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Piper, um dos curtas mais bonitos e cativantes da Disney


São 6 minutos. Seis minutos de uma vida. Seis minutos que vale a pena investir para desfrutar do curta mais meigo da Pixar-Disney. Porque sim, Piper é um dos curtas mais cativantes da fábrica de conteúdo audiovisual Pixar.
Estas imagens nos contam uma história que poderia ser a história de vida de qualquer um de nós, em qualquer momento da nossa existência. Superar os nossos medos e a nossa comodidade nos oferece, sempre, uma maravilhosa perspectiva da vida.

Disciplina severa pode ser positiva para a criança, diz estudo

Foto: Getty Images
Ser um pai rigoroso é bom para as crianças, desde que a disciplina seja acompanhada de amor e carinho. Um estudo feito com adolescentes, divulgado pelo jornal Daily Mail, descobriu que os efeitos de uma disciplina severa, como broncas verbais e até palmada, não são negativos quando compensados pela sensação de ser amado. Segundo os pesquisadores, ser punido durante a infância dificilmente leva a um comportamento antissocial, desde que a criança perceba que a bronca é justa.
O uso de disciplina severa em jovens é algo controverso, pois já foi apontado que isso poderia levar a um risco maior de tendências agressivas, delinquência e hiperatividade. No entanto a nova pesquisa publicada no jornal Parenting: Science and Practice sugere que uma bronca ou um tapa podem ser moderados por um sentimento de ser amado por quem exerce a punição.
O estudo foi realizado com um grupo de adolescentes mexicanos-americanos e descobriu que a percepção de calor maternal desencorajava comportamentos antissociais, mesmo quando os pesquisados tinham sido criados sob disciplina rígida. A médica Miguelina German, da Escola de Medicina Albert Einstein, em Nova York, explica que a “teoria do apego” prega que esse sentimento de um pai amoroso e responsável é um fator crítico para gerar felicidade e segurança nas crianças. A ideia de que os pais as amam e protegem protege as crianças contra o sentimento de rejeição, mesmo quando estão sendo disciplinadas duramente.
Segundo a especialista, o uso de disciplina rígida não leva automaticamente a um comportamento antissocial. "A relação entre os dois é condicional e está sujeita a outros fatores. Onde práticas disciplinares severas são uma norma cultural, há sempre outras influências em jogo, que pode diminuir seus danos potenciais sobre a criança", defende.
Pesquisas anteriores já haviam sugerido que crianças criadas sob uma disciplina severa têm mais chances de se tornarem adultos ajustados. Segundo os estudos, pais que mantém um comportamento “autoritário”, mas ao mesmo tempo carinhoso, costumam criar adultos mais competentes.
 
Fonte: Terra

Por que é tão difícil colocar limites no seu filho

Os pequenos tiranos de hoje são resultado do encontro de duas gerações sem limites, diz Tania Zagury, mestre em educação e autora de "Limites Sem Trauma" (Record).
 
"Quem está criando filhos agora são os que já tiveram liberdade na infância e estão frente a uma situação que não vivenciaram: os filhos deles também querem fazer de tudo. A liberdade da criança acaba tirando a dos pais."
 
Zagury fez um estudo com 160 famílias no início dos anos 1990, quando já identificava o surgimento da tirania infantil. "Os pais dos anos 1980 tinham sido criados de forma dominadora e queriam uma educação liberal."
 
Entre os anos 1970 e 1980 a criança se tornou ator da história, segundo Mary Del Priore, organizadora do livro "História das Crianças no Brasil" (Contexto).
 
A tendência começou depois da Segunda Guerra. Ao mesmo tempo, surgiram leis de proteção à infância, jovens ganharam visibilidade no cinema e na publicidade e as famílias diminuíram.
 
"A mulher [que trabalha fora e começa a tomar pílula] passa a querer ter menos filhos para criá-los bem. E a criança ganha lugar como consumidora. Há uma transformação no papel dos pais", afirma a historiadora.
 
CRISE DE AUTORIDADE
 
O problema é que a balança foi toda para o outro lado: da rigidez à frouxidão, analisa o psicanalista Renato Mezan, professor da PUC-SP. "Por um lado, é um avanço social, há mais diálogo na família e mais decisões consensuais. Mas, por outro, os pais têm medo de exercer a autoridade legítima. É uma crise de autoridade generalizada."
 
Há também uma inversão de papeis, segundo a pedagoga Adriana Friedmann, doutora em antropologia e coordenadora do Nepsid (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento).
 
"Há uma 'adultização' precoce e, ao mesmo tempo, um prolongamento da infância", diz. "Não dá para culpar só os pais. Todos são vítimas da tendência sociocultural. As crianças estão expostas a um grande número de estímulos e influências da mídia."
 
Para a psicanalista Marcia Neder, os pais se sentem obrigados a mimar os filhos e há muitas exigências em torno de um ideal da mãe perfeita. "Fica difícil dizer 'não' em uma sociedade que trata a criança como um deus."
 
A blogueira Loreta Berezutchi, 29, sente na pele as cobranças do que ela chama de "filhocentrismo". Loreta é mãe de Catarina, 3, e Pedro, 5. O menino não dá muito trabalho, mas Catarina...
 
"Ela está sempre batendo o pé. Empaca quando não quer sair de casa e quer escolher a roupa que vai usar. Às vezes, quer blusa de frio no calor e é difícil fazê-la mudar de ideia", conta.
 
Além de comprar "as brigas que valem a pena" com a filha (como não deixá-la viver só de bolacha e iogurte), Loreta tenta não ser guiada pela concorrência que há entre mães blogueiras para ver quem é a "mais mãe", ou seja, a que mais paparica sua prole (ela escreve no www.bagagemdemae.com.br).
 
"Na hora de apontar o dedo, todo mundo aponta. 'Ah, meu filho só come comida saudável e o seu toma refrigerante'. Você se sente culpada por não ser o modelo de mãe que cozinha para o filho, dá água mineral etc.", diz.
 
Ela admite que sua vida hoje gira em torno dos rebentos e acha que faz parte do pacote. "Eu estava preparada para isso quando decidi ser mãe. Mas faz falta ter uma vida social que não os inclua."
 
Enquanto a criança ainda é um bebê, é normal que a vida da família seja pautada pelas necessidades dela, de acordo com Zagury. "Mas, a partir dos três, quatro anos não precisa ser assim. Os pais devem dar proteção aos filhos, não sua própria vida."
 
MAMÃE EU QUERO
Encontrar o equilíbrio pode ser complicado quando a criança tem entre dois ou três anos, aponta Friedmann. "Elas estão na fase de se descobrirem como pessoas com identidade única. Nesse período, há uma necessidade da afirmação do eu, por isso experimentam um jogo de força com os adultos."
 
É fundamental os pais terem clareza sobre quais regras vão impor aos filhos. Só assim conseguirão ser firmes.
 
"Os limites devem ser colocados na primeira infância, quando se constroem as bases da personalidade", acrescenta Friedmann.
 
A psicopedagoga Maria Irene Maluf, membro da Associação Brasileira de Psicopedagogia, lembra que regras dão segurança. "A opinião da criança não deve ser ignorada, mas ela não sabe escolher o que é melhor para ela. Ninguém nasce autônomo."
 
No fundo, mesmo os mais rebeldes gostam de saber até onde podem ir, complementa a também psicopedagoga Betina Serson. Para quem tem um déspota mirim em casa, ela recomenda começar a disciplina estabelecendo uma rotina (veja mais orientações ao lado).
 
"A ideia de que colocar limites pode ser danoso à criança é 'idiota'", afirma Mezan. Segundo ele, a inexistência de regras gera ansiedade dos dois lados.
 
"Qualquer renúncia ao prazer imediato passa a ser vivida como uma frustração insuportável pela criança. Muitas vezes, porque seu desejo é logo satisfeito, ela acaba valorizando pouco o que tem", afirma.
 
