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Como lidar com o comportamento inadequado das crianças?


As crianças demandam muito dos adultos, desde o nascimento. À medida que vão aprendendo a discriminar seu ambiente, identificar possibilidades de reforço ou não, seu comportamento é modelado de acordo com esse contexto e as demandas são ainda mais complexas.
Há o equívoco de que as crianças não entendem o modo como os adultos se comportam e a partir dessa ideia surgem outros equívocos na forma como os adultos lidam com o comportamento das crianças. Por que o comportamento da criança varia tanto? Isto acontece porque as consequências para os seus comportamentos também variam.

O Uso do Controle Coercitivo na Infância e o Desenvolvimento de Comportamentos Antissociais na Adolescência


O tipo de controle que uma determinada família lança mão para educação dos filhos – focando-se aqui, especialmente, no papel educacional dos pais (ou cuidadores) – em muito irá influenciar para o desenvolvimento de comportamentos socialmente adequados ou inadequados. Apesar de nem todos os comportamentos socialmente inadequados serem considerados antissociais, quando se fala em comportamentos socialmente inadequados, pode-se incluir nesse conceito os chamados comportamentos antissociais (WEBER, SALVADOR & BRANDENBURG, 2005).

Como aumentar a probabilidade da obediência e respostas novas

Texto de Monalisa Ribeiro

Quem nunca se queixou de um aluno(a) desobediente? Aquele que geralmente não segue as regras e muito menos cumpre com um pedido ou demanda em sala de aula?
Acredito que esse assunto possa ser de grande interesse para pais e, principalmente, para os profissionais que lidam com alunos que não cumprem com regras e demandas, que tentam escapar das atividades mais difíceis ou, simplesmente, não estão motivados o suficiente para cumprir com uma tarefa mais elaborada.
Afinal, qual é o prejuízo do aluno não cumprir com demandas acadêmicas?
A idéia de abordar esse assunto na minha estreia como colunista do blog se iniciou com uma mera busca de dados no meu laptop que, acidentalmente, me direcionou à minha tese de mestrado, defendida em 2012. Embora eu tenha utilizado essa estratégia de controle antecedente para induzir a imitação de movimentos de coordenação oro-faciais em crianças diagnosticadas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), a mesma pode ser aplicada como uma estratégia (de controle antecedente) para aumentar a probabilidade de emissão de diferentes respostas, em vários contextos .
O artigo de hoje focará numa estratégia comportamental chamada Seqüência de demandas de alta probabilidade ou “behavior momentum”. Essa técnica é muito prática e pode ser utilizada em salas de aula para INDUZIR respostas e maximizar o desempenho acadêmico dos alunos. O aluno que não segue as normas e/ou demandas acadêmicas em uma sala de aula, provavelmente terá um prejuízo cognitivo e acadêmico no futuro. Portanto, essa estratégia é um ótimo método para ser aplicado nesse ambiente.
Momentum comportamental é uma estratégia para aumentar a probabilidade de ocorrência de uma resposta (comportamento) que tenha baixa probabilidade de ocorrência. Ou seja, é uma estratégia que aumenta a frequência de uma resposta que não ocorre frequentemente.
Essa técnica consiste na apresentação de três (3) a cinco (5) demandas de atividades (em sequência) em que o indivíduo tenha alta probabilidade de cumprir (atividades fáceis), para depois apresentar a demanda da atividade alvo (atividade de baixa probabilidade). A atividade alvo é a atividade que você deseja induzir. Essa atividade é considerada de baixa probabilidade porque não ocorre frequentemente e, por isso, ela se torna a atividade alvo.
Por exemplo, se um dos meus alunos não gosta ou se recusa a fazer operações de multiplicação, esta tarefa poderia ser considerada uma resposta de baixa probabilidade (baixa-p), pois o aluno não gosta de fazer, nunca quer fazer, ou não está motivado o suficiente. Porém, se esse mesmo aluno nunca me deu trabalho para tirar o material da mochila, escrever a data e nome na folha de exercícios, escrever números, e copiar as operações de multiplicação da lousa, tais comportamentos se classificariam como comportamentos de alta probabilidade (alta-p). Ao final, a multiplicação (tarefa de baixa-p) seria apresentada, mas com uma maior probabilidade de ser resolvida pelo aluno. No Quadro 1, pode ser visualizado um esquema do exemplo apresentado.
Quadro 1. Exemplo de atividades de alta-p e de baixa-p envolvendo a multiplicação.
Atividades de alta probabilidade (alta-p)          (fáceis de cumprir)Atividade de baixa probabilidade (baixa-p) (difícil de cumprir)
Retirar o material da mochilaFazer operações de multiplicação
Escrever data e nome na folha de exercício
Escrever os números
Copiar as operações de multiplicação da lousa

Mace et al. (1988) foram os primeiros autores a publicarem um estudo com essa técnica. Segundo os seus estudos e experimentos, após o estudante seguir uma série de demandas de alta probabilidade, estabelece-se o “momento” no qual a resposta de baixa probabilidade tem chances aumentadas de ser emitida.
Mace et al. (1988), sugerem que esse fenômeno pode ser explicado a partir do conceito de operação abolidora. O momentum comportamental pode, assim, ser entendido como uma operação que diminui a valor reforçador da resposta de esquiva da atividade. Depois de cada demanda de probabilidade alta, sempre há elogios, e por isso, o valor de não cumprir com a demanda da atividade alvo diminui. Em outras palavras, Segundo Mace et al. (1988) cumprimos, fazemos, ou completamos uma atividade de baixa probabilidade porque já nos “aquecemos” com as atividades fáceis (alta-p), e como agora já estamos no “embalo”, cumprimos com a atividade de baixa probabilidade (baixa-p).
No Quadro 2, descreve-se os passos para aplicação da técnica de momentum comportamental.
Quadro 2. Guia para usar o procedimento corretamente.
Passo # 1

Selecionar os comportamentos de probabilidade alta
–       Esses comportamentos têm que existir no repertório atual do cliente, serem frequentes e de curta duração.
–       Fazer uma lista das atividades que são cumpridas 100% das vezes que foram demandadas.
Passo # 2Apresentar as demandas rapidamente
–       As demandas devem ser apresentadas rapidamente uma atrás da outra, com um intervalo curto entre elas.
–       Devem ser apresentadas de 3 a 5 demandas de atividades de probabilidade alta.
–       Depois de cada demanda de probabilidade alta, disponibiliza-se um elogio.
Passo #3Demanda alvo (baixa probabilidade)
– Apresentar a demanda da atividade de baixa probabilidade.
Passo # 4Reforçar imediatamente se o paciente (aluno) cumprir com a demanda alvo.

