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“Os pais têm medo dos filhos, de dizer não”

Pediatra fala sobre os principais pecados cometidos contra a infância, entre eles, terceirização da criação, superproteção, confinamento e medicalização das crianças


Os dados são alarmantes. O Brasil já é o segundo país do mundo que mais consome Ritalina, medicação tarja preta usada para controlar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que tem como principais usuários crianças e adolescentes.

Para o médico pediatra Daniel Becker, o quadro é sintomático das condições sociais à quais a infância está sujeita atualmente. Falta de convívio entre a família, crianças confinadas dentro de casa que precisam ser constantemente distraídas e pais que superprotegem e não conseguem dizer “não” aos filhos são alguns desses fatores. “Ao invés de tentar entender da onde vêm esses sintomas, temos preferido mais uma agressão que é a medicalização”, diz.
Em conversa com o Carta Educação, o especialista com 20 anos de experiência na área e cujo TEDx “Crianças, já para fora” teve mais de 150 mil visualizações no YouTube falou sobre os principais “pecados” que estamos cometendo contra a infância e os possíveis caminhos para solucioná-los.
Carta Educação: O senhor fala que, hoje, estamos diante de uma terceirização da infância. Como se dá esse processo?
Daniel Becker: A terceirização da infância acontece em todos os níveis e classes sociais, mas é mais acentuada nas classes média e alta. Os pais estão convivendo muito pouco com seus filhos. Há casais que não se preparam para tê-los, não levam em consideração que um filho ocupa muito tempo e energia, que exige dedicação. Logo, quando chega uma criança na família, sua criação acaba terceirizada em uma creche, por uma babá. Os pais acabam vendo seus filhos, muitas vezes, só na hora de dormir, fazem poucas refeições e passeios juntos, enfim, acabam tendo poucos momentos de convivência. Isso tudo é agravado pelas condições que a sociedade atual impõe: longas horas de trabalho, exigindo, inclusive, que as pessoas trabalhem fora do expediente, à distância nos seus tablets e celulares. Nas classes baixas, a situação é, muitas vezes, mais grave porque nem sempre os pais têm acesso à creche e, para trabalhar, precisam deixar seus filhos com vizinhos, cuidadores. Isso quando não precisam deixar as crianças sozinhas em casa. Nesse contexto, elas ficam totalmente confinadas porque os pais não deixam sair justamente pelas condições de violência das comunidades. Logo, ficam na televisão, nos celulares o dia inteiro.
Carta Educação: Como essa falta de convívio entre pais e filhos afeta negativamente as novas gerações?
DB: Terceirizar a educação é ruim para as crianças, é ruim para os pais. Os filhos acabam sendo educados por pessoas que, muitas vezes, compactuam com outros valores. Além disso, a criança não cria memórias afetivas em família por meio das quais se constrói a coisa mais importante para se educar alguém, a intimidade. Só na intimidade consegue-se dar limites, orientar, conversar sobre assuntos profundos quando mais velhos. Sem convivência não há intimidade e as crianças ficam aleijadas de seus pais que são as figuras guias, afetivas, mais importantes para elas.
CE: As crianças estão também cada vez mais conectadas. Sabemos que a tecnologia traz muitos benefícios, mas quais os efeitos perversos de uma infância confinada, na qual precisam ser constantemente distraídas?
DB: Costumo dizer que a tecnologia não é só inevitável, mas desejável. O mundo moderno caminha para que os aparelhos eletrônicos, principalmente, os telefones celulares sejam a base da nossa comunicação, da circulação de ideias. Mas o sobreuso é prejudicial em todos os sentidos, inclusive, para a saúde física e estudos americanos mostram que as crianças ficam, em média, de 8 a 10 horas conectadas por dia. Isso é, obviamente, muito ruim porque a vida não pode acontecer só no smartphone, tem que acontecer do lado de fora também, nas interações olho a olho.