Fonte: Folha

Jovens ditadores, pais submissos

- O que a sua filha pede pra você que você não faz?
- Nada.
- Quer dizer que você dá a ela tudo o que ela pede?
- Sim.
 
Foi tentando demonstrar orgulho e segurança, mas deixando transparecer uma certa vergonha que o pai de uma menina de seis anos deu esta resposta a uma jornalista de TV em reportagem sobre os excessos de mimos aos filhos pequenos.
 
Oportuna e realista a reportagem, posto que vive-se talvez como nunca uma ditadura das crianças e dos jovens, cuja agenda "pessoal" acaba se impondo perante a família --pais e mães, sobretudo, mas também avós e irmãos mais velhos, tios, professores.
 
Talvez não seja correto falar em ditadura, posto que se trata de um autoritarismo aceito e consentido: o que o filho pequeno quer tem que ser feito, e faz-se sem pensar em consequência outra que não satisfazer àquela demanda, que se torna imperativa e inescapável.
 
Até umas duas gerações atrás, para crianças e jovens, não havia o direito de possuir agendas, existiam necessidades que eram, bem ou mal, supridas pelos provedores. Criança não tem querer, dizia-se exageradamente então.
 
Dando um grande salto em meio a uma infinidade de não muito bem esclarecidas modificações, hoje a situação é completamente oposta: a necessidade gerada pela vontade do pequeno é que determina a agenda familiar. E, em geral, ai de quem ousar não atender a estas demandas...
 
Submete-se, muda-se o que for necessário: não apenas adapta-se as urgências dos adultos, como planos são alterados, prazeres deixados de lado, horários flexibilizados, tudo em nome da suposta felicidade do petiz.
 
Que felicidade é esta que existe à custa de qualquer sacrifício alheio? Que moral estabelece essa prioridade invertida? Ou que culpa percorre a mente de pais e mães para que se submetam tanto aos desejos de seus filhos?
 
Bem não faz, como me lembrou outro dia a colega Rosely Sayão, especialista neste assunto, quando falávamos da agenda distorcida, aquela que desconsidera as reais necessidades de cada membro da família e não é fruto do consenso e do bom senso.
 
Cria-se, na verdade uma excrecência: dá-se à criança não um direito, mas na verdade uma responsabilidade que não lhe cabe ao se permitir que ela, em toda a sua imaturidade e fragilidade naturais, tome decisões que afetam toda a família. Isso é um peso que não lhe cabe!
 
Pode parecer bonitinho uma criança com menos de 10 anos, por exemplo, estragar o fim de semana de todos os demais, quando quer porque quer, e os pais atendem a isso, fazer algo que só lhe diz respeito.
Ao decidir que quer isso e impor sua vontade à família, a criança está praticamente pedindo que alguém lhe diga não, que lhe explique que não é assim que funciona, que o mais correto é: vamos fazer o que for melhor para todos.
Deixar de fazer isso é permitir o surgimento de padrões que respondem não mais ao âmbito familiar, mas a exigências que muitas vezes nem é da criança propriamente dita, mas fruto de necessidades fúteis impostas por seu grupo ou por comportamentos massificados propagados por fatores exógenos --mídias, em geral.
Crianças, diz a Rosely, precisam muito ouvir não; mais do que isso elas querem ouvir não.
Os pais é que cada vez menos sabem ou desejam fazer isso.
É mais fácil dizer sim...
 
Por: Çuiz Cavesan
Fonte: Folha

Seja adulto ao corrigir seu filho

Pais não devem esquecer que são os adultos
Shutterstcker
Castigo por atitude errada tem de ser feito pensando na formação do jovem, e não simplesmente em uma retaliação
 
Nem sempre os pais acertam na hora de corrigir uma atitude errada dos filhos, mas uma história que a psicóloga Rosely Sayão ouviu em sua coluna na BandNews FM é bastante curiosa.

Um casal confiscou o celular de sua filha adolescente por causa de uma malcriação e, como castigo, os dois adultos tiraram fotos fazendo caretas, depois postaram os arquivos na internet através do aparelho.

O problema é que uma das imagens virou um sucesso na web, causando um constrangimento para a menina.

“Eu fico me perguntando quem são os adultos desta relação”, lamentou a educadora após escutar o relato. “A reação deles não foi nem um pouco adulta, nem um pouco educativa”, criticou.

Rosely lembrou que, quando os filhos fazem algo que não deveriam, uma punição deve aplicada como bom senso, para que eles conheçam limites. “É assim que o adolescente amadurece, entendendo que quando ele faz alguma coisa, algo ele produz”, explicou.

“Agora esse tipo de reação (dos pais) é muito adolescente. Eu acho que eles inverteram os papéis e isso não educa a jovem, ao contrário: vai ficar com raiva, vai se sentir humilhada e isso não contribui em nada para a formação dela”, alertou a psicóloga.

Segundo Rosely, o impulso que tomou conta do casal é normal em muitos pais. Por isso, ela sempre os aconselha a lembrarem-se de que são eles quem norteiam a relação com os filhos.

“Eu sempre oriento os pais a ficarem pensando o tempo todo: eu sou o adulto da relação, eu sou o adulto da relação”, completou a especialista em educação.
 
Fonte: Band

Criança precisa de limites para o exagero na satisfação do que quer


O Dia das Crianças é uma daquelas datas em que o comércio aproveita para vender. Os pequenos a esperam ansiosos. Junto do Natal e do aniversário, é quando oficialmente ganham presentes. Oficialmente, pois o que se tem visto é que a prática de presenteá-los tem se dado sem critério algum.
 
As pessoas têm comprado muito. Isso se deve a alguns fatores, como a grande variedade de produtos, preços acessíveis (encontramos bonecas por R$ 9) e facilidades de pagamento.
 
Há uma preocupação de que está se formando uma geração de consumistas. Em verdade, essa geração já existe na figura dos pais, que consideram que coisas materiais vão fazer seus filhos e a si próprios felizes. A maioria acredita nisso e adquire bens materiais exageradamente. Alguma coisa ficou perdida no meio do caminho – o que realmente é preciso ter.
 
Para muitos, não possuir algo é estar numa posição abaixo do outro. Geralmente, o desejado é aquilo que o outro tem, não necessariamente o que é visto nas lojas ou propagandas – a grande vilã para muitos. Basta questionar uma criança sobre a razão de querer determinado produto. O referencial acaba sendo externo.
 
Os pais, temerosos de que seus filhos se frustrem, acabam atendendo seus pedidos, por vezes indo além do que o orçamento familiar permite. A frustração faz parte da vida e nos impulsiona a ir em frente, na busca daquilo que falta. Por exemplo, aprendemos a falar pela necessidade de nos fazermos entender. Algumas mães, na urgência de atenderem seus filhos pequenos de modo a não frustrá-los, acabam traduzindo o que querem mesmo antes que o digam, o que pode atrasar o desenvolvimento da fala. Que necessidade a criança tem de falar se só pelo olhar o outro já o compreende? Caso não seja atendido, ela procurará meios para isso, como se expressar pela fala.
 
O que chama atenção, no entanto, é que estão sempre querendo mais e nunca se satisfazem. Por que será que isso ocorre? Muito provavelmente por não serem coisas materiais que necessitam. Suas necessidades são outras, mas interpretadas dessa forma.
As crianças precisam de mais atenção, carinho e orientação dos pais do que de outras coisas. E limites claros e consistentes. Inclusive para o exagero na satisfação de seu querer. Lembrando aquela velha máxima – querer pode, ter já é outra história… e está condicionado a parâmetros reais, como se é necessário e se cabe no bolso dos pais.
 
Então, quer dizer que agora não devemos presentear mais os pequenos? Pelo contrário. Devemos sempre presentear, mas sem exageros. O melhor jeito de se fazer é evitar dar presentes a qualquer tempo, limitando-os às datas oficiais – Dia das Crianças, Natal e aniversário.
 