Cumprir com demandas em sala de aula promove oportunidades de desenvolvimento de muitos comportamentos. Essa estratégia é um procedimento não aversivo para melhorar a obediência. Esse procedimento, indiretamente, manipula a frequência de reforço para estabelecer o que chamamos de “momento”.
Estudos mostram que essa intervenção é efetiva em mudar o comportamento das pessoas, como adquirir ecóicos e mandos, aumentar a frequência de cumprimento de atividades e diminuir a frequência de autolesões.
Quadro 3. Apresenta-se um resumo de experimentos que utilizaram a estratégia Momentum comportamental  (sequência de demandas de alta probabilidade) em vários contextos.
Atividade AlvoMotivo do estudoParticipantesAutores
Imitação oral motoraPré-requisito para falaCrianças diagnosticadas com TEAThomas, Lafasakis e Sturney (2010)
Desobediência (não cumprir com demandas)Diminuir desobediência e comportamento agressivoAdulto de 36 anos com deficiência mentalMace et al (1988)
AutolesãoDiminuir ou eliminar a autolesãoAdulto de 33 anos com deficiência mentalZarcone, Iwata, Hughes e Vollmer (1993)
Atividades acadêmicasCumprir com demandas acadêmicas (tarefa de matemática)Aluno do Ensino FundamentalWehby e Hollaham (2000)
Imitação motoraEmissão de ecoicos e mandosCrianças com TEA não verbaisTsiouri e Greer (2003)

Essa estratégia pode ser aplicada em vários contextos, e geralmente, as atividades, tarefas ou ações escolhidas como “atividades de alta-probabilidade” são relacionadas a atividade alvo. Por exemplo, na minha tese de mestrado, a atividade alvo era induzir imitação de movimentos de coordenação oro-facial motora em crianças diagnosticadas com TEA não verbais. As atividades de alta probabilidade envolviam a imitação de movimentos de coordenação motora (grossas) ampla, que os participantes do estudo já tinham desenvolvido em seu repertório, após o comando “Faça isso”. Os movimentos apresentados eram: bater palmas, colocar os braços para cima, tocar na barriga e tocar nas pernas. A atividade de baixa probabilidade (atividade alvo) eram respostas de imitação de movimentos oro-faciais que os participantes não emitiam, tais como: abrir a boca, abrir e fechar a boca e colocar a língua para fora. Segundo pesquisadores, alguns dos pré-requisitos da fala envolvem os movimentos ora-faciais, por isso, é muito importante que crianças não verbais sejam induzidas a imitar uma série de movimentos como as atividades alvo que eu escolhi para minha tese.
Quando escolherem a atividade alvo, tentem selecionar as atividades de alta probabilidade que são de alguma forma relacionas com a atividade alvo. Boa sorte ao aplicar essa estratégia e aumentar a probabilidade da obediência e induzir respostas novas!
Referências Bibliográficas:
Cooper, O., John, Heron, E. Timothy., Heward, L., William (2007). Applied Behavior Analysis(2ndedition). Pearson Prentice Hall  New Jersey, USA.
Mace, C. F., Hock, M. L., Lalli, J. S., West, B. J., Belfiore, P., Pinter, E., et al. (1988). Behavioral momentum in the treatment of noncompliance. Jornal of Applied Behavior Analysis, 21, 123-141.
Thomas, B. R., Lafasakis, M., & Sturmey, P. (2010). The effects of prompting, fading, and differential reinforcement on vocal mands in non-verbal preschool children with autism spectrum disorders. Behavioral Interventions25, 157-168.
Tsiouri, I., & Greer, D. R. (2003). Inducing vocal verbal behavior in children with severe language delays through rapid motor imitation responding. Jornal of Behavioral Education, 12, 185-206.
Wehby, J. H., & Hollahan, S. M. (2000). Effects of high probability latency to initiate academic tasks. Journal of Applied Behavior Analysis, 33, 259-262.
Fonte: Comporte-se

10 situações que parecem birra mas não são

Aqui estão 10 coisas que as crianças fazem que parecem birra mas não são. Quando reconhecemos os comportamentos indesejáveis ​​das crianças como reações às condições ambientais, às fases de desenvolvimento ou às nossas próprias ações, somos capazes de responder proativamente e com muito mais compaixão.
Source: katarinag/Shutterstock


1. Não controlar impulsos


Você diz ao seu filho, “Não jogue isso!” E ele joga de qualquer maneira? Pesquisas sugerem que as regiões cerebrais envolvidas no autocontrole não amadurecem completamente até o final da adolescência, o que explica por que o autocontrole em desenvolvimento é um “processo longo e lento” (Tarullo, Obradovic e Gunna, 2009, 31).
Uma pesquisa recente revelou que muitos pais supõe que as crianças podem fazer coisas mais cedo do que os peritos em desenvolvimento da infantil afirmam ser verdadeiros. Por exemplo, 56% dos pais acreditam que as crianças com menos de 3 anos devem ser capazes de resistir ao desejo de fazer algo proibido, enquanto a maioria das crianças não domina essa habilidade até os três anos e meio ou quatro anos (Zero to Three, 2016).
Quando nos lembramos que as crianças nem sempre conseguem gerir impulsos (porque os seus cérebros não estão totalmente desenvolvidos) podemos ter reações mais suaves ao seu comportamento.

2. Superestimulação


Escolinha, natação, balé, judô e o que mais tivermos dinheiro e tempo pra colocar nossos filhos. Será que isso tudo é mesmo necessário? Horários apertados, superestimulação e exaustão são marcas da vida familiar moderna. Kim John Payne, autor de Simplicity Parenting, argumenta que as crianças experimentam uma “reação de estresse acumulado”devido ao excesso de enriquecimento, atividade, escolha e brinquedos. Ele afirma que as crianças precisam de toneladas de “tempo de inatividade” para equilibrar o seu “tempo” (Payne, 2010). Quando nós construímos para que haja tempo inativo, hora de brincar e tempo de descanso, o comportamento das crianças melhora frequentemente visivelmente.

3. Reações a determinados fatores


Você já ficou irritado porque está com fome ou completamente sem paciência devido à privação de sono? As crianças são afetadas dez vezes mais quando estão cansadas, com fomesede, pelo excesso de açúcar ou doentes. A capacidade das crianças de controlar emoções e comportamento é muito diminuída quando estão cansadas. Muitos pais também notam uma mudança acentuada no comportamento das crianças cerca de uma hora antes das refeições, se elas acordaram durante a noite ou se estão com sono. Elas muitas vezes não conseguem se comunicar ou resolver sozinhas o problema pegando uma bolacha, um remédio pra dor ou até mesmo tomando água, como fazem os adultos.

4. Expressão de fortes sentimentos


Como adultos, fomos ensinados a domar e ocultar nossas fortes emoções. Mas crianças não podem fazer isso ainda. A educadora da primeira infância Janet Lansbury tem uma ótima frase para quando as crianças exibem sentimentos fortes, como gritar ou chorar. Ela sugere que os pais “deixem os sentimentos” não reagindo ou punindo as crianças quando expressam essas emoções.

5. Necessidade de toneladas de movimento


“Pare de perseguir seu irmão em volta da mesa!” “Pare de lutar com espadas com esses pedaços de papelão!” “Pare de pular do sofá!” As crianças têm uma necessidade de toneladas de movimento. Elas têm uma tremenda necessidade de passar o tempo fora de casa, andar de bicicleta e patinete, correr e cair, rastejar sob as coisas, balançar de coisas, saltar coisas e correr em torno de coisas. Em vez de pedir que parem quando eles estão cheias de energia, pode ser melhor organizar uma ida rápida ao parquinho ou passar um tempo na rua.