Na verdade, as crianças migram para a tecnologia porque estão confinadas em casa. As escolas têm cada vez menos espaços abertos e livres e mais sala de aula, conteudismo. Com a energia explosiva que as crianças têm, o único jeito de domar alguém confinado é oferecendo distração permanente e, claro, aquela oferecida pelos telefones é irresistível. Só que o excesso de distração que essa tecnologia traz incapacita a criança para o ócio, para o tédio, para estar com a mente vazia, distraída criando suas próprias histórias. E é tão importante usar a imaginação, a criatividade, é assim que se treina o cérebro para ser criativo e imaginativo no futuro – habilidades muitos importantes, inclusive, para o sucesso profissional. O antídoto para isso tudo é sair de casa, ir para a rua, para a natureza e brincar livremente.
CE: Sobre a mercantilização da infância, é possível educar longe da onda consumista que nos acomete? De que maneira?
DB: A mercantilização da infância se dá, principalmente, em dois ambientes. Primeiro, no ambiente das telas. A televisão, por exemplo, veicula o pior tipo de publicidade que é aquela dirigida à infância, uma publicidade covarde, pois vale-se da incapacidade da criança de distinguir entre realidade e fantasia, usa o amor que ela tem por personagens para vender comida tóxica, brinquedos caros e desnecessários. Além disso, vende marcas da moda e modelos muitas vezes adultizados de aparência. Outro ambiente onde se dá a mercantilização da infância é o shopping, que virou o programa de fim de semana da família brasileira. Os pais levam as crianças para ficar vendo vitrines e pessoas comprando e comprando, fazendo disso o grande objetivo da vida delas. São colocadas naquelas gaiolas cheias de brinquedo enquanto os pais fazem compras, depois vão para uma loja de fast food comer comida ruim, comer doce, engordar. Nesse contexto, as crianças vão absorvendo os valores do consumismo, isto é, a hipervalorização da aparência, valores sexistas, de futilidade, do ter melhor do que o ser. Isso tudo é muito ruim para o desenvolvimento de um indivíduo humanista, antenado ao que acontece na sociedade, participativo. Então, é preciso afastar as crianças desses dois lugares, das telas e do shopping.
CE: Muitos especialistas criticam o excesso de atividades extracurriculares nas quais os pais matriculam seus filhos na ânsia de torná-los adultos mais competitivos. Como o senhor enxerga isso?
DB: Hoje, temos uma cultura que chamamos de escolarização do aprendizado. Existe uma ilusão que a criança só aprende a partir do adulto, então ela fica com a agenda cheia de programas ministrados por adultos. Com três anos, sai da natação, vai para o futebol, depois vai para a capoeira para depois ter aula de inglês. É massacrante. Nas escolas, é a mesma coisa, sai de uma aula entra em outra, não tendo tempo livre de pátio. Só que a gente está esquecendo que isso não prepara a criança para o mundo. As habilidades mais importantes para ser uma criança feliz e um adulto preparado para a vida e, portanto, também feliz são adquiridas no livre brincar, na interação livre com outras crianças e com a natureza. Daí nasce a empatia, a inteligência emocional, a capacidade de tomar decisões, de negociações, de enfrentar desafios e medos, avaliar riscos, as habilidades corporais, etc. A arte de brincar quando criança é a arte de saber viver quando adulto.
CE: O senhor também afirma que os pais passaram a colocar seus filhos em um trono. Quão importante é colocar limites e ter uma relação de autoridade com as crianças? Por que a superproteção da infância é nociva?