A quantia a ser investida é questão essencial. Desde cedo as crianças devem saber o valor das coisas. Ela não deve exceder às possibilidades financeiras da família – tanto para não trazer problemas óbvios, como dívidas, quanto para não assinalar à criança que não há um limite na vida. No caso de todos estarem de acordo da necessidade de um produto de valor maior, pode-se fazer um pacote, juntando os presentes de duas datas oficiais em um só.
 
Feliz Dia das Crianças a todos, sem muitos gastos e com muita alegria.
 
Fonte: G1

Como enfrentar a tirania infantil


Se o exemplo não está em família, certamente todo mundo conhece alguém que enfrenta problemas com criança excessivamente mimada, birrenta, que inferniza a vida dos que estão ao redor quando é contrariada. As reações são típicas: cara feia, braços cruzados, choro, gritos e que perduram até conseguir o que deseja.

As consequências imediatas são conhecidas: os pais viram reféns do filho, que se transforma em um pequeno tirano do lar, a relação do casal é prejudicada, assim como o convívio social. Já as consequências futuras podem ser ainda piores, como alerta a psicóloga Paula Pessoa Carvalho.

"No futuro, ela poderá ter dificuldade de relacionamento, pois não saberá aceitar o que é diferente, tornando-se um adulto intolerante que não sabe lidar com a frustração. Os pais devem entender que o filho irá crescer e enfrentar situações onde não estarão presentes. Por isso, devem criá-lo para conviver em sociedade, preparado para se relacionar com outras pessoas e lidar com situações nem sempre favoráveis", diz a psicóloga, especializada em comportamento infantil e orientadora educacional.

Mas que fique o aviso: não se trata de voltar ao modelo antigo, quando bastava um olhar mais severo para a criança encolher. Paula Carvalho enfatiza que o zelo sempre é essencial para uma criança, o problema são os excessos. "Na sociedade em que vivemos os pais querem compensar a ausência com permissividade e cuidados. Porém, sua ausência em razão de necessidade de trabalho não pode ser utilizada como "desculpa" para não impor limites e educar bem os filhos".

Criança sabe manipular situações

O mimo exagerado pode ser consequência da superproteção ou mesmo de certa negligência, já que há quem ache mais fácil atender aos desejos do que impor limites e gastar energia discutindo com a criança.
Mas não se engane: as crianças desde pequenas aprendem a manipular as situações perante os adultos, principalmente quando esses se deixam manipular por excesso de ausência ou para suprir outras necessidades. "Desde pequena, a criança deve ter limites de educação e respeito. Os pais não devem ceder aos pequenos, ensinando para eles o respeito ao próximo", afirma Paula Carvalho.

Segundo ela, é preciso ter em mente que a criança está aprendendo a como lidar com tudo em seu desenvolvimento psicossocial. "Ela irá testar os adultos, cabe a esses estarem prontos para mostrar ao filho o que é certo e errado, ensinando a se relacionar com o que é diferente, dar segurança para a criança, autonomia, discernimento. E para isso é preciso dar amor, limites, respeitar os pequenos e nada pode substituir essa necessidade, muito menos o excesso de proteção".

Os riscos da superproteção

Autor do livro "Seu bebê em perguntas e respostas - Do nascimento aos 12 meses", o pediatra Sylvio Renan é defensor do amor e do diálogo entre pais e filhos, mas faz algumas ressalvas: "Toda criança precisa de atenção e cuidados especiais. Porém, nossos pequenos necessitam, também, crescer e descobrir um mundo repleto de desafios e gostosuras. É preciso que os adultos permitam a seus filhos liberdade, ensinando responsabilidade. Privar e superproteger interfere no progresso, seja físico ou psicológico da criança. Proteção exagerada pode gerar instabilidades, receios, ansiedades e angústias, dificultando que estas crianças se tornem indivíduos adultos independentes", esclarece.

O pediatra aconselha que se dê aos filhos a oportunidade de crescer como pessoa, de poder enxergar o mundo com seus próprios olhos, de viver momentos mágicos, encontrar desafios e novas descobertas, superar seus medos e inquietações. "Isso faz parte do desenvolvimento de qualquer pessoa. Lembre-se: Quem ama, cuida. Quem ama, permite! Mas também disciplina e impõe limites!".

Como controlar a agressividade?

O comportamento agressivo é uma atitude muito comum na infância e se manifesta geralmente no ambiente escolar, porque as crianças ficam envolvidas com outras crianças, tem que lidar com frustrações, regras e limites. "Esse ambiente pode propiciar manifestações de sentimentos que as crianças ainda não sabem controlar, como raiva e irritação, fazendo com que ela se comporte de forma agressiva", informa Paula Carvalho.

A psicóloga orienta os pais para não manifestarem comportamentos agressivos diante das crianças, mesmo que seja somente na forma de falar. "A criança exposta a tal ambiente reproduzirá esse comportamento em casa ou em qualquer outro ambiente com outras crianças, com os animais domésticos e também com os adultos".

Para a criança deve ficar claro que comportamentos inadequados como xingamentos, brigas, beliscões, tapas e qualquer outro não são corretos e não serão aceitos e que dessa forma ela não resolve as situações e nem consegue o que quer.

O que se recomenda é os pais conversarem com a criança e colocare consequências a essas atitudes. É importante retirar a criança da situação, do ambiente em que ela está sendo agressiva e fazer com que ela reflita sobre o que ela fez para que ela entenda que aquele comportamento não será tolerado. Sempre deixe claro para a criança, por qual comportamento ela está sendo punida. E não volte atrás. Lembre que para a criança tudo é atenção, inclusive uma bronca ou um castigo".