6. Necessidade de tornar-se independente


O modelo de Erik Erikson (1963) afirma que as crianças tentam fazer as coisas por si mesmas, e que os pré-escolares tomam a iniciativa e executam seus próprios planos. Mesmo que seja irritante quando uma criança escolhe tomates que ainda estão verdes, corta seu próprio cabelo, ou faz uma cabaninha com 8 lençóis limpinhos, eles estão fazendo exatamente o que eles deveriam fazer: tentando realizar seus próprios planos, por conta própria, tomando suas próprias decisões e tornando-se independente.

7. O outro lado de suas forças


Todos nós temos forças essenciais que também podem nos desviar. Talvez estejamos incrivelmente concentrados, mas não podemos fazer a transição com muita facilidade. Talvez sejamos intuitivos e sensíveis, mas assumimos o humor negativo de outras pessoas como uma esponja. As crianças são semelhantes: elas podem ser conduzidas na escola, mas têm dificuldade em lidar quando se confundem (por exemplo, gritando quando cometem um erro). Elas podem ser cautelosos e seguros, mas resistentes a novas atividades (por exemplo, recusando-se a ir à prática de um novo esporte). Elas podem viver no momento, mas não são organizadas (por exemplo, deixando o chão do quarto ficar coberto com brinquedos). Reconhecer quando os comportamentos indesejáveis de uma criança são realmente o outro lado de suas forças – assim como o nosso – pode nos ajudar a reagir com mais compreensão.

8. Necessidade feroz brincar


Seu filho pinta o rosto com iogurte, quer que você corra atrás dele quando está tentando escovar osdentes, ou coloca os seus sapatos, em vez dos dele, quando estão atrasados para a escolinha? Alguns dos comportamentos aparentemente “maus” dos filhos são o que John Gottman chama de “táticas” para você brincar com eles. As crianças adoram ser pestinhas. Elas se deliciam com a conexão que vem do riso compartilhado e amam os elementos de novidade, surpresa e emoção. A brincadeira muitas vezes leva tempo extra e, portanto, atrapalha agendas e compromissos, o que pode parecer resistência e desobediência mesmo quando não é. Mas quando os pais entendem e atendem essa necessidade das crianças fica mais fácil evitar brincadeiras fora de hora.

9. Reação ao humor dos pais


Vários estudos sobre o contágio emocional descobriram que leva apenas milissegundos para que emoções como entusiasmo e alegria, bem como tristeza, medo e raiva, passem de pessoa para pessoa, e isso geralmente ocorre sem que ninguém perceba (Goleman, 1991), Hatfield et al., 2014). Com as crianças não é diferente, elas são diretamente influenciadas pelo humor dos seus pais. Se eles são estressados, distraídos, para baixo, frustrados, os pequenos absorvem estes humores. E o mesmo acontece quando  são alegres, de bem com a vida.

10. Resposta a limites inconsistentes

 

Hoje você dá um chocolate pro seu filho antes do jantar. No dia seguinte você diz: “não, vai arruinar seu jantar” e ele grita e lamenta. Uma noite você lê cinco livros, mas na próxima você insiste que só tem tempo para ler um, e eles imploram por mais. Quando os pais são incoerentes com os limites, isso naturalmente desencadeia a frustração das crianças e convida a choramingar e gritar. Assim como os adultos, as crianças querem (e precisam)saber o que esperar. Esforce-se para que em sua casa haja limites e rotinas, isso vai melhorar o comportamento das crianças.
Fonte: Psychology Today   |   Tradução e adaptação: Redação Papo de Pai

Quanto mais tecnologia usam os pais, mais birras fazem os filhos

Chiliques ininterruptos, acessos de teimosia, ataques de choro. Quem tem filhos pequenos sabe bem o que é passar por isso em casa ou - o que é pior - em público. As temidas "birras" quase sempre indicam algum ruído na comunicação com a criança, e é preciso estar atento ao que elas indicam sobre os vínculos entre pais/cuidadores e filhos. Nesta matéria, explicamos aprofundadamente alguns caminhos possíveis para desviar das birras com a chama Disciplina Positiva, abordagem interpessoal que investe na empatia e na solução de conflitos a partir da comunicação não violenta.
Uma pesquisa realizada pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, trouxe mais um indício sobre as birras que reforça o fato de que investir nos vínculos afetivos e nas abordagens de comunicação é fundamental para minimizar a agressividade das crianças.
No estudo, que analisou o comportamento e a rotina de 170 pais e mães de diferentes classes sociais, foi detectado que, quanto maior a frequência de uso de aparelhos eletrônicos - celular, tablet, computador, TV e outros - maior a ocorrência de maus comportamentos dos filhos.
A pesquisa mostrou que os adultos que tinham mais dificuldade de passar longos períodos sem checar os aparelhos eram justamente os que tinham mais problemas de relacionamento com os filhos.
E o motivo é muito claro: a criança não assistida e que não é percebida em suas necessidades afetivas e práticas migra sua atenção para os eletrônicos, movida por um instinto simples de comunicação.
Por outro lado, apesar de ser simples detectar onde está o problema, como resolvê-lo, se a maioria das famílias precisa dedicar muito tempo de sua rotina ao trabalho e às obrigações incontornáveis - incluindo o próprio cuidado diário dos filhos?
Créditos: Shutterstock
Birra e tecnologia: quando dedicamos muito tempo aos eletrônicos, negligenciamos as relações humanas.
Uma recomendação possível é organizar as prioridades. A jornalista Patricia Camargo, do nosso parceiro Tempojunto, alerta que é mais uma questão de gerenciar o tempo do que tê-lo em excesso, e chama a atenção para a importância de reservar um tempo para a brincadeira no dia a dia:
"Nós adultos damos um jeito na agenda quando percebemos a importância de aprender outro idioma, e marcamos aulas. Nós arrumamos espaço nos horários para incluir um exercício no dia, quando tomamos consciência da importância de cuidar do corpo. Encontramos tempo de pesquisar preços, seja física ou virtualmente, quando percebemos a importância de economizar para nossas finanças pessoais. Ou seja, sabemos ser flexíveis e organizar nossa agenda, conforme as prioridades. Filhos, quando chegam, se tornam de um jeito ou de outro nossa prioridade. Quando a importância do brincar estiver interiorizado nos pais, haverá tempo e agenda para ela", defende.
Assim, mesmo que os pais não tenham muito tempo disponível para dedicar exclusivamente aos filhos, é possível organizar pequenos momentos de presença e afetividade que farão toda a diferença no desenvolvimento dos pequenos e no modo como reagem a estímulos externos.