DB: A superproteção é consequência dessa falta de convivência, de intimidade. Os pais têm medo dos filhos, de dizer não, dos ataques de birra. Mas os pais que superprotegem impedem que a criança experimente a vida e aprenda com as experiências negativas e sabemos muito bem a importância de errar, de aprender com as frustrações, de entender que o mundo não existe para nos servir, de ter que achar nosso lugar no mundo e saber que isso envolve um processo de sofrimento, de não atendimento das nossas expectativas. Privando a criança das frustrações próprias da infância como ralar um joelho, não conseguir fazer um dever de casa, brigar com os amigos, não ganhar um brinquedo induzimos a formação de crianças narcisistas e com muita dificuldade de lidar com qualquer condição negativa. No futuro, serão adultos mais egoístas, com menos empatia e, provavelmente, infelizes. Os pais não devem se interpor entre os filhos e o mundo. É importante dizer aqui que isso é uma análise das condições sociais da infância, não uma análise para culpabilizar as famílias e que muitos desses “pecados” em pequena dose não fazem mal algum. A criança pode comer um docinho de vez em quando, só não pode comer todo dia. Uma criança que vai uma vez por mês no shopping não vai se tornar uma consumista frenética e assim por diante.
CE: O senhor diz que a medicalização da infância é o pior dos pecados que cometemos hoje contra a infância. Por que e como evitá-la?
DB: Todos esses fatores negativos que elenquei acima tornam as crianças sintomáticas. Elas começam a engordar, dormir mal, ficar birrentas, rebeldes, não prestar atenção, não assimilar o conteúdo escolar, ficar melancólicas, estressadas, mimadas. E, ao invés de tentar entender da onde vêm esses sintomas, analisar essas condições sociais da infância, temos preferido mais uma agressão à infância que é a medicalização. Nos Estados Unidos, 15% de todos os alunos do Ensino Médio estão tomando remédios psiquiátricos, isto é, um em cada seis. E como evitar a medicalização? No particular, pensando no que está acontecendo com nosso filho e, como sociedade, no que está acontecendo com a infância. Uma vez que há uma criança sintomática, existem muitas formas de ajudá-la que não envolvem remédios. Pode-se rever o convívio daquela criança com a família, reduzir o stress que ela é submetida, aumentar o tempo dela ao ar livre, buscar terapias, além de exigir políticas públicas que ajudem nesse sentido.
CE: O senhor propõe como solução mudar nossa relação com o tempo e o espaço. De que maneira? É possível falar de ocupação do espaço público com cidades cada vez mais violentas?
DB: Proponho que pelo menos 10% do nosso tempo seja dedicado aos nossos filhos. Passar uma hora, uma hora e meia convivendo por dia. Tomar o café da manhã juntos, contar uma história antes de dormir são momentos que geram intimidade, afeto, capacidade de educar. A segunda dimensão é mudar a relação com o espaço. Temos uma série de evidências mostrando como o contato com a natureza traz benefícios cognitivos, psíquicos, físicos, para o presente e para o futuro. A natureza melhora a imunidade, favorece a atenção, traz mais felicidade, melhora a memória, a capacidade de absorção de coisas que são ensinadas, favorece a empatia, a disposição física, reduz a obesidade e a insônia. Neste contexto, deve-se buscar o livre brincar. A criança deve brincar livremente com outras crianças, criar jogos, subir em árvore, correr, enfim, participar dessa festa que é a infância. As famílias podem favorecer esse contato, mas, é claro, também precisamos exigir de nossos governantes que haja espaço público para ocupar e que ele seja seguro, além de políticas públicas que nos permitam explorar espaços naturais e conviver. É minha esperança para que possamos ter cidades melhores e cidades melhores implicam em pessoas mais felizes.