Pais sofrem por não ter certeza se estão mimando os filhos ou não

Conforme as crianças crescem, estabelecer limites, rotinas e expectativas se torna mais complicado
Uma mãe me perguntou na semana passada se eu achava que ela estava mimando o filho. Era a versão típica da pergunta de consultório pediátrico: com a voz cansada e cheia de dúvidas de um parto recente, ela se questionava se estava correto pegar e amamentar o bebê chorão.
Hoje em dia, muitos pais se perguntam sobre a questão do mimo. Uma resenha recente de um livro de Elizabeth Kolbert na revista "The New Yorker" comparou, desfavoravelmente, crianças norte-americanas com as autossuficientes e competentes crianças de uma tribo da Amazônia peruana. Ela discutiu a noção de, talvez, estarmos criando uma geração que não consegue ou, pelo menos, não quer amarrar os próprios sapatos.
Uma coluna sobre criação dos filhos no "The New York Times" reconheceu que as observações de Kolbert puseram o dedo na ferida de muitos pais contemporâneos; mais recentemente, um artigo opinativo aconselhava os pais a parar de proteger os filhos de cada decepção.
Claramente, estamos vivendo outro daqueles momentos –e eles se repetem, ao longo das gerações– quando os pais se preocupam que talvez não estejam cumprindo seu papel e que a próxima geração, em consequência, corra grave perigo. Em convulsões culturais sobre o quanto as crianças são mimadas, adultos com olhar de censura lembram com carinho dos rigores de sua própria infância. Porém, muitos dos mesmos pais (e avós) que agora se preocupam integraram a geração que Spiro T. Agnew, vice-presidente de Richard Nixon entre 1969 e 1973, acusou de ter sido mimada pelo Dr. Benjamin Spock.
Na verdade, a criança cheia de privilégios e mimada demais era um personagem típico dos romances do século XIX: como governantas veteranas que presumivelmente sabiam do que falavam, as irmãs Brontë escreveram retratos poderosos de crianças mimadas mais velhas. A cultura muda, mas muitos campos de batalha permanecem os mesmos.
No consultório pediátrico de hoje em dia, os pais muitas vezes citam o mimo, como a mãe da semana passada, em referência ao sono e à alimentação dos bebês pequenos. É como se as perguntas mais desconcertantes sobre como reagir às demandas de uma criança se cristalizassem naqueles primeiros meses quando o recém-nascido chora e os pais se preocupam.
A linha pediátrica oficial –falei algo do gênero à mãe da semana passada– é que não se mima um bebê cuidando bem dele, mas nem essa resposta se revela simples. "É importante se fazer presente, ser responsivo e responsável, mas não quer dizer que se deva atender a todos os caprichos do bebê", diz a Pamela High, professora de pediatria da Universidade Brown e diretora médica da Clínica Fussy Baby, do Centro Brown para o Estudo das Crianças. "Você lhes ensina padrões, rotinas e regularidade."
Os pais podem suprir as necessidades do bebê ao mesmo tempo em que lhe dão a chance de aprender a se acalmar e dormir sem estar no colo. Num estudo aleatório sobre bebês com cólica publicado neste ano pelo grupo de High, quando os pais receberam ajuda em relação à alimentação, sono, rotina e sua própria saúde mental, os nenéns com cólica choraram menos e dormiram mais.
Conforme as crianças crescem, estabelecer limites, rotinas familiares e expectativas se torna mais complicado. Contudo, ainda é uma questão de equilibrar a gratificação imediata e lições maiores sobre a vida.
Essa também é uma área na qual ainda nos sentimos à vontade e no direito de culpar e julgar outros pais –e a nós mesmos.
Comportamentos problemáticos na infância antes atribuídos a uma criação incompetente ou destrutiva agora são compreendidos como sendo de nascença, determinados pela genética, refletindo diferenças neurológicas. Já não culpamos uma má criação pelo autismo ou pelo Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Entretanto, a palavra "mimado" evoca traços e comportamentos aos quais rapidamente atribuímos a responsabilidade dos pais. Como Roald Dahl escreveu em 1964, em "A fantástica fábrica de chocolate", "uma menina não pode mimar a si mesma, não é?".
Mark Bertin, pediatra especializado em desenvolvimento e comportamento, de Pleasantville, Nova York, ligado à New York Medical School, vê uma ampla gama de crianças com problemas de comportamento, distinguindo as contribuições do sistema neurológico, do temperamento e do estilo da família.
Embora o estilo de educação seja difícil de estudar, ele cita um acervo de pesquisa que, de forma crescente, sugere que a criança se beneficia com estratégias para a formação do autocontrole e da capacidade de recuperação emocional.
"Estamos falando de crianças educadas sem limites. Todos nós queremos que nossos filhos sejam felizes o tempo todo, mas existem capacidades que são aprendidas quando se cresce com limites e a oportunidade de vivenciar a frustração."
Os desafios de falar não e de estabelecer limites para os pais de crianças pequenas costumam girar em torno de comida, sono e acesso à mídia. "Ao estabelecer limites, nós lhes estamos ensinando quais são nossos valores e a forma pela qual pensamos que podem ter uma vida mais produtiva e feliz", diz Pamela High.
Com outras crianças, entramos na questão de possuir coisas. "Quando penso em mimar, estamos falando em atenção e em coisas", afirma High. "Não creio ser possível mimar com excesso de atenção ao que seus filhos estão fazendo, pensando ou sofrendo, mas creio que, às vezes, é necessário ser cuidadoso em relação às coisas."
Não é preciso ser rico para encher uma criança de coisas. E oferecer artigos que substituam a atenção dos pais é particularmente problemático. A criança com um televisor enorme no quarto e acesso irrestrito a todos os tipos de telas é muito mimada ou muito negligenciada?
Não sei dizer se as crianças de hoje em dia são mais mimadas ou se mais crianças são mimadas. Existem diferenças reais na criação ao longo do tempo, algumas refletindo as trajetórias maiores de abundância e tecnologia presentes na cultura. Porém, também existem os períodos recorrentes de autoanálise e autocrítica que refletem o envolvimento adulto com a paternidade ou a maternidade. Seja qual for a geração, responder aos desejos e necessidades das crianças enquanto tentamos lhes ensinar lições que irão lhes robustecer a personalidade é uma missão complicada. Às vezes, independentemente do que façamos, metemos os pés pelas mãos.
Fonte Uol

Ele é o rei da casa. Adivinha quem são os súditos?


Talvez a maior dificuldade na educação de crianças e adolescentes seja o estabelecimento de limites. Nesse contexto, alguns pais vivenciam os dissabores diante das restrições, muitas vezes acreditando que ao frustrar seus filhos estão fracassando enquanto pais, ou mesmo acreditando que dizer “sim” pode evitar sofrimento diante dos limites do mundo. Ambientes com excesso de facilidades e escassez de exigências comumente são contextos que favorecem o surgimento de comportamentos de difícil manejo que se agravam com o decorrer do tempo, podendo levar ao desenvolvimento de transtornos comportamentais.
Decerto que cuidar é uma tarefa prazerosa. Porém, também se torna árdua quando os responsáveis precisam lidar com certos eventos, como os gritos, o choro, a desobediência, a oposição e a resistência infantil. Todos esses comportamentos são previstos quando se estabelece regras e limites. Embora as crianças tenham vivenciado suas limitações físicas diante de um novo comportamento (como andar), as primeiras experiências de frustrações nas relações sociais são singulares. Sua importância se dá pelo fato de proporcionar o contato com algo inevitável: as regras sociais e os limites nas relações interpessoais. Aproximar-se desse contexto é fundamental e, quanto antes isso ocorrer, mais adaptativo será o comportamento social.

No entanto, lidar com a resistência infantil por vezes é tão aversivo que os pais agem de forma a evitar a birra e o choro. Assim, facilitam atividades diárias, são permissivos (ou como dizem “deixam à vontade”), diminuem ou extinguem as exigências, concedem o que a criança pede (mesmo o desejo não sendo permitido ou desejável), cedem a birras (trocam o “não” pelo “sim”), entre outros.
Cabe destacar que os jovens de hoje estão inseridos em uma cultura onde tudo é acessível: a informação está por todos os lados, o contato com a tecnologia diminui os esforços físicos e cognitivos, a sociedade em que estão inseridos valoriza e favorece o consumo e os bens acabam se tornando descartáveis, dispensando a necessidade de conservação. Ao passo disso, os cuidadores vivenciam a rotina de trabalho excessiva, que favorece o distanciamento físico e afetivo deles em relação aos filhos. Trata-se de um contexto bem diferente das gerações anteriores, que pregavam o esforço e o merecimento, pré-requisitos para que objetivos e a sobrevivência pudessem ser atingidos.

Alguns pais – movidos pela culpa diante da ausência no cotidiano dos filhos – realizam concessões que podem prejudicar a aprendizagem de regras culturais e morais importantes. Há quem acredite que dizer “não” é prejudicial por impor sofrimento à criança e que permitir é proporcionar a felicidade e a adequação social. Porém, em relacionamentos paternos em que prevalecem concessões excessivas (sem critérios e sem limites), os papeis são invertidos: quem dita a ordem é a criança, e o pai é quem obedece.

Assim, a criança vive um reinado em que tudo é possível, bastando pedir, sinalizar um desejo discretamente ou mesmo impondo sua vontade. Os pais acabam se submetendo à sua vontade, seja “visando a sua felicidade” ou mesmo para evitar o sofrimento das crianças diante das limitações vitais. Eles se transformam em súditos também para evitarem a própria sensação de fracasso em não poderem realizar o desejo do filho. Eis então que paira um questionamento: se não é possível uma vida sem frustrações, como prepará-los para o mundo se os pais buscam proporcioná-los apenas êxitos?
Ao contrário do que se pensa, frustração não é algo de adulto ou de perdedor. Caso os pais não estabeleçam limites quando necessário, a tolerância à frustração infantil não será desenvolvida adequadamente, de modo que a criança terá dificuldades em aceitar as restrições que a própria vida impõe, apresentando respostas emocionais e comportamentos desadaptativos. Além disso, é possível que o infante sofra rejeições sociais, pois nas brincadeiras em grupo não apresentará “espírito esportivo”: será o responsável pelas regras do jogo, competindo e desejando apenas vitórias. Quando estas não forem possíveis, a criança poderá agir de forma agressiva ou mesmo apresentando trapaças para evitar fracassos. Ao contrário do que podem pensar os pais, estabelecer limites não é ser cruel ou proporcionar infelicidade. Na verdade, as crianças ficam até mais felizes e seguros ao saberem do que se espera deles e de quais caminhos precisam trilhar para obterem êxitos.