Fonte: Catraquinha

Discutindo o cotidiano a partir da extinção operante: o comportamento de birra



Muitas vezes julgamos compreender conceitos importantes para Behaviorismo Radical, mas temos dificuldade de aplicá-los em nosso cotidiano. Como exemplificar este conceito? Como identificar uma situação em que ocorreu reforçamento, punição ou extinção? O objetivo deste artigo é discutir, a partir de exemplos e situações cotidianas, a definição de extinção operante, aproximando o conceito de suas possíveis aplicações no dia-a-dia.

Skinner (1953) definiu comportamento operante como aquele que produz algum efeito no mundo ao seu redor. Uma dada resposta de um organismo opera sobre o meio e o modifica, produzindo consequências. Por sua vez, as consequências do comportamento podem retroagir sobre o organismo, modificando-o ao alterar a probabilidade de o comportamento ocorrer novamente (Skinner, 1953). Se a consequência aumentar a probabilidade de emissão futura da classe de respostas a qual se seguiu ela é chamada de consequência reforçadora.
Para exemplificar podemos citar uma criança fazendo birra. Muitos podem já ter vivenciado uma situação como esta ou ter observado algo similar: uma criança se joga no chão em um local público e começa a gritar e a chorar, os pais, preocupados com o barulho e com a situação constrangedora (a birra do filho provavelmente é aversiva), rapidamente buscam fazer algo para cessar o escândalo (o comportamento dos pais é reforçado negativamente pela eliminação da birra): pegam a criança no colo e lhe dão atenção ou lhe fornecem algum objeto (ex.: um brinquedo ou doce). Neste exemplo, quando a criança se jogou no chão ela alterou o mundo ao seu redor, os pais se aproximaram e consequenciaram o seu comportamento. Se a criança voltar a apresentar o comportamento de birra no futuro, aumentando à probabilidade dessa classe de respostas, podemos afirmar que seu comportamento foi reforçado (neste caso, provavelmente positivamente, pela apresentação de um estímulo reforçador positivo: atenção ou objeto).

Tudo isso acontece quando o reforço segue a resposta. Mas o que acontece quando as respostas operantes deixam de produzir as consequências que as mantêm? E quando os pais não mais derem atenção à criança quando ela se joga no chão, chora e grita? Um pai que já passou por uma situação como esta provavelmente dirá que a birra irá piorar: a criança vai gritar mais alto, chorar mais enfaticamente e até mesmo emitir novos comportamentos como agarrar os pais ou agredir alguém próximo. Quando o reforçador deixa de seguir a resposta ocorre o que denominamos de extinção operante.
Três aspectos devem compor a definição de extinção operante: 1. Relação entre resposta e reforço já estabelecida; 2. Quebra desta relação; 3. Alterações no responder produzidas por essa ruptura. No caso do exemplo anterior: 1. O reforço (atenção ou a apresentação de objetos) se seguia a resposta de se jogar no chão, chorar e gritar. A relação entre os comportamentos de birra e o reforço já estava estabelecida; 2. Os pais deixam de dar atenção ou objetos à criança quando ela se comporta dessa forma, ocorrendo à quebra desta relação; 3. A criança passa a gritar mais alto, chorar mais enfaticamente e emite novos comportamentos, isto é, ocorrem alterações no responder decorrentes da ruptura desta relação.
Em um exemplo mais simples, imagine o que ocorre quando tentamos utilizar um objeto de nosso cotidiano e ele não mais funciona. Por exemplo, uma impressora que já utilizamos algumas vezes e sempre funcionou adequadamente (1. Relação já estabelecida entre resposta – mandar imprimir algum material – e o reforço – páginas impressas). Certo dia, a impressora não funciona e não é possível obter as páginas impressas (2. Ocorre a quebra desta relação). O que acontece em seguida? É provável que tentemos mais algumas vezes imprimir o material, passamos a apertar o botão de imprimir com mais força, batemos algumas vezes na impressora, desligamos e ligamos a impressora e o computador (3. Ocorrem alterações no responder produzidas pela quebra da relação). Algo similar acontece quando o computador trava e ficamos impossibilitados de continuar o que estávamos fazendo; quando o controle remoto para de funcionar e não conseguimos mudar de canal; quando ligamos algumas vezes para um amigo e ele não mais atende.
Apesar de podermos observar mais facilmente as alterações no responder descritas nos exemplos acima, na extinção operante uma resposta torna-se cada vez menos frequente quando o reforçamento não mais acontece. A extinção é um modo efetivo de remover um operante do repertório de um organismo (Skinner, 1953). Se os comportamentos de birra não são mais consequenciados com atenção, isto é, conforme respostas sucessivas de birra deixam de produzir o reforço, a recorrência da resposta de birra se tornará menos provável até que este comportamento não mais ocorra. Se nunca mais conseguirmos as páginas impressas ao tentar utilizar a impressora, eventualmente deixaremos de utilizá-la. Caso o computador não mais funcione, em algum momento deixaremos de tentar ligá-lo.
Voltando as alterações no responder observadas na extinção, primeiramente é possível observar uma mudança na taxa de respostas. Quando ocorre a quebra da relação entre resposta e o reforço verificasse um aumento inicial na frequência da resposta, esta que diminui gradualmente de forma irregular. Após a ruptura da relação entre resposta e reforço: a criança emite os comportamentos de birra mais vezes e nós provavelmente tentamos várias vezes imprimir as páginas que desejamos antes de desistir. Segundo Millenson (1967) numerosas respostas não reforçadas passam a ocorrer com frequências ainda maior do que quando estavam sendo reforçadas.
Durante a extinção operante é possível observar também mudanças na topografia (forma) e na magnitude (intensidade) da resposta. Retomando os exemplos, no caso da criança que emite comportamentos de birra, durante a extinção a topografia da resposta poderá variar: ela não apenas se joga no chão, mas agarra os pais, agride alguém que esteja próximo, arremessa algum objeto. Ocorre também um aumento na magnitude da resposta: a criança grita mais alto, chora mais alto, se joga no chão com mais força. Estas alterações são verificadas também no exemplo em que a impressora para de funcionar: apertamos diferentes botões para tentar fazer a impressora funcionar, ligamos e desligamos a impressora (mudanças na topografia) e apertamos o botão de imprimir com mais força (aumento da magnitude da resposta). É possível, portanto, afirmar que a extinção produz variabilidade comportamental, já que novos comportamentos são emitidos.
Skinner (1953) denominou as alterações no responder que ocorrem durante a extinção de efeitos emocionais. O não reforço de uma resposta previamente reforçada não levaria apenas a extinção (eliminar um comportamento operante do repertório de um organismo), mas leva também a uma reação comumente denominada frustração ou cólera (Skinner, 1953). Uma noticia muito disseminada recentemente, sobre uma mulher americana que foi presa após ligar mais de 70 mil vezes para o ex-namorado [1], pode exemplificar os efeitos emocionais e nos ajuda a entender como o que ocorre na extinção operante está diretamente relacionado à história de reforçamento dessa resposta. A mulher que apresentou uma frequência de respostas tão elevada de ligar para o namorado, provavelmente também bateu no telefone ou o arremessou longe (alterações na magnitude) e, como indica a reportagem, mandou e-mails, mensagens de texto, mensagens de voz e até cartas (variações na topografia da resposta).
Devemos considerar a extinção operante não como um processo comportamental especial, mas como uma propriedade do reforço, já que o responder é mantido apenas enquanto o reforço continua e não depois que ele é suspenso (Catania, 1999). Desta forma, o comportamento durante a extinção é resultado do condicionamento que o precedeu e, a partir do que ocorre durante a extinção temos uma medida adicional do efeito do reforçamento (Skinner, 1953/2007, p.77). A partir do exemplo da americana podemos inferir determinada história de reforçamento para o comportamento de ligar para o ex-namorado. Como as alterações no responder durante a extinção dependem da história de reforçamento podemos supor, neste caso, que muitas respostas foram reforçadas (o ex-namorado atendeu o telefone muitas vezes quando ela ligava) e que o critério de apresentação do reforço possivelmente foi intermitente, o que aumenta a resistência do comportamento a extinção (quando ela ligava às vezes o ex-namorado atendia, às vezes não, sendo que a quantidade de vezes que ela ligava até ser atendida possivelmente foi aumentada gradativamente).
Mas afinal, quando uma resposta está extinta? Durante a extinção ocorre um declínio gradual e irregular da resposta, marcado por períodos de aumento da frequência do responder, seguido por períodos cada vez mais longos sem a emissão de uma resposta. É importante salientar que a resposta extinta não some do repertório do organismo e alcança frequência zero, mas se torna menos frequente até que se aproxime do seu nível operante e passa então a ser emitida na mesma frequência em que era emita antes de ser reforçada (já que para ser reforçada a resposta teve que ocorrer pelo menos uma vez).
Por fim, gostaria de fazer uma colocação sobre o exemplo da criança que apresenta comportamentos de birra. Se colocar os seus comportamentos de birra em extinção os farão piorar momentaneamente, então o que fazer para eliminar este comportamento do repertório da criança? É possível utilizar a extinção para produzir mudanças comportamentais de interesse clínico, eliminando comportamentos indesejáveis, mas é importante que ao mesmo tempo outros comportamentos desejáveis da criança sejam reforçados da mesma forma que a birra era anteriormente. Agora, os pais podem dar atenção quando a criança está pintando um desenho ou brincando com seu irmão (este procedimento é denominado de DRO: reforço diferencial de outras respostas). A apresentação de estímulos reforçadores deve ser mantida, agora para outros comportamentos (Abreu e Guilhardi, 2004). Mas atenção, durante a extinção de determinado comportamento o reforço não deve mais seguir a resposta, pois caso os pais deem atenção à criança após algum tempo de birra, quando o choro se torna insuportável, eles estarão apenas reforçando intermitentemente este comportamento da criança, o qual se tornará ainda mais forte e provável.
Termino com o quadrinho a seguir, retirado de Millenson (1967), para exemplificar o poder da extinção.
REFERÊNCIAS
Abreu, C. N. e Guilhardi, H. J. (2004). Terapia Comportamental e Cognitivo-comportamental – Práticas Clínicas. São Paulo: Roca.
Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. Porto Alegre: Artmed.
Millenson, J. R. (1967). Princípios de Análise do Comportamento. Brasília: Coordenada Editora.
Skinner, B. F. (1953/2007). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.
[1] Retirado de: http://odia.ig.com.br/noticia/mundoeciencia/2014-06-30/americana-e-presa-apos-ligar-mais-de-70-mil-vezes-para-o-ex-namorado.html
Fonte: Comporte-se