Ver Mais discute sintomas e tratamento da hiperatividade e déficit de atenção

Você sabia que o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, é o distúrbio neuro comportamental mais comum na infância e na adolescência? E se não for tratado, o distúrbio pode acompanhar a pessoa no decorrer de sua vida inteira... Nós falamos sobre as causas, os sintomas e os tratamentos  com a psicóloga Kellen Escaraboto. 

Estudo brasileiro mostra que Ritalina não melhora o desempenho neural

Droga não beneficia a atenção nem a memória e pode causar dependência
James Steidl/Shutterstock
 
Prescrito para o tratamento de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e de narcolepsia (crises de sono incontroláveis), o medicamento metilfenidato, comercializado com o nome de Ritalina, tem sido usado sem acompanhamento medico por estudantes que acreditam que a droga pode “turbinar” o rendimento intelectual, diminuindo a necessidade de sono e favorecendo a memória. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no entanto, descobriram que, além de não ter efeitos cognitivos esperados no cérebro de pessoas saudáveis, a “pílula da inteligência” ainda pode aumentar a chance de desenvolver problemas cardiovasculares.



A psicóloga Silmara Batistela dividiu 36 voluntários entre 18 e 30 anos em quatro grupos: um deles tomou placebo e os outros uma dose única de 10 mg, 20 mg ou 40 mg de Ritalina. Em seguida, todos fizeram testes cognitivos. Segundo Silmara, o desempenho foi semelhante, independentemente de terem tomado o remédio ou da quantidade administrada, o que sugere que o medicamento não aprimora as funções neurais, apesar de os que ingeriram a dose de 40 mg relatarem maior sensação de bem-estar, o que é compreensível, pois a droga é um estimulante. 



Medicamentos “turbinadores” têm ganhado popularidade entre vestibulandos, adultos jovens que estão estudando para concursos ou em situações de grande pressão por resultados. A segurança da Ritalina como aprimorador neural não é comprovada e, no Brasil, ela é comercializada para esse fim de forma ilegal. Estudos sugerem, aliás, que o uso contínuo aumenta o risco de dependência, complicações cardiovasculares e, em um grupo restrito de pessoas, pode até piorar o desempenho cognitivo.

Fonte:
Mente e Cérebro

Enxaqueca em crianças

Entrevista com a Dra. Thaís Rodrigues Villa sobre enxaqueca em crianças brasileiras e o risco de distúrbios de ansiedade, depressão e déficit de atenção.


Tratamento para TDAH desacelera o crescimento na puberdade, diz estudo

 
O ganho de peso e o aumento da altura de jovens que fizeram uso de medicamentos estimulantes parecem ser menores do que os de adolescentes da mesma idade que não tomaram os remédios
 
Um estudo realizado na Universidade de Sydney, na Austrália, descobriu que o tratamento prolongado com remédios contra o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) pode diminuir a taxa de crescimento de adolescentes durante a puberdade. No entanto, segundo os autores, isso não significa que os adolescentes não conseguirão alcançar tamanho e peso normais na idade adulta. Os resultados foram publicados nesta semana no periódico The Medical Journal of Australia.
 
A equipe de pesquisadores, coordenada por Alison Poulton, se baseou nos dados de 65 jovens de 12 a 15 anos da idade que já haviam sido submetidos ao tratamento contra TDAH com medicamentos estimulantes durante uma média de 6,3 anos. Os pesquisadores também levaram em consideração as informações de outros 174 adolescentes que nunca haviam feito uso desse tipo de remédio.
 
De acordo com o estudo, a média da taxa de desenvolvimento físico (altura e peso) dos jovens antes de uma parte deles iniciar o tratamento contra TDAH não apresentou diferenças. No entanto, a pesquisa concluiu que adolescentes de 12 a 13 anos que fizeram o uso dos medicamentos estimulantes por mais de três anos cresceram três centímetros menos do que a média para essa fase da vida. Além disso, os participantes de 14 a 15 anos cresceram menos e ganharam menos peso do que a média para a faixa etária.
 
Para Alison, os médicos deveriam tomar cuidado com a dose dos remédios na hora de receitar um tratamento a um jovem com TDAH para evitar ao máximo um efeito negativo no desenvolvimento juvenil. A pesquisadora reforça ainda que, embora o crescimento dos adolescentes tratados contra o transtorno possa ser menor na puberdade, outros estudos já mostraram que esses indivíduos são capazes de atingir peso e altura semelhantes a de seus pais e irmãos na idade adulta.
 
Fonte: Veja

EUA: novos casos de TDAH cresceram 24% em dez anos

Estudo feito com mais de 800.000 crianças é mais um que indica o aumento do número de crianças que vêm sendo diagnosticadas com o transtorno
 
 
Um estudo feito com mais de 800.000 crianças americanas mostrou que, entre 2001 e 2010, o número de novos casos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) registrados nos Estados Unidos aumentou 24%. A pesquisa, publicada nesta segunda-feira na revista JAMA Pediatrics, acrescenta evidências consistentes para levantamentos anteriores que já haviam indicado esse quadro. Um trabalho divulgado no ano passado, por exemplo, concluiu que a quantidade de crianças diagnosticadas com o problema aumentou 66% em dez anos no país.
 