Embora haja aqui uma ênfase no estabelecimento de limites, de forma alguma há a recomendação de severidade nos cuidados. Os extremos são igualmente nocivos ao desenvolvimento infanto-juvenil. A ausência de regras e limites favorece o surgimento de padrões comportamentais desafiadores e opositores, falhas no desenvolvimento pessoal e social, além de desenvolver comportamentos antissociais (delinquência juvenil, psicopatias e sociopatias) e aditivos (uso de drogas). Ao passo disso, padrões autoritários já são responsáveis por outros prejuízos, como níveis significativos de ansiedade, humor deprimido, baixa autoestima e estresse. O ideal seria o estabelecimento de regras e limites juntamente com o afeto, de modo equilibrado. Vejamos.
Antes de tudo, a família deve entrar em um consenso quanto aos limites a serem ensinados. Estes se referem ao que é permitido e o que não pode ser feito, quais as regras que regem aquela família e quais valores devem ser cultivados. Nesse delineamento, é importante que sejam consideradas a cultura, as peculiaridades daquela família e a idade dos filhos. Quando os pais conseguem estabelecer acordo quanto aos limites é mais fácil de haver consistência e, consequentemente, aprendizagem dos filhos.
O próximo passo é apresentá-los à criança/ adolescente, por meio de uma conversa, descrevendo claramente as consequências caso haja descumprimento das regras. É válido não só descrever os limites, mas lembrá-los periodicamente para que possam ser mantidos. O uso de uma linguagem adequada, clara e concisa se faz necessário para assegurar compreensão e aumentar a probabilidade de obediência.
Após o “acordo”, é necessário que os pais ajam com consistência e firmeza. Se a regra foi estabelecida e não é possível modificá-la, é importante não hesitar diante da resistência infantil. Os filhos conseguem identificar quando uma regra pode ser quebrada, testam os limites dos pais diante de suas resistências. Identificando que um “não” pode se transformar em “sim”, e tendo a hipótese comprovada, se torna mais provável que haja resistências no seguimento de regras na próxima oportunidade. Se isso ocorrer de forma crônica, a regra perde o seu efeito e quem as dita em casa é a criança, ao invés dos pais. Cabe ressaltar que as regras também podem ser modificadas, conforme a avaliação da família. Se uma regra não está sendo cumprida, algo não ficou bem estabelecido: ou ela é inadequada àquele momento ou a criança não entendeu, necessitando de revisão.
As consequências diante do respeito aos limites estabelecidos e do descumprimento também são dignas de discussão. Ao mesmo tempo em que as consequências precisam ser adequadamente apresentadas diante de regras burladas, o cumprimento das mesmas devem ser seguidas de consequências positivas, seja com elogios, atenção ou uma recompensa. Estas medidas simples tem resultado mais efetivo e menos danoso que as punições diante do comportamento inadequado.
Além disso, cabe ressaltar que os pais também devem fornecer o modelo em seguir regras. É incoerente cobrar obediência a elas se os pais burlam normas familiares ou sociais, desejando que apenas o comportamento verbal seja seguido pelos filhos ao invés daquele que emite (o observável). Verbal ou motor, o comportamento é emitido pelo mesmo modelo, fator que denota a relevância de ambos para a aprendizagem.
Na orientação clínica diante de limites, é comum que os pais retruquem que é fácil falar sobre isso, mas que é difícil fazê-lo. Muitos já tentaram, mas diante das dificuldades, desistiram. Percebe-se uma série de padrões comportamentais dos pais que interferem no estabelecimento de limites, como a intolerância à frustração, o déficit no repertório de habilidades sociais (sobretudo quanto a negar pedidos), e crenças desadaptativas que associam amor a superproteção e liberdade à permissividade. Cabe a cada pai avaliar seu repertório e, diante das dificuldades, procurar ajuda profissional. Muito provavelmente esses padrões aparecem não só no relacionamento com os filhos, mas em outros âmbitos, o que torna a psicoterapia válida pois abrangerá não só um âmbito da vida (paternidade/maternidade), mas a vários (relacionamento conjugal e profissional, por exemplo).
E retomando ao título do texto, o interessante é que não haja castelos, reis e súditos. O que a criança precisa é de um lar como ele é: com segurança, mas também vulnerabilidades. Que haja proteção, mas não em demasia. Ela precisa de pais, não de reis invulneráveis e absolutos (e tampouco ditadores). A liberdade é desejável, mas as restrições são necessárias. A criança necessita, sobretudo, que os pais mostrem as regras do jogo chamado “vida”: viver é lutar, gozar de ganhos, mas também é lidar e aceitar as perdas e limitações.
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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada - InPA
Telefone - (61) 3242-1153

Pequenos Rebeldes


É comum que crianças pequenas façam birra; algumas, no entanto, são propensas a crises mais violentas. Em certos casos, o acompanhamento profissional pode ajudar a evitar a agressividade crônica.
Isabela tem acessos de raiva no supermercado sempre que a mãe se recusa a comprar algo que ela quer. A pequena Beatriz berra ferozmente quando a mãe interrompe sua brincadeira para que tome banho ou mude de roupa. Vinícius, um adorável ruivo de pouco mais de 17 meses, morde móveis e brinquedos assim que alguém lhe diz “não”. Nesses momentos, parece inútil conversar com os pequenos de forma racional. Ameaças e punições também não detêm os gritos, a agitação e as agressões. Mas as cenas terminam de forma tão rápida como começaram e a própria criança, em geral, se aconchega junto aos adultos em busca de carinho. Em situações como essas é comum que os pais se sintam impotentes para controlar as crises.
Os acessos de mau humor são comuns em crianças que têm entre 15 e 18 meses. Na maioria dos casos, refletem apenas um estágio de desenvolvimento em que independência e vontade própria se chocam com imaturidade emocional e verbal. “Acessos de fúria fazem parte do desenvolvimento da criança”, diz o psiquiatra e terapeuta de família Manfred Cierpka, da Universidade de Heidelberg, Alemanha.

Os pais devem se preocupar apenas quando esses ataques de raiva ocorrem mais de cinco vezes por dia, sendo extremamente difícil acalmá-los. Durante esses acessos, os pequenos rebeldes podem destruir objetos ou se mostrar agressivos com adultos e outras crianças e, até se machucar ocasionalmente, arranhando-se até a pele sangrar ou batendo a cabeça contra a parede.

Ataques de fúria freqüentes, assim como manifestações autodestrutivas, merecem atenção profissional. Além de emocionalmente extenuantes para pais e filhos, podem ser indício de problemas psiquiátricos e de comportamento, como depressão e propensão para violência. A conduta pode ter origem em fatores genéticos, socioeconômicos ou ser conseqüência de negligência durante a gravidez, pelo fato de a mãe ter fumado, por exemplo, ou ainda pela forma como a criança é tratada pelas pessoas que cuidam dela. Os estudos mostram que adultos mais autoritários e menos flexíveis em suas atitudes tendem a estimular a agressividade nos filhos.

Contrariamente à idéia convencional de que violência se aprende durante a adolescência, pesquisas recentes mostram que comportamento agressivo, mesmo antes dos 2 anos, pode sinalizar problemas persistentes. Por isso, cada vez mais especialistas enfatizam a importância de evitar expor a criança a experiências dolorosas, principalmente durante os primeiros anos de vida. Infligir violência física aos pequenos pode causar a eles graves problemas psicológicos para toda a vida.