Jovens ditadores, pais submissos

- O que a sua filha pede pra você que você não faz?
- Nada.
- Quer dizer que você dá a ela tudo o que ela pede?
- Sim.
 
Foi tentando demonstrar orgulho e segurança, mas deixando transparecer uma certa vergonha que o pai de uma menina de seis anos deu esta resposta a uma jornalista de TV em reportagem sobre os excessos de mimos aos filhos pequenos.
 
Oportuna e realista a reportagem, posto que vive-se talvez como nunca uma ditadura das crianças e dos jovens, cuja agenda "pessoal" acaba se impondo perante a família --pais e mães, sobretudo, mas também avós e irmãos mais velhos, tios, professores.
 
Talvez não seja correto falar em ditadura, posto que se trata de um autoritarismo aceito e consentido: o que o filho pequeno quer tem que ser feito, e faz-se sem pensar em consequência outra que não satisfazer àquela demanda, que se torna imperativa e inescapável.
 
Até umas duas gerações atrás, para crianças e jovens, não havia o direito de possuir agendas, existiam necessidades que eram, bem ou mal, supridas pelos provedores. Criança não tem querer, dizia-se exageradamente então.
 
Dando um grande salto em meio a uma infinidade de não muito bem esclarecidas modificações, hoje a situação é completamente oposta: a necessidade gerada pela vontade do pequeno é que determina a agenda familiar. E, em geral, ai de quem ousar não atender a estas demandas...
 
Submete-se, muda-se o que for necessário: não apenas adapta-se as urgências dos adultos, como planos são alterados, prazeres deixados de lado, horários flexibilizados, tudo em nome da suposta felicidade do petiz.
 
Que felicidade é esta que existe à custa de qualquer sacrifício alheio? Que moral estabelece essa prioridade invertida? Ou que culpa percorre a mente de pais e mães para que se submetam tanto aos desejos de seus filhos?
 
Bem não faz, como me lembrou outro dia a colega Rosely Sayão, especialista neste assunto, quando falávamos da agenda distorcida, aquela que desconsidera as reais necessidades de cada membro da família e não é fruto do consenso e do bom senso.
 
Cria-se, na verdade uma excrecência: dá-se à criança não um direito, mas na verdade uma responsabilidade que não lhe cabe ao se permitir que ela, em toda a sua imaturidade e fragilidade naturais, tome decisões que afetam toda a família. Isso é um peso que não lhe cabe!
 
Pode parecer bonitinho uma criança com menos de 10 anos, por exemplo, estragar o fim de semana de todos os demais, quando quer porque quer, e os pais atendem a isso, fazer algo que só lhe diz respeito.
Ao decidir que quer isso e impor sua vontade à família, a criança está praticamente pedindo que alguém lhe diga não, que lhe explique que não é assim que funciona, que o mais correto é: vamos fazer o que for melhor para todos.
Deixar de fazer isso é permitir o surgimento de padrões que respondem não mais ao âmbito familiar, mas a exigências que muitas vezes nem é da criança propriamente dita, mas fruto de necessidades fúteis impostas por seu grupo ou por comportamentos massificados propagados por fatores exógenos --mídias, em geral.
Crianças, diz a Rosely, precisam muito ouvir não; mais do que isso elas querem ouvir não.
Os pais é que cada vez menos sabem ou desejam fazer isso.
É mais fácil dizer sim...
 
Por: Çuiz Cavesan
Fonte: Folha

Como enfrentar a tirania infantil


Se o exemplo não está em família, certamente todo mundo conhece alguém que enfrenta problemas com criança excessivamente mimada, birrenta, que inferniza a vida dos que estão ao redor quando é contrariada. As reações são típicas: cara feia, braços cruzados, choro, gritos e que perduram até conseguir o que deseja.