O novo estudo, desenvolvido por pesquisadores da Kaiser Permanente, uma organização sem fins lucrativos, se baseou nos registros médicos de 824.830 crianças de cinco a 11 anos da Califórnia. As informações selecionadas pela pesquisa foram recolhidas entre 2001 e 2011.
 
Meninos - De acordo com a pesquisa, entre todas as crianças que participaram do estudo, 5% haviam recebido o diagnóstico de TDAH em algum momento da vida. Além disso, 2,5% dos jovens com o transtorno foram diagnosticados em 2001 e, em 2010, essa taxa subiu para 3,1% — um aumento de 24% no número de novos casos. O estudo ainda mostrou que o diagnóstico de TDAH é três vezes mais comum entre meninos do que entre meninas.
 
Os autores do estudo não souberam definir quais fatores levaram a esse aumento, mas acreditam que um deles possa ser o fato de que pais e médicos estão mais conscientes da condição, além de também estarem mais ansiosos para que o problema de uma criança seja diagnosticado. O aumento do acesso à saúde da população também pode ajudar a explicar esse dado. No entanto, os profissionais devem ficar atentos ao excesso de diagnóstico, afirmam os pesquisadores.
 
Fonte: Veja

Cresce 75% uso de droga para hiperatividade no Brasil

Estudo da Anvisa afirma que número aumentou entre crianças de seis a 16 anos
 
Um levantamento feito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostrou que o consumo do medicamento metilfenidato, usado para o tratamento de hiperatividade, cresceu 75% de 2009 a 2011 por crianças com idades entre seis a 16 anos. A pesquisa teve como base os dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) e mostra ainda que, entre a população de 16 a 59 anos, o crescimento do consumo do remédio foi de 27,4% - apesar de mais baixo, também é considerado um aumento expressivo.

O estudo indica uma estreita relação entre o padrão de uso do metilfenidato e as atividades escolares. A prescrição cai durante as férias e é significativamente maior no segundo semestre. Em 2011, por exemplo, o consumo médio brasileiro no primeiro semestre foi de 19,7 caixas para cada mil crianças. Entre agosto e dezembro, a média subiu para 26,6 caixas por mil.

Membros da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (Abenepi) afirmam que os números podem ter aumentado por conta de uma melhora no diagnóstico desse tipo de doença. Por outro lado, a droga pode estar sendo usada de forma inadequada por jovens em busca de melhor rendimento em concursos públicos ou vestibulares.

O metilfenidato é vendido no Brasil com três nomes comerciais diferentes. Em 2009 foram prescritas 557.588 caixas do remédio. Em 2011, o número saltou para 1.212.855. Apenas oito estados brasileiros registraram queda na prescrição: Acre, Pará, Tocantins, Alagoas, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro. Já o Distrito Federal registrou o maior consumo do produto em 2011: foram 114,59 caixas a cada mil habitantes, enquanto em 2009 a média era de 59,42.

O trabalho demonstrou, porém, que alguns profissionais prescreveram uma quantidade do medicamento bem acima da média dos colegas.Os pesquisadores afirmam que os dados da pesquisa foram repassados para vigilâncias estaduais, a fim de identificar indícios de abuso da substância.