DESEJO DE INDEPENDÊNCIA

O fato é que – embora frustrantes e desagradáveis –, as explosões de raiva de crianças pequenas geralmente são controláveis. Elas expressam emoções que emergem de um cérebro imaturo. Os pais de Sara, de 2 anos e meio, estavam preocupados porque a filha gritava na creche quando a professora intervinha em brigas por brinquedos. “Em casa não conseguimos acalmá-la”, diz a mãe.

Quando os pais de Sara foram fazer uma consulta com Cierpka, no Instituto de Pesquisa Cooperativa Psicossomática e Terapia de Família, o psiquiatra viu poucos motivos para grandes preocupações. Depois de se entreter sem incidentes por mais de uma hora, a menina começou a brincar com a bolsa da mãe, que a arrancou das mãos de Sara. A garota pareceu perplexa e tentou pegar novamente o objeto. A mãe se apoderou da bolsa uma segunda vez dizendo: “O que é isto, Sara? Precisa realmente fazer isto, agora?”. Só então a criança começou a berrar.

Este comportamento é bem característico dessa fase. “Crianças na etapa dos ataques de raiva estão dando um salto gigantesco de desenvolvimento”, diz Cierpka. Não apenas as aptidões motoras estão aumentando rapidamente, permitindo que atuem com independência para explorar o ambiente ao redor, mas também, por volta dos 30 meses, começam a se perceber como indivíduos; como se, subitamente se reconhecessem em um espelho. “Essa percepção permite que uma criança tenha desejos independentes e entenda que suas ações provocam respostas de outros”, diz Cierpka.

O impulso de experimentação, combinado com a consciência das reações de outras pessoas, é uma receita freqüente para angústia, à medida que as explorações e desejos de uma criança pequena muitas vezes incitam “nãos” dos pais e daqueles que cuidam dela. Os adultos geralmente não deixam, por exemplo, que seus filhos comam biscoitos antes do jantar, peguem facas ou brinquem com a carteira de dinheiro da mãe.

Essas proibições provocam decepção e fúria – sentimentos negativos que são inteiramente novos para a criança. Sara, por exemplo, sente raiva com o fato de a bolsa ter sido arrebatada e decepção porque não pode fazer nada a respeito. “Todas essas emoções são extremamente fortes, difíceis de ser assimiladas pelos bebês”, ressalta Cierpka. Incapazes de expressar seus sentimentos com palavras, as crianças pequenas os descarregam com gritos irracionais e um frenesi físico, traduzido em ataques de raiva.

O conselho de Cierpka aos pais: reconheça os sentimentos de seu filho. Por exemplo, a mãe de Sara poderia ter dito calmamente à filha: “Sei que você está com raiva por causa da bolsa, mas ela não é para brincar”. Então, poderia distrair a filha – digamos, tirando um brinquedo da bolsa. Ou, se o pai quisesse interromper uma brincadeira para que a família saísse, poderia se oferecer para brincar com ela depois que voltassem para casa. Tais estratégias permitem que uma criança, como Sara, saiba que os pais estão do lado dela mesmo que ela esteja com raiva, o que acabará possibilitando reações mais elaboradas à angústia.

AGRESSIVIDADE CRESCENTE

Os ataques de irritação podem se tornar mais acentuados em crianças voluntariosas, que tendem a agir e pensar com maior independência que seus pares. Durante uma consulta com Cierpka, Vinícius chorou e berrou sem provocação, sacudiu a perna de uma mesa e a mordeu – uma atuação bem mais exagerada que a de Sara.

Em alguns casos, mais que um fenômeno passageiro, comportamentos excepcionalmente agressivos durante a infância podem ser sinal de problemas persistentes. Uma revisão da literatura, publicada em 1995 pela psicóloga Susan B. Campbell, da Universidade de Pittsburgh, sugere que crianças com problemas de comportamento aos 3 ou 4 anos têm cerca de 50% de possibilidade de apresentar problemas semelhantes no início da adolescência.

Nesses casos, agressão física é o principal motivo de preocupação. Para a maioria dos meninos – bem mais propensos à violência que as meninas –, socos, chutes e mordidas parecem atingir o auge no jardim-de-infância, e depois declinam entre 6 e 15 anos de idade. Em cerca de 4% dos meninos, esse comportamento persiste e eles são mais propensos a serem violentos aos 17.

Ataques extremos de raiva podem, em alguns casos, ser um sinal de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Em um estudo de 2007, os psicólogos Manfred Laucht, do Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim, e Gunter Esser, da Universidade de Potsdam, ambos da Alemanha, estudaram os perfis de desenvolvimento e de comportamento, aos 2 anos, de 26 crianças do curso elementar que apresentavam transtornos semelhantes aos do TDAH. Eles os compararam aos perfis de 241 meninos e meninas saudáveis do primeiro grau, e constataram que os indicadores potenciais de TDAH incluíam agitação, irritabilidade e dificuldade em entender linguagem. Portanto, crianças pequenas que têm ataques de raiva violentos podem ser mais propensos a esses problemas de comportamento.

Genética e ambiente são fatores importantes para a formação do temperamento de cada pessoa. Em particular, aspectos genéticos respondem por mais da metade da variação entre as crianças no tocante à freqüência com que usam agressão física. A psicóloga Ginette Dionne e colegas da Universidade Laval, Québec, avaliaram os níveis de agressão em 562 gêmeos aos 19 meses. Em 2003, os pesquisadores relataram que 60% dos gêmeos idênticos estudados tinham esse traço em comum, enquanto apenas 28% dos gêmeos fraternos, que compartilham metade do genoma, eram semelhantes nos níveis de beligerância.

Atrasos na linguagem também podem intensificar a predisposição genética para comportamento disruptivo e agressivo. Estudos epidemiológicos mostram que entre 60% e 80% das crianças em idade pré-escolar e escolar, cuja fala se desenvolveu lentamente, exibem tais comportamentos, em comparação com 20% na população geral. Dionne- e colegas, que estimaram as aptidões de linguagem dos gêmeos em seu estudo, porém não encontraram associação forte entre linguagem e agressão por volta de um ano e meio de idade. Em muitos casos, a agressão surge antes de quaisquer problemas com a linguagem, sugerindo que um atraso na linguagem não causa, mas aumenta a agressão: as crianças podem ficar frustradas com a incapacidade de se comunicar, ou usar os punhos quando não conseguem produzir as palavras certas.

INFLUÊNCIA DOS PAIS

O comportamento parental, começando no útero, pode ter um efeito significativo no temperamento de uma criança. Em um estudo publicado este ano, o psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal, relatou que o tabagismo pesado (10 ou mais cigarros por dia) por parte da mãe durante a gravidez estava associado com agressão em 1.745 crianças nascidas em Québec, com idades entre 17 e 42 meses. Cientistas acreditam que o tabagismo perturba o desenvolvimento cerebral do feto.

Os psicólogos também estão convencidos de que a conduta dos pais influencia a estabilidade emocional dos filhos. Adultos que deixam uma criança angustiada fazer o que quiser ou que reagem de maneira autoritária estão procurando encrenca. As reações dos pequenos às regras negligentes ou draconianas costumam ser agitação, rebeldia e, em alguns casos mais raros, apatia.

Um estudo de 2008 com 1.508 crianças de escola elementar, realizado pela psicóloga clínica Mireille Joussemet, da Universidade de Montreal, corrobora a ligação entre agressão e comportamento controlador por parte das figuras parentais. Pais e mães autoritários gostam de exercer poder, dão valor à obediência e não incentivam o filho a expressar suas próprias opiniões. O estudo encontrou os fatores de risco habituais para comportamento agressivo (julgado, neste caso, pelos professores): ser do sexo masculino, ter temperamento reativo e problemas familiares, como pais instáveis, em constante pé de guerra. Mas, além destes fatores contribuintes, os pesquisadores descobriram que ter uma mãe controladora elevava ainda mais as chances de comportamentos agressivos (TDA/H) no ensino fundamental.