As consequências imediatas são conhecidas: os pais viram reféns do filho, que se transforma em um pequeno tirano do lar, a relação do casal é prejudicada, assim como o convívio social. Já as consequências futuras podem ser ainda piores, como alerta a psicóloga Paula Pessoa Carvalho.

"No futuro, ela poderá ter dificuldade de relacionamento, pois não saberá aceitar o que é diferente, tornando-se um adulto intolerante que não sabe lidar com a frustração. Os pais devem entender que o filho irá crescer e enfrentar situações onde não estarão presentes. Por isso, devem criá-lo para conviver em sociedade, preparado para se relacionar com outras pessoas e lidar com situações nem sempre favoráveis", diz a psicóloga, especializada em comportamento infantil e orientadora educacional.

Mas que fique o aviso: não se trata de voltar ao modelo antigo, quando bastava um olhar mais severo para a criança encolher. Paula Carvalho enfatiza que o zelo sempre é essencial para uma criança, o problema são os excessos. "Na sociedade em que vivemos os pais querem compensar a ausência com permissividade e cuidados. Porém, sua ausência em razão de necessidade de trabalho não pode ser utilizada como "desculpa" para não impor limites e educar bem os filhos".

Criança sabe manipular situações

O mimo exagerado pode ser consequência da superproteção ou mesmo de certa negligência, já que há quem ache mais fácil atender aos desejos do que impor limites e gastar energia discutindo com a criança.
Mas não se engane: as crianças desde pequenas aprendem a manipular as situações perante os adultos, principalmente quando esses se deixam manipular por excesso de ausência ou para suprir outras necessidades. "Desde pequena, a criança deve ter limites de educação e respeito. Os pais não devem ceder aos pequenos, ensinando para eles o respeito ao próximo", afirma Paula Carvalho.

Segundo ela, é preciso ter em mente que a criança está aprendendo a como lidar com tudo em seu desenvolvimento psicossocial. "Ela irá testar os adultos, cabe a esses estarem prontos para mostrar ao filho o que é certo e errado, ensinando a se relacionar com o que é diferente, dar segurança para a criança, autonomia, discernimento. E para isso é preciso dar amor, limites, respeitar os pequenos e nada pode substituir essa necessidade, muito menos o excesso de proteção".

Os riscos da superproteção

Autor do livro "Seu bebê em perguntas e respostas - Do nascimento aos 12 meses", o pediatra Sylvio Renan é defensor do amor e do diálogo entre pais e filhos, mas faz algumas ressalvas: "Toda criança precisa de atenção e cuidados especiais. Porém, nossos pequenos necessitam, também, crescer e descobrir um mundo repleto de desafios e gostosuras. É preciso que os adultos permitam a seus filhos liberdade, ensinando responsabilidade. Privar e superproteger interfere no progresso, seja físico ou psicológico da criança. Proteção exagerada pode gerar instabilidades, receios, ansiedades e angústias, dificultando que estas crianças se tornem indivíduos adultos independentes", esclarece.

O pediatra aconselha que se dê aos filhos a oportunidade de crescer como pessoa, de poder enxergar o mundo com seus próprios olhos, de viver momentos mágicos, encontrar desafios e novas descobertas, superar seus medos e inquietações. "Isso faz parte do desenvolvimento de qualquer pessoa. Lembre-se: Quem ama, cuida. Quem ama, permite! Mas também disciplina e impõe limites!".

Como controlar a agressividade?

O comportamento agressivo é uma atitude muito comum na infância e se manifesta geralmente no ambiente escolar, porque as crianças ficam envolvidas com outras crianças, tem que lidar com frustrações, regras e limites. "Esse ambiente pode propiciar manifestações de sentimentos que as crianças ainda não sabem controlar, como raiva e irritação, fazendo com que ela se comporte de forma agressiva", informa Paula Carvalho.

A psicóloga orienta os pais para não manifestarem comportamentos agressivos diante das crianças, mesmo que seja somente na forma de falar. "A criança exposta a tal ambiente reproduzirá esse comportamento em casa ou em qualquer outro ambiente com outras crianças, com os animais domésticos e também com os adultos".

Para a criança deve ficar claro que comportamentos inadequados como xingamentos, brigas, beliscões, tapas e qualquer outro não são corretos e não serão aceitos e que dessa forma ela não resolve as situações e nem consegue o que quer.

O que se recomenda é os pais conversarem com a criança e colocare consequências a essas atitudes. É importante retirar a criança da situação, do ambiente em que ela está sendo agressiva e fazer com que ela reflita sobre o que ela fez para que ela entenda que aquele comportamento não será tolerado. Sempre deixe claro para a criança, por qual comportamento ela está sendo punida. E não volte atrás. Lembre que para a criança tudo é atenção, inclusive uma bronca ou um castigo".

Pequenos Rebeldes


É comum que crianças pequenas façam birra; algumas, no entanto, são propensas a crises mais violentas. Em certos casos, o acompanhamento profissional pode ajudar a evitar a agressividade crônica.
Isabela tem acessos de raiva no supermercado sempre que a mãe se recusa a comprar algo que ela quer. A pequena Beatriz berra ferozmente quando a mãe interrompe sua brincadeira para que tome banho ou mude de roupa. Vinícius, um adorável ruivo de pouco mais de 17 meses, morde móveis e brinquedos assim que alguém lhe diz “não”. Nesses momentos, parece inútil conversar com os pequenos de forma racional. Ameaças e punições também não detêm os gritos, a agitação e as agressões. Mas as cenas terminam de forma tão rápida como começaram e a própria criança, em geral, se aconchega junto aos adultos em busca de carinho. Em situações como essas é comum que os pais se sintam impotentes para controlar as crises.
Os acessos de mau humor são comuns em crianças que têm entre 15 e 18 meses. Na maioria dos casos, refletem apenas um estágio de desenvolvimento em que independência e vontade própria se chocam com imaturidade emocional e verbal. “Acessos de fúria fazem parte do desenvolvimento da criança”, diz o psiquiatra e terapeuta de família Manfred Cierpka, da Universidade de Heidelberg, Alemanha.

Os pais devem se preocupar apenas quando esses ataques de raiva ocorrem mais de cinco vezes por dia, sendo extremamente difícil acalmá-los. Durante esses acessos, os pequenos rebeldes podem destruir objetos ou se mostrar agressivos com adultos e outras crianças e, até se machucar ocasionalmente, arranhando-se até a pele sangrar ou batendo a cabeça contra a parede.

Ataques de fúria freqüentes, assim como manifestações autodestrutivas, merecem atenção profissional. Além de emocionalmente extenuantes para pais e filhos, podem ser indício de problemas psiquiátricos e de comportamento, como depressão e propensão para violência. A conduta pode ter origem em fatores genéticos, socioeconômicos ou ser conseqüência de negligência durante a gravidez, pelo fato de a mãe ter fumado, por exemplo, ou ainda pela forma como a criança é tratada pelas pessoas que cuidam dela. Os estudos mostram que adultos mais autoritários e menos flexíveis em suas atitudes tendem a estimular a agressividade nos filhos.

