as conversas sobre adoção tenham iniciativa dos pais gradualmente e o quanto antes.
Nessa faixa etária, pelo nível de desenvolvimento cognitivo que a criança apresenta é possível que ela compreenda o mecanismo de reprodução e adoção, e para tanto pais podem especificar estas questões, sem delongas ou detalhes líricos. Pode-se dizer que os bebês são feitos por um homem e uma mulher, ficando em um local chamado útero, na barriga da mulher, mas que existem mulheres que tem problemas que impedem que os bebês sejam gerados, precisando que o bebê cresça em outra barriga para que seja cuidado por quem não pode ter filho.
Caso a criança demonstre curiosidade em verificar se ela nasceu de sua barriga, basta afirmar e relatar toda a história, omitindo detalhes irrelevantes para a compreensão dela, sobretudo quando esses detalhes se referirem a exposição a situações de risco (como negligência, abandono em local público, entre outros). Sentimentos ou percepções dos pais em relação aos genitores da criança também devem ser omitidos, pois deve-se lembrar sempre que a família biológica é a única referência histórica do filho adotivo, fato que levará consigo por toda a sua existência. Cabe também demonstrar empatia caso o infante verbalize que gostaria de ter nascido da barriga da mãe adotiva: diga-lhe o quanto você também gostaria, o quanto foi desejado e esperado e o quão felizes os pais ficaram em tê-lo nos braços no dia do encontro.
Outra questão a ser esclarecida é o fato de que será necessário abordar o assunto mais de uma vez É natural que a criança relembre e pergunte, manifestando interesse em tirar dúvidas ou buscar conhecer mais detalhes de sua história. Recomenda-se a abordagem desde sempre e repetidamente ao longo do tempo, pois conforme o seu desenvolvimento físico e cognitivo, a criança passa a compreender de modo mais profundo a questão.
Entre sete e doze anos, por sua vez, está em uma faixa etária na qual metáforas como “filho do coração” não são mais suficientes, pois as crianças conseguem compreender com mais profundidade os conceitos que cercam a adoção. Nesse momento, é possível lançar mão de recursos como livros e vídeos [3]. Com a maior compreensão da criança, também pode haver maior desconforto dos pais quanto à abordagem do tema. Evitar questões ou dar respostas confusas pode deixar transparecer o quão embaraçoso e aversivo é o tema para os pais, fazendo com que, a um significativo sofrimento, tais conversas sejam evitadas pelo filho adotivo, o que é prejudicial a seu processo de adaptação à adoção.
Na adolescência, os filhos podem fantasiar sobre a origem dos pais biológicos, desejar mais detalhes, entrar em contato com eles ou apenas conversar sobre isso e tecer suposições acerca dos fatos. Nesse momento, a companhia dos pais é importante, pois nessa fase do desenvolvimento existe uma série de fatores biológicos que provocam sensações diversas, assim como há a busca incessante pela identidade. E nesse momento, nada mais natural que buscar referências passadas para conhecer a si mesmo e formular uma identidade.
O desejo do filho de conhecer os pais biológicos é outro fato temido pelos pais adotivos. Porém, não necessariamente implica em perda ou abandono, desgaste dos vínculos afetivos, desobediência do filho ou possibilidade de reversão da adoção. Ainda que um encontro entre pais biológicos e criança possa desencadear arrependimento naqueles e um desejo de maior contato, não se pode esquecer de que, uma vez deferida, a adoção é para sempre, sendo irrevogável.
Percebe-se que as maneiras de lidar com a adoção vem mudando com o passar do tempo, sendo praticamente inconcebível atualmente a revelação tardia. Pesquisas tem revelado os efeitos nefastos ao desenvolvimento psicossocial de crianças que souberam de suas origens por outrem, tardiamente ou de modo inadequado. É algo que é necessária uma atenção especial e um preparo emocional dos pais. Dúvidas muitas vezes são mais devastadoras que o pior das verdades e a preparação gradual, por amortecer danos, ainda é a melhor solução.
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[1] Cabe destacar que essa modalidade de entrega, chamada de “adoção à brasileira”, é um dos crimes contra o estado de filiação, previsto no Art. 242 do Código Penal. Assim, é crime: dar parto alheio como próprio, registrar como seu o filho de outrem, ocultar recém-nascido ou substituí-lo, suprimindo ou alterando direito inerente de estado civil, com pena de reclusão de 2 (dois) a 6 (seis) anos.
[2] Weber, L.N.D. (2011). Adote com carinho: um manual sobre aspectos essenciais da adoção. Curitiba: Juruá Editora.
[3] A título de curiosidade, livros diversos sobre adoção estão disponíveis nas livrarias, desde histórias clássicas como Pinóquio como livros escritos por psicólogos e profissionais da educação. As editoras Juruá, Salamandra, Paulinas, e Callis possuem itens interessantes que podem ajudar. Filmes como “Tarzan”, “Pinóquio”, “O Pequeno Stuart Little” e “Juno” (este para adolescentes) podem facilitar a discussão em casa.
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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
Telefone - (61) 3242-1153

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