Em um estudo feito em 1996 com 69 famílias que criavam primeiros-filhos do sexo masculino, o psicólogo Jay Belsky, da Universidade de Londres, observou que os pais com maior dificuldade em controlar o comportamento dos filhos nas idades entre 15 e 21 meses eram os que davam ordens sem qualquer explicação. Eles não se preocupavam em dizer, por exemplo: “Não mexa nessa faca porque ela pode machucá-lo”. Pais que promovem diretrizes e democracia numa família têm maior probabilidade de ter filhos bem ajustados, acreditam os psicólogos.

Os fatores socioeconômicos e familiares também devem ser considerados. No estudo sobre o fumo, de 2008, por exemplo, os efeitos do tabagismo sobre a agressividade eram maiores se a família tivesse uma baixa renda ou a mãe apresentasse uma história de comportamento anti-social. E o estudo de Belsky, de 1996, concluiu que nas famílias consideradas problemáticas era maior o número de pais desajustados. Uma personalidade hostil pode, afinal de contas, “equipar” mal uma pessoa para lidar com sentimentos de frustração.

Além disto, conflitos conjugais contribuíam negativamente. Em particular, a dificuldade parecia florescer quando um dos pais expressava emoção negativa e, ao mesmo tempo, minava o papel parental do cônjuge – como interromper o outro ou dar instruções conflitantes ao filho. Em geral, a qualidade conjugal, contudo, não se revelou um fator importante nesse estudo.

No caso de Vinícius, Cierpka especula que problemas conjugais podem estar, em parte, na raiz dos seus ataques de raiva. O pai do menino é uma presença inconstante: sai de casa sem aviso prévio por longos períodos e não informa à esposa onde está nem o que está fazendo, o que a deixa magoada e ansiosa. Sem perceber o que faz, a mãe transmite a própria raiva e insegurança ao filho, cujos acessos de raiva podem representar um pedido desesperado de atenção, de que ele precisa para aliviar sua própria insegurança.

Cierpka também percebe um problema mais superficial: assim que Vinícius se irrita, a mãe o puxa até ela para consolá-lo. Essa ação tende a reforçar a conexão entre agitação hostil e amor. Cierpka aconselha a mãe a consolar o filho somente depois que ele tiver começado a se acalmar, recompensando-o por recuperar o equilíbrio.

PREVENÇÃO POSSÍVEL

Já que agressividade precoce pode ser um indício de violência futura, atividades que abrandam e previnem ações hostis em tenra idade podem ajudar a restringir o número de jovens que se tornam violentos. Embora nenhum programa pré-escolar tenha comprovado sua eficácia nesse sentido, estudos experimentais de prevenção sugerem o que poderia funcionar. Uma intervenção denominada “programa pré-escolar de Perry”, que se concentrou em impulsionar o desenvolvimento afetivo e cognitivo de crianças de baixa renda, com idades entre 3 e 4 anos nos Estados Unidos, reduziu significativamente o comportamento criminal nos homens.

Outra abordagem promissora poderia ser a exploração da ligação entre atraso na linguagem e a agressão, tendo como alvo as crianças que exibem o déficit e trabalhar com elas para superá-lo. Isso pode ser feito por meio de estimulação verbal intensa e também com acompanhamento psicoterápico para que tenham a chance de lidar com a própria frustração de forma menos destrutiva. Além disso, é possível ensinar às crianças práticas sociais, como ser prestativo, consolar os outros, partilhar e encontrar meios alternativos de reconhecer a própria raiva. Nos casos em que atitude parental autoritária se manifestar, uma psicoterapia dirigida pode ajudar a quebrar o ciclo de comportamento agressivo-opositivo na criança e a punição infligida pelos pais.

Pesquisas mostraram que pelo menos um gene influencia a agressão nos seres humanos. Homens que sofreram maus-tratos quando crianças tiveram probabilidade maior de serem condenados por um crime violento antes dos 27 anos, se possuíssem uma forma mais curta do gene para uma enzima chamada monoaminooxidase A. No futuro, à medida que os pesquisadores tiverem mais conhecimento genético sobre comportamento agressivo, esses achados moleculares poderão levar a medicamentos que poderão ser associados com ações comportamentais para combater tendências violentas em jovens.(Tradução de Vera Paula de Assis)

CONCEITOS-CHAVE

- Ataques de raiva ocasionais são normais nas crianças durante os primeiros três anos de vida, à medida que independência crescente se choca com imaturidade emocional e verbal.

- Acessos de fúria freqüentes, associados a atitudes autodestrutivas, como bater a cabeça ou arranhar-se, revelam indícios de comportamentos mais graves, incluindo propensão para a violência.

- Fatores genéticos são um dos motivos que desencadeiam agressividade infantil. As outras causas estudadas são o tabagismo durante a gravidez, atraso na linguagem, condição socioeconômica e certos estilos parentais. Ações preventivas com programas já na pré-escola podem reduzir o número de jovens que se tornam cronicamente violentos.

PARA CONHECER MAIS
A linguagem e o pensamento da criança. Jean Piaget. Martins Fontes, 1999.
Behavioural outcome of regulatory problems in infancy. J.-O. Larsson em Acta Pæediatrica, vol. 93, nº 11, págs. 1421-1423, 2004.
Controlling parenting and physical aggression during elementary school. Mireille Joussemet et al. em Child Development, vol. 79, no 2, págs. 411-425, de 2008.
Understanding development and prevention of chronic physical aggression: towards experimental epigenetic studies. Richard E. Tremblay em Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, vol. 363, nº 1503, págs. 2613-2622, 2008.

Fonte Revista Mente e Cérebro

Pequenos Tiranos

Muitas crianças têm seus desejos atendidos pelos pais como se fossem ordens que devem ser cumpridas sem questionamento. A conseqüência é o exercício do poder marcado pela arbitrariedade; sem limites, também não há possibilidade de satisfação

Como nos tornamos aquilo que somos? Essa pergunta, para a qual se buscaram (e ainda se buscam) respostas nas mais variadas áreas do conhecimento, conduziu Freud à descoberta do inconsciente. O homem não é senhor em sua própria casa, suas ações são determinadas por desejos e motivações que ele mesmo desconhece. A psicanálise surge como uma forma de tratamento que visa tais determinações, revelando paradoxos do desejo que evidenciam a existência da divisão entre a consciência e o inconsciente.

Essa subjetividade não é, entretanto, um dado a priori, é efeito de um árduo trabalho psíquico, por meio do qual é possível encontrar os instrumentos necessários para a entrada na cultura, pagando o preço do recalque e de uma divisão subjetiva sem a qual não haveria inscrição na ordem simbólica que orienta os caminhos do desejo. A família encontra aí seu papel fundamental, pois é nela que se recolhe, peça por peça, cada um dos instrumentos necessários para que se encontre lugar na cultura. A família adquire, nesse contexto, seu caráter e sua função de transmissão.

Podemos pensar em um caso particular dessa transmissão de recursos para a entrada na ordem social: o dos pequenos tiranos. Um trecho de conto infantil auxiliará a reflexão acerca de como essa transmissão regula a relação com o desejo, a lei, os valores morais, o narcisismo, e de como o sujeito se apropria dela. Como situar a posição dessas crianças, tanto de sua própria posição subjetiva como do ponto de vista dos vínculos familiares e daquilo que, desse laço, se transmite?

No início da história, somos apresentados ao desejo do casal de ter um filho. Como em todo desejo, há a marca de uma função simbólica: caberá ao príncipe ocupar seu lugar na linhagem paterna, herdando o reino de um pai que, por sua vez, herdou-o de seu próprio pai, numa ordem de gerações que conduz ao primeiro pai sobre a terra.

A família é, em essência, esse lugar de transmissão psíquica, que conta com o desejo dos pais e o lugar simbólico destinado à criança: “serás rei como eu”. A criança encontrará nesse espaço simbólico o ponto de sustentação de seu narcisismo e a organização psíquica que lhe permitirá situar-se como eu – unidade ilusória, mas estruturante, que assegura ao sujeito a consciência de si mesmo como um todo. Temos aí a função alienante do desejo do Outro que, ao mesmo tempo, sustenta o narcisismo e serve de suporte para a eleição dos ideais a serem alcançados: “serei rei”. É na exigência de responder a esse ideal narcísico que o super-ego exerce sua função.

Ocorre que, entre o que se é e o que se realiza desse ideal, há sempre um hiato, uma distância. Essa distância situa o sujeito, em sua essência, marcado por uma falta. Trata-se do que a psicanálise denominou castração, o sentimento de que falta algo, quando se tem no horizonte a referência a um ideal.

Entretanto, é justamente porque há falta que há algo a buscar – e é nessa busca que nos situamos como desejantes. O desejo é sempre condicionado pela falta, própria do ser humano. É uma condição que ao mesmo tempo nos aliena na busca do narcisismo perdido e nos lança em direção à vida, orientados pela aposta na realização de nossos desejos.

Como o principezinho do conto se conduz em relação ao que lhe falta e como isso o faz funcionar psiquicamente? A tirania do príncipe é a tirania do desejo. Seu desejo adquire o estatuto de ordem e a conseqüência é o exercício de um poder marcado pela arbitrariedade de sua vontade: “Mandou cortar todas as árvores, porque um dia lhe caiu uma ameixa na cabeça; mandou estrangular os pássaros, um a um, porque cantavam de manhã muito cedo e isso atrapalhava seu sono; ordenou que sua mãe fosse presa no 749o andar da mais alta das suas torres, porque ela tinha se atrevido a mandá-lo fazer os seus deveres reais”. Quanto maior a arbitrariedade de suas determinações, guiadas não pela lei, mas por seus caprichos, tanto maior a demonstração do peso de seu poder. Um poder tirânico que é exercido à revelia do desejo dos pais, impotentes diante do filho.

Que os pais sofram com o comportamento da criança não quer dizer, entretanto, que não estejam diretamente implicados nele. Como nos ensinou Freud, temos sempre nossa parcela de contribuição naquilo de que padecemos. Não é a própria rainha que diz ao filho “tu és o meu reizinho, o meu único rei, e os teus desejos são ordens”? Não é em resposta a esse desejo da mãe que o principezinho orienta suas ações? Não é como rei, como único rei, que ele se apresenta assim que o tiram de sua redoma de vidro?

Isso não significa, porém, que a resposta que o principezinho oferece não seja sua própria resposta. Afinal, coube a ele, e a ninguém mais, posicionar-se diante do desejo do Outro. É ele quem escolhe afirmar, diante do rei pai: “Passa para cá a sua coroa!”. Nesse sentido, não podemos considerá-lo uma vítima passiva diante do desejo do Outro. Ele produz sua resposta e é justamente ela que faz dele o que ele é: tirano.

Não nos esqueçamos, porém, de que ao formular sua resposta o principezinho encontra eco na postura do pai, que lhe entrega a coroa sem dizer uma palavra, “porque nunca havia dito não a ele, nem quando tinha 1 dia, nem quando tinha 3 meses. Como proibi-lo então de alguma coisa aos 7 anos?”. Tal é o dilema desse pai real, que escolhe ceder seu lugar porque lhe parece demasiado pesada a tarefa de ferir o narcisismo do filho para quem nunca fora possível dizer não. É assim que algo se transmite nessa família real, que testemunha, prematura e irresponsavelmente, a transformação do principezinho em rei. O narcisismo intocável do príncipe, a quem não se pode negar nada, é também o narcisismo intocável dos pais, que o criam como criança amada e infinitamente preciosa, numa redoma, servido por uma dúzia de criadas com o que havia de melhor e mais precioso. Protegido de tudo e sem conhecer proibições, não há, para o príncipe-rei de nosso conto, distância entre o ideal a realizar e aquilo que é – delineia-se então uma situação sem lugar para um desejo legítimo, ordenado e orientado simbolicamente pela lei compartilhada socialmente.

“...e viveram felizes para sempre” não parece ser o final que se descortina no horizonte quando o preço pago pela felicidade é a sustentação de um narcisismo que leva a crer num mundo onde não há limites. É justamente isso que nos revela a queixa final do principezinho que, tendo realizado todos os seus caprichos, permanece infeliz, assolado por sentimentos de solidão, tristeza e falta de amor.

Eis o conto:

Num reino longínquo, uma rainha desesperava-se por não ter filhos.

– Temos de ter um! Temos de ter um!, gemia o rei. Para quem ficará este soberbo reino que me deixou o meu pai, que o recebeu do seu pai, e assim sucessivamente, desde a criação do primeiro pai sobre a Terra? A quem entregarei a minha coroa quando os meus ossos se tornarem velhos e quebradiços, quando estiver cheio de cabelos brancos e tolhido de reumatismo?

– Que quadro tão terrível da velhice! Mas não deixa de ter razão: precisamos ter uma criança.

A rainha consultou todos os manuais e os médicos mais poderosos e mais sábios. Por fim, graças aos tratamentos, finalmente engravidou.

– Cuidado, este principezinho será seu tesouro, mas não lhe dêem mimo demais. Não tenham pressa em fazer dele um pequeno rei, preveniu o médico, assim que o bebê nasceu.

Mas mal ele virou as costas, a rainha pegou logo o pequeno príncipe e começou a enchê-lo de mimos.

– Tu és o meu reizinho, o meu único rei, e os teus desejos são ordens.

Os pais meteram o menino numa redoma infinitamente preciosa e, todas as manhãs, uma criada diplomada levava-lhe mamadeiras de cristal com leite da melhor qualidade e mel de abelhas raras. Dormia num colchão de pétalas de rosa colhidas na Abissínia exatamente às 5 horas da manhã -– quando estavam mais frescas -– e em lençóis bordados a ouro. Para servir o menino, uma dúzia de criadas corriam de um lado para o outro durante o dia e, à noite, dormiam a seus pés. Estava protegido de tudo: da mais leve brisa, do menor sopro… Para o aquecer, os pais mandaram construir um sol artificial, que não queimava a pele, mas fornecia vitamina D. Foi assim que o garotinho cresceu, tranqüilamente, em silêncio. Seus desejos eram ordens, sempre atendidas prontamente.

No dia em que completou 7 anos, pareceu conveniente aos pais tirar a criança adorada da sua redoma de vidro.

– Meu pequerruchinho, agora já és grande!, disse a mãe, aproximando-se para lhe fazer um carinho.

– Não sou pequerruchinho coisa nenhuma, disse o príncipe com desdém. E se quer me beijar, autorizo que me beije os pés. É o quanto basta.

Depois, dirigiu-se ao pai:

– Ei, velhote, passa para cá a sua coroa!

O rei entregou-lhe a coroa sem dizer uma palavra, porque nunca havia dito “não” ao principezinho, nem quando ele tinha 1 dia, nem quando ele tinha 3 meses. Como proibi-lo então de alguma coisa aos 7 anos? E foi assim que o principezinho se transformou em rei. Um rei tirano de 7 anos e alguns dias. Mandou cortar todas as árvores, porque um dia lhe caiu uma ameixa na cabeça; ordenou que todos os pássaros fossem estrangulados, um a um, porque cantavam de manhã muito cedo e isso atrapalhava seu sono; determinou que sua mãe fosse presa no 749o andar da mais alta das suas torres, porque ela tinha se atrevido a mandá-lo fazer os seus deveres reais. É o que por vezes acontece quando se é criado numa redoma.

O pior é que, apesar dos seus caprichos, ele tinha sempre um rosto infeliz e gritava:

– Sinto-me sozinho! Estou triste! Ninguém gosta de mim!

Trecho de O principezinho tirano, extraído do blog Gerações Dialogo

Michele Roman Faria é psicanalista, doutora em psicologia clínica pela USP e atualmente desenvolve pós-doutorado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. É autora de Constituição do sujeito e estrutura familiar (Cabral Editora e Livraria Universitária, 2003) e Introdução à psicanálise de crianças: o lugar dos pais (Hacker Editores, 1998).