Contrariamente à idéia convencional de que violência se aprende durante a adolescência, pesquisas recentes mostram que comportamento agressivo, mesmo antes dos 2 anos, pode sinalizar problemas persistentes. Por isso, cada vez mais especialistas enfatizam a importância de evitar expor a criança a experiências dolorosas, principalmente durante os primeiros anos de vida. Infligir violência física aos pequenos pode causar a eles graves problemas psicológicos para toda a vida.

DESEJO DE INDEPENDÊNCIA

O fato é que – embora frustrantes e desagradáveis –, as explosões de raiva de crianças pequenas geralmente são controláveis. Elas expressam emoções que emergem de um cérebro imaturo. Os pais de Sara, de 2 anos e meio, estavam preocupados porque a filha gritava na creche quando a professora intervinha em brigas por brinquedos. “Em casa não conseguimos acalmá-la”, diz a mãe.

Quando os pais de Sara foram fazer uma consulta com Cierpka, no Instituto de Pesquisa Cooperativa Psicossomática e Terapia de Família, o psiquiatra viu poucos motivos para grandes preocupações. Depois de se entreter sem incidentes por mais de uma hora, a menina começou a brincar com a bolsa da mãe, que a arrancou das mãos de Sara. A garota pareceu perplexa e tentou pegar novamente o objeto. A mãe se apoderou da bolsa uma segunda vez dizendo: “O que é isto, Sara? Precisa realmente fazer isto, agora?”. Só então a criança começou a berrar.

Este comportamento é bem característico dessa fase. “Crianças na etapa dos ataques de raiva estão dando um salto gigantesco de desenvolvimento”, diz Cierpka. Não apenas as aptidões motoras estão aumentando rapidamente, permitindo que atuem com independência para explorar o ambiente ao redor, mas também, por volta dos 30 meses, começam a se perceber como indivíduos; como se, subitamente se reconhecessem em um espelho. “Essa percepção permite que uma criança tenha desejos independentes e entenda que suas ações provocam respostas de outros”, diz Cierpka.

O impulso de experimentação, combinado com a consciência das reações de outras pessoas, é uma receita freqüente para angústia, à medida que as explorações e desejos de uma criança pequena muitas vezes incitam “nãos” dos pais e daqueles que cuidam dela. Os adultos geralmente não deixam, por exemplo, que seus filhos comam biscoitos antes do jantar, peguem facas ou brinquem com a carteira de dinheiro da mãe.

Essas proibições provocam decepção e fúria – sentimentos negativos que são inteiramente novos para a criança. Sara, por exemplo, sente raiva com o fato de a bolsa ter sido arrebatada e decepção porque não pode fazer nada a respeito. “Todas essas emoções são extremamente fortes, difíceis de ser assimiladas pelos bebês”, ressalta Cierpka. Incapazes de expressar seus sentimentos com palavras, as crianças pequenas os descarregam com gritos irracionais e um frenesi físico, traduzido em ataques de raiva.

O conselho de Cierpka aos pais: reconheça os sentimentos de seu filho. Por exemplo, a mãe de Sara poderia ter dito calmamente à filha: “Sei que você está com raiva por causa da bolsa, mas ela não é para brincar”. Então, poderia distrair a filha – digamos, tirando um brinquedo da bolsa. Ou, se o pai quisesse interromper uma brincadeira para que a família saísse, poderia se oferecer para brincar com ela depois que voltassem para casa. Tais estratégias permitem que uma criança, como Sara, saiba que os pais estão do lado dela mesmo que ela esteja com raiva, o que acabará possibilitando reações mais elaboradas à angústia.

AGRESSIVIDADE CRESCENTE

Os ataques de irritação podem se tornar mais acentuados em crianças voluntariosas, que tendem a agir e pensar com maior independência que seus pares. Durante uma consulta com Cierpka, Vinícius chorou e berrou sem provocação, sacudiu a perna de uma mesa e a mordeu – uma atuação bem mais exagerada que a de Sara.

Em alguns casos, mais que um fenômeno passageiro, comportamentos excepcionalmente agressivos durante a infância podem ser sinal de problemas persistentes. Uma revisão da literatura, publicada em 1995 pela psicóloga Susan B. Campbell, da Universidade de Pittsburgh, sugere que crianças com problemas de comportamento aos 3 ou 4 anos têm cerca de 50% de possibilidade de apresentar problemas semelhantes no início da adolescência.

Nesses casos, agressão física é o principal motivo de preocupação. Para a maioria dos meninos – bem mais propensos à violência que as meninas –, socos, chutes e mordidas parecem atingir o auge no jardim-de-infância, e depois declinam entre 6 e 15 anos de idade. Em cerca de 4% dos meninos, esse comportamento persiste e eles são mais propensos a serem violentos aos 17.

Ataques extremos de raiva podem, em alguns casos, ser um sinal de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Em um estudo de 2007, os psicólogos Manfred Laucht, do Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim, e Gunter Esser, da Universidade de Potsdam, ambos da Alemanha, estudaram os perfis de desenvolvimento e de comportamento, aos 2 anos, de 26 crianças do curso elementar que apresentavam transtornos semelhantes aos do TDAH. Eles os compararam aos perfis de 241 meninos e meninas saudáveis do primeiro grau, e constataram que os indicadores potenciais de TDAH incluíam agitação, irritabilidade e dificuldade em entender linguagem. Portanto, crianças pequenas que têm ataques de raiva violentos podem ser mais propensos a esses problemas de comportamento.

Genética e ambiente são fatores importantes para a formação do temperamento de cada pessoa. Em particular, aspectos genéticos respondem por mais da metade da variação entre as crianças no tocante à freqüência com que usam agressão física. A psicóloga Ginette Dionne e colegas da Universidade Laval, Québec, avaliaram os níveis de agressão em 562 gêmeos aos 19 meses. Em 2003, os pesquisadores relataram que 60% dos gêmeos idênticos estudados tinham esse traço em comum, enquanto apenas 28% dos gêmeos fraternos, que compartilham metade do genoma, eram semelhantes nos níveis de beligerância.

Atrasos na linguagem também podem intensificar a predisposição genética para comportamento disruptivo e agressivo. Estudos epidemiológicos mostram que entre 60% e 80% das crianças em idade pré-escolar e escolar, cuja fala se desenvolveu lentamente, exibem tais comportamentos, em comparação com 20% na população geral. Dionne- e colegas, que estimaram as aptidões de linguagem dos gêmeos em seu estudo, porém não encontraram associação forte entre linguagem e agressão por volta de um ano e meio de idade. Em muitos casos, a agressão surge antes de quaisquer problemas com a linguagem, sugerindo que um atraso na linguagem não causa, mas aumenta a agressão: as crianças podem ficar frustradas com a incapacidade de se comunicar, ou usar os punhos quando não conseguem produzir as palavras certas.

INFLUÊNCIA DOS PAIS

O comportamento parental, começando no útero, pode ter um efeito significativo no temperamento de uma criança. Em um estudo publicado este ano, o psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal, relatou que o tabagismo pesado (10 ou mais cigarros por dia) por parte da mãe durante a gravidez estava associado com agressão em 1.745 crianças nascidas em Québec, com idades entre 17 e 42 meses. Cientistas acreditam que o tabagismo perturba o desenvolvimento cerebral do feto.

Os psicólogos também estão convencidos de que a conduta dos pais influencia a estabilidade emocional dos filhos. Adultos que deixam uma criança angustiada fazer o que quiser ou que reagem de maneira autoritária estão procurando encrenca. As reações dos pequenos às regras negligentes ou draconianas costumam ser agitação, rebeldia e, em alguns casos mais raros, apatia.

Um estudo de 2008 com 1.508 crianças de escola elementar, realizado pela psicóloga clínica Mireille Joussemet, da Universidade de Montreal, corrobora a ligação entre agressão e comportamento controlador por parte das figuras parentais. Pais e mães autoritários gostam de exercer poder, dão valor à obediência e não incentivam o filho a expressar suas próprias opiniões. O estudo encontrou os fatores de risco habituais para comportamento agressivo (julgado, neste caso, pelos professores): ser do sexo masculino, ter temperamento reativo e problemas familiares, como pais instáveis, em constante pé de guerra. Mas, além destes fatores contribuintes, os pesquisadores descobriram que ter uma mãe controladora elevava ainda mais as chances de comportamentos agressivos (TDA/H) no ensino fundamental.

Em um estudo feito em 1996 com 69 famílias que criavam primeiros-filhos do sexo masculino, o psicólogo Jay Belsky, da Universidade de Londres, observou que os pais com maior dificuldade em controlar o comportamento dos filhos nas idades entre 15 e 21 meses eram os que davam ordens sem qualquer explicação. Eles não se preocupavam em dizer, por exemplo: “Não mexa nessa faca porque ela pode machucá-lo”. Pais que promovem diretrizes e democracia numa família têm maior probabilidade de ter filhos bem ajustados, acreditam os psicólogos.

Os fatores socioeconômicos e familiares também devem ser considerados. No estudo sobre o fumo, de 2008, por exemplo, os efeitos do tabagismo sobre a agressividade eram maiores se a família tivesse uma baixa renda ou a mãe apresentasse uma história de comportamento anti-social. E o estudo de Belsky, de 1996, concluiu que nas famílias consideradas problemáticas era maior o número de pais desajustados. Uma personalidade hostil pode, afinal de contas, “equipar” mal uma pessoa para lidar com sentimentos de frustração.

Além disto, conflitos conjugais contribuíam negativamente. Em particular, a dificuldade parecia florescer quando um dos pais expressava emoção negativa e, ao mesmo tempo, minava o papel parental do cônjuge – como interromper o outro ou dar instruções conflitantes ao filho. Em geral, a qualidade conjugal, contudo, não se revelou um fator importante nesse estudo.

No caso de Vinícius, Cierpka especula que problemas conjugais podem estar, em parte, na raiz dos seus ataques de raiva. O pai do menino é uma presença inconstante: sai de casa sem aviso prévio por longos períodos e não informa à esposa onde está nem o que está fazendo, o que a deixa magoada e ansiosa. Sem perceber o que faz, a mãe transmite a própria raiva e insegurança ao filho, cujos acessos de raiva podem representar um pedido desesperado de atenção, de que ele precisa para aliviar sua própria insegurança.

Cierpka também percebe um problema mais superficial: assim que Vinícius se irrita, a mãe o puxa até ela para consolá-lo. Essa ação tende a reforçar a conexão entre agitação hostil e amor. Cierpka aconselha a mãe a consolar o filho somente depois que ele tiver começado a se acalmar, recompensando-o por recuperar o equilíbrio.

PREVENÇÃO POSSÍVEL

Já que agressividade precoce pode ser um indício de violência futura, atividades que abrandam e previnem ações hostis em tenra idade podem ajudar a restringir o número de jovens que se tornam violentos. Embora nenhum programa pré-escolar tenha comprovado sua eficácia nesse sentido, estudos experimentais de prevenção sugerem o que poderia funcionar. Uma intervenção denominada “programa pré-escolar de Perry”, que se concentrou em impulsionar o desenvolvimento afetivo e cognitivo de crianças de baixa renda, com idades entre 3 e 4 anos nos Estados Unidos, reduziu significativamente o comportamento criminal nos homens.

Outra abordagem promissora poderia ser a exploração da ligação entre atraso na linguagem e a agressão, tendo como alvo as crianças que exibem o déficit e trabalhar com elas para superá-lo. Isso pode ser feito por meio de estimulação verbal intensa e também com acompanhamento psicoterápico para que tenham a chance de lidar com a própria frustração de forma menos destrutiva. Além disso, é possível ensinar às crianças práticas sociais, como ser prestativo, consolar os outros, partilhar e encontrar meios alternativos de reconhecer a própria raiva. Nos casos em que atitude parental autoritária se manifestar, uma psicoterapia dirigida pode ajudar a quebrar o ciclo de comportamento agressivo-opositivo na criança e a punição infligida pelos pais.

Pesquisas mostraram que pelo menos um gene influencia a agressão nos seres humanos. Homens que sofreram maus-tratos quando crianças tiveram probabilidade maior de serem condenados por um crime violento antes dos 27 anos, se possuíssem uma forma mais curta do gene para uma enzima chamada monoaminooxidase A. No futuro, à medida que os pesquisadores tiverem mais conhecimento genético sobre comportamento agressivo, esses achados moleculares poderão levar a medicamentos que poderão ser associados com ações comportamentais para combater tendências violentas em jovens.(Tradução de Vera Paula de Assis)

CONCEITOS-CHAVE

- Ataques de raiva ocasionais são normais nas crianças durante os primeiros três anos de vida, à medida que independência crescente se choca com imaturidade emocional e verbal.

- Acessos de fúria freqüentes, associados a atitudes autodestrutivas, como bater a cabeça ou arranhar-se, revelam indícios de comportamentos mais graves, incluindo propensão para a violência.

- Fatores genéticos são um dos motivos que desencadeiam agressividade infantil. As outras causas estudadas são o tabagismo durante a gravidez, atraso na linguagem, condição socioeconômica e certos estilos parentais. Ações preventivas com programas já na pré-escola podem reduzir o número de jovens que se tornam cronicamente violentos.

PARA CONHECER MAIS
A linguagem e o pensamento da criança. Jean Piaget. Martins Fontes, 1999.
Behavioural outcome of regulatory problems in infancy. J.-O. Larsson em Acta Pæediatrica, vol. 93, nº 11, págs. 1421-1423, 2004.
Controlling parenting and physical aggression during elementary school. Mireille Joussemet et al. em Child Development, vol. 79, no 2, págs. 411-425, de 2008.
Understanding development and prevention of chronic physical aggression: towards experimental epigenetic studies. Richard E. Tremblay em Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, vol. 363, nº 1503, págs. 2613-2622, 2008.

Fonte Revista Mente e Cérebro