Amor Materno e Amor Paterno

Conforme citei no artigo anterior desta coluna, o amor materno é considerado, de forma inapropriada, como sendo um comportamento/sentimento típico de mulheres, que se manifesta de imediato quando elas são expostas a condições apropriadas de maternagem. Análises científicas indicam que o amor das mães por seus filhos desenvolve-se no processo de interação entre esses pares, sendo fortemente influenciado por aspectos culturais. Isto não quer dizer que não existam componentes característicos da espécie humana, os quais são transmitidos por herança genética, como pode ser observado em outras espécies animais.
 Por outro lado, o amor paterno é analisado com menor freqüência e, mesmo do ponto de vista poético, parece ocorrer somente quando o homem é seduzido ou cativado por seu filho. Para mostrar esse tipo de visão reproduzo, a seguir, um texto que recebi pela Internet, cujo autor é desconhecido, e que adaptei para adequar a tradução à maneira como falamos em nossa região.
Papai... Quanto me amas?
No dia em que nasceu a nossa filha, meu marido não ficou muito feliz porque a decepção que sentia parecia ser maior que a alegria de ter uma filha.
- Ah!!! Eu queria um filho homem!!!! Lamentava meu marido.
Mas, em poucos meses, ele deixou-se cativar pelo sorriso de nossa linda Carmenzita e pela infinita inocência de seu olhar fixo e penetrante. Foi então que ele começou a amá-la intensamente.
Seu rostinho, seu sorriso, sua ternura não o desprendiam mais dela. Ele fazia planos e mais planos. Tudo seria para nossa Carmenzita.
Numa tarde, estávamos reunidos em família, quando Carmenzita perguntou a ele:
- Pai, quando eu completar 15 anos, qual será meu presente?
Ele lhe respondeu:
- Meu amor, você tem apenas 7 aninhos, não parece que falta muito tempo para essa data?
Respondeu Carmenzita:
- Pai,... você sempre diz que o tempo passa voando!
Carmenzita já tinha 14 anos e preenchia de alegria nossa casa e, em especial, o coração de seu pai. Num domingo, quando fomos à igreja, Carmenzita tropeçou. Seu pai agarroua imediatamente para que ela não caísse. Já sentados, no banco da igreja, vimos Carmenzita desfalecendo lentamente e quase perder a consciência. Nós a levamos imediatamente para o hospital. Ela permaneceu internada por 10 dias, pois ela tinha uma enfermidade cardíaca grave. Os dias foram passando e o pai de Carmenzita renunciou ao seu trabalho para ficar ao lado da filha. Todavia, eu, sua mãe, decidi trabalhar, pois não suportava ver Carmenzita sofrendo tanto.
Numa manhã, ainda na cama, Carmenzita perguntou a seu pai:
-Papai, os médicos disseram a você que eu vou morrer?
Ele respondeu:
 
- Não meu amor... Você não vai morrer, Deus é grande. Ele não permitiria que eu perdesse o que mais tenho amado neste mundo.
Perguntou Carmenzita:
- Quando a gente morre vai para o céu? A gente pode ver, lá de cima, nossa família? Um dia, a gente pode voltar?
- Bem filha... Na verdade, ninguém voltou de lá e contou algo sobre isso. Porém, se eu morrer, não deixarei você só, onde eu estiver, encontrarei uma maneira de me comunicar e, em última instância, utilizarei o vento para lhe ver.
- O vento? E como você faria isso?
- Não tenho a menor idéia filhinha, só sei que se algum dia eu morrer, você sentirá que estou bem pertinho quando um suave vento roçar seu rosto e uma brisa fresca beijar a sua face.
Mais tarde, neste dia, fomos informados pelos médicos de que nossa Carmenzita necessitava de um transplante de coração, caso contrário, ela só teria mais 20 dias de vida.
- Um coração! Onde conseguir um coração? Um coração! Onde, Deus meu?
Neste mesmo mês, Carmenzita completaria seus 15 anos. E foi numa sexta-feira à tarde que conseguiram um doador. Ela foi operada e tudo saiu bem.
Carmenzita permaneceu no hospital por mais 2 semanas e em nenhuma vez, depois da cirurgia, seu pai foi visitá-la. Depois disso, os médicos lhe deram alta e ela foi para casa.
Ao chegar em casa, Carmenzita muito ansiosa gritou:
- Papai! Papai!... Onde você está?
Eu saí do quarto com os olhos molhados de lágrimas e disse-lhe:
- Aqui está uma carta seu pai deixou para você.
Na carta estava escrito:
Carmenzita, filhinha do meu coração, no momento em que você ler a minha carta, já terá completado 15 anos e terá um coração forte batendo em seu peito. Essa foi a promessa que me fizeram os médicos que te operaram. Você não pode imaginar, nem de longe, o quanto lamento não estar ao seu lado agora. Quando eu soube que você poderia morrer, decidi dar-lhe o presente mais bonito. Um presente que ninguém jamais daria a você...
Eu lhe dei toda a minha vida, sem nenhuma condição, para que faça com ela o que quiser. Viva filha! Amo você com todo meu coração!!
Carmenzita chorou por todo o dia e toda a noite. No dia seguinte, foi ao cemitério e sentou-se sobre a tumba de seu pai e chorou tanto, como ninguém poderia chorar.

E sussurrou:
Pai, agora posso compreender o quanto você me amava. Eu também o amava, mesmo que nunca tenha dito. Só agora compreendo a importância de dizer que o amo e peço-lhe perdão por não ter dito antes.
Neste instante, as copas das árvores balançaram suavemente, caíram algumas folhas e flores e uma suave brisa roçou a face de Carmenzita. Ela, então, olhou para o céu, enxugou as lágrimas de seu rosto, levantou-se e voltou para casa.
Este texto descreve uma situação do tipo em que a filhinha seduziu o pai com sua meiguice, apesar de ele ter-se decepcionado com o nascimento de uma menina. Este aspecto mostra que o amor paterno, assim como o materno, desenvolve-se na interação entre pais e filhos, e pode crescer tanto, a ponto do pai sacrificar a própria vida para que seu filho ou sua filha viva. Sacrificar-se a esse extremo pela sobrevivência dos filhos já aconteceu muitas vezes em situações extremas, mas devo salientar que o texto é uma ficção, pois não se pode doar um órgão vital, como o coração, em vida. Isto só pode ser feito quando um a pessoa tem morte cerebral, portanto, não pode ser uma opção pessoal.
Professora da Universidade Estadual de Londrina
Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo

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