Veja como melhorar a vida de um filho com TDAH
Mais notado em crianças, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, também conhecido como
TDAH, causa uma série de complicações no aprendizado e no convívio com outras pessoas. "Esse transtorno é uma condição grave que se caracteriza por um padrão crônico de desatenção, hiperatividade e impulsividade, podendo afetar seriamente a qualidade de vida", afirma a psicoterapeuta Evelyn Vinocur, especialista do Minha Vida e membro da Associação Brasileira de Déficit de Atenção. Caso seu filho seja diagnosticado com TDAH, o melhor é seguir com o acompanhamento médico e o tratamento medicamentoso indicado. No entanto, Evelyn Vinocour afirma que é possível tornar a rotina da criança mais fácil seguindo essas dicas simples:
 
1- Quando estabelecer regras, faça de modo simples e específico. De preferência, escreva as regras em pequenos adesivos em locais de fácil visão para o seu filho. Além disso, é importante dar um feedback com frequência, para que seu filho saiba como está seu comportamento e se está agindo de forma adequada. "Nas horas de impor disciplina, não fale muito nem faça rodeios: responda com clareza e ação apropriada", diz a psicoterapeuta Evelyn.
2- Recompensas objetivas e que façam sentido geralmente funcionarão melhor para o seu filho - mas tome cuidado com os excessos. Algumas situações como terminar a lição de casa ou guardar os brinquedos depois do momento de lazer podem ser recompensadas de alguma forma.
3- Ajude seu filho a mudar de modo suave e gradativo, planejando com antecedência as atividades que virão posteriormente. Isso ajuda a manter o ritmo e prender sua atenção, já que ele sempre estará preparado para a atividade que vem a seguir.
4- Mantenha o senso de humor e seja paciente: com humor, você terá condições de evitar conflitos. "Entenda que a criança nem sempre compreenderá de primeira e que muitas vezes terá dificuldade para encarar ou realizar determinadas tarefas", afirma a psicoterapeuta Evelyn. Ao encarar isso com bom humor e de maneira calma, o ambiente se torna menos conflitante e mais propício ao aprendizado correto.
 
5- Fique atento a todas as oportunidades para elogiar e faça reforços positivos sempre que seu filho fizer algo corretamente. "No entanto, tenha cuidado para não exagerar na comemoração em acertos menores, pois ele irá perceber e pode pensar que é uma felicidade forçada", diz a psicoterapeuta Evelyn.
6- Tenha sempre em mente que você está lidando com uma condição médica e que seu filho não tem uma falha de caráter. "Espere que a criança tenha dias bons e dias ruins e encare isso como momentos pelos quais vocês devem passar", completa a psicoterapeuta Evelyn.
 
7- Lembre-se que culpar o seu filho, seu cônjuge ou você mesmo não irá ajuda em nada. "Todos vocês estão juntos, no mesmo barco, e fazendo o melhor que podem", diz Evelyn Vinocur
Fonte: MSN

Estudo da Unifesp derruba mito de que Ritalina 'turbina' cérebros saudáveis

 
Conhecida como 'pílula da inteligência', a droga tem sido usada por estudantes que querem melhorar o desempenho acadêmico; pesquisa revela que medicamento não beneficia a atenção nem a memória; remédio costuma ser obtido no mercado negro
 
A Ritalina não promove melhora cognitiva em pessoas saudáveis. Indicada para transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), ela tem sido usada por estudantes que buscam melhor desempenho em provas e concursos. Apesar da fama - que lhe rendeu o apelido de "pílula da inteligência" ou "droga dos concurseiros" -, uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que o medicamento não beneficia a atenção, a memória e as funções executivas (capacidade de planejar e executar tarefas) em jovens sem o transtorno.
A psicóloga Silmara Batistela, autora do estudo, decidiu investigar o tema ao perceber a popularização da prática de doping mental. "É muito comum ouvir o relato de pessoas que, para passar a noite estudando antes da prova, tomam Ritalina", diz. O objetivo da pesquisadora era avaliar se o consumo do medicamento, cujo princípio ativo é o cloridrato de metilfenidato, realmente trazia vantagens cognitivas.
Para a pesquisa, foram selecionados 36 jovens saudáveis de 18 a 30 anos. Eles foram divididos aleatoriamente em quatro grupos: um deles tomou placebo e os outros três receberam uma dose única de 10 mg, 20 mg ou 40 mg da medicação. Depois de tomarem a pílula, os participantes foram submetidos a uma série de testes que avaliaram atenção, memória operacional e de longo prazo e funções executivas. O desempenho foi semelhante nos quatro grupos, o que demonstrou a ineficácia da Ritalina em "turbinar" cérebros saudáveis.
"O uso não alterou a função cognitiva. A única diferença que observamos foi que os que tomaram a dose maior, de 40 mg, relataram uma sensação subjetiva de bem-estar maior em comparação aos demais", diz Silmara.
Perigos. O psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Unifesp, observa que o mito de que a Ritalina teria o potencial de tornar alguém mais inteligente não faz sentido. "A pessoa fala que consegue estudar a noite inteira com o remédio. Isso é porque ela fica acordada e não porque tem uma melhora na atenção", diz. Ele observa que o aprendizado sob o efeito da droga consumida inadequadamente é de má qualidade.
Silveira destaca que existem perigos relacionados ao uso inadequado do medicamento. O consumo aumenta os riscos de problemas do coração e pode levar a um quadro de arritmia cardíaca. O especialista acrescenta que, tratando-se de uma anfetamina, a droga apresenta também um potencial de abuso, razão pela qual é controlada e só pode ser comprada com receita especial.
A alternativa para os que resolvem usar a Ritalina sem ter indicação é recorrer ao mercado negro. Estudantes relatam que não é difícil encontrar fornecedores anunciando o produto em fóruns de discussão na internet.
Um estudante de Economia de 22 anos, que preferiu não se identificar, conta que soube dos efeitos da Ritalina por um amigo. "Ouvi falar de uma droga que todos universitários estavam usando na Europa e nos Estados Unidos para aumentar a concentração. Li sobre seus efeitos colaterais, para o que servia e, como sempre me achei um pouco hiperativo, resolvi experimentar."
As duas primeiras caixas foram compradas de um conhecido. Depois, encontrou um fornecedor na internet que atende aos pedidos dele e de seus amigos. "A gente pede de uma vez só várias caixas." Para o universitário, que toma o remédio para estudar aos fins de semana ou à noite, quando pretende varar a madrugada entre os livros, a principal vantagem é tirar o sono. "O ganho está nas horas a mais que estudo na madrugada."
Segundo ele, também há um aumento na concentração e na atenção. "Não fiquei mais inteligente, mas meu tempo de dedicação aos estudos aumentou", relata. Ele, que foi um dos primeiros entre seus amigos a usar o recurso, conta que hoje conhece cerca de 15 pessoas que aderiram.
Um de seus amigos, também estudante de Economia, conta que aderiu à pílula por ter dificuldade de ler textos longos. "Eu começo a me dispersar no meio deles. Como trabalho o dia inteiro, acaba me faltando tempo para conseguir ler volumes grandes." Para ele, a Ritalina o ajuda a ler bastante sem se dispersar.
Encenação. Outra estratégia que tem sido adotada para obter o remédio é simular os sintomas do TDAH na esperança de ganhar uma receita. O neuropediatra Paulo Alves Junqueira, membro da Academia Brasileira de Neurologia (Abneuro), conta que tem existido essa demanda, principalmente entre os concurseiros. "O médico precisa ter a habilidade de identificar esses casos: o TDAH não vem de uma hora para outra. É um transtorno incapacitante que acompanha o paciente ao longo da vida."
Segundo levantamento feito pelo Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma) a pedido do Estado, houve um crescimento de quase 50% na venda de remédios à base de cloridrato de metilfenidato no Brasil entre 2008 e 2012. Entre setembro de 2007 e outubro de 2008 foram vendidas 1.238.064 caixas, enquanto entre setembro de 2011 e outubro de 2012 as vendas cresceram para 1.853.930 caixas. Nesse intervalo, os valores gastos com a medicação passaram de R$ 37.838.247 para R$ 90.719.793.
 
Fonte: Estadão 

Falta de oxigenação cerebral em fetos aumenta o risco de TDAH

O problema eleva essa chance, em média, em 16%, mas a probabilidade pode ser maior dependendo do fator que desencadeia a privação de oxigênio
 
Feto: Problema de falta de oxigenação no cérebro pode aumentar o risco de déficit de atenção
 
A falta de oxigenação no cérebro de um bebê que está no útero materno pode aumentar o risco de essa criança desenvolver transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ao longo da infância. O estudo, realizado pelo Departamento de Pesquisa e Avaliação da Kaiser Permanente, uma organização sem fins lucrativos, contribui com outras evidências de que os fatores que levam à desordem vão além dos genéticos, que são os mais conhecidos. Os resultados foram publicados nesta segunda-feira na revista Pediatrics.
 
A pesquisa analisou os dados de 82.000 crianças de cinco anos da idade. Os resultados revelaram que a privação de oxigênio no cérebro de um feto aumenta, em média, em 16% o risco de TDAH na infância. Se a falta de oxigênio ocorre em decorrência de uma síndrome da angústia respiratória (lesão pulmonar em que os alvéolos dos pulmões do bebê não permanecem abertos), essa chance pode ser 47% maior; e, se o problema ocorre devido a um quadro de pré-eclâmpsia (quando há um aumento da pressão arterial e edemas na grávida), 34% maior.
 
O estudo também mostrou que a associação entre hipóxia cerebral e TDAH foi mais forte em partos prematuros. "Nossas descobertas podem ter implicações clínicas importantes. Elas podem, por exemplo, ajudar os médicos a identificar recém-nascidos com maior risco de apresentar TDAH e beneficiá-los com diagnóstico precoce e acompanhamento adequado", diz Darios Getahun, coordenador do estudo.
 
Fonte: Veja

No país, 625 mil crianças com déficit de atenção não são diagnosticadas

Pesquisadores avaliaram 6,3 mil menores de 5 a 12 anos em 18 Estados.
 

TDAH pode prejudicar as relações sociais e tarefas simples, diz médico.
Pelo menos 912 mil crianças brasileiras de 5 a 12 anos - o equivalente a 3,3% da população infantil, segundo o IBGE - possuem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mas nunca trataram. Outros 625 mil menores, 2,3% do total, nem sabem que têm a doença.
Esse é o resultado de um estudo realizado por psiquiatras e neurologistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Albert Einstein College of Medicine, nos Estados Unidos, e do Instituto Glia em Neurociência de Ribeirão Preto (SP).
A pesquisa avaliou uma amostra composta por 6.303 crianças nessa faixa etária em 87 cidades brasileiras, através de questionários aplicados aos pais e professores. A conclusão, apesar de ainda não ter sido publicada, já foi apresentada e premiada em congressos internacionais sobre TDAH.
O neurologista Marco Antônio Arruda explica que os índices preocupam os especialistas na medida em que o distúrbio pode prejudicar as relações sociais e a realização de atividades consideradas simples, porque os pacientes têm muita energia, não conseguem ficar parados ou tomar decisões importantes.
Arruda afirma que crianças com TDAH, por exemplo, têm risco sete vezes maior de sofrerem acidentes domésticos e nove vezes mais chances de serem hospitalizadas por contusões e fraturas, do que jovens da mesma idade que não possuem a doença.
“Quando chegam à Universidade, eles menos frequentemente terminam o curso. Na vida adulta, [essas pessoas] têm menor chance de emprego em tempo integral, maior risco de divórcio e suicídio”, disse.
"Nem toda criança que não para quieta tem TDAH"
Marco Antônio Arruda
Sintomas
O TDAH é caracterizado por uma disfunção no córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável pela tomada de decisão, planejamento de ações e controle das emoções. Os sintomas do distúrbio são desatenção, dificuldade de planejar, montar estratégias e controlar as emoções, falta de organização, hiperatividade e impulsividade.
“Esses sintomas se combinam em graus diferentes de um paciente para outro. Nas meninas, esses dois últimos não aparecem muito porque são características mais ligadas ao sexo”, afirma o neurologista.
Além disso, Arruda alerta que os sintomas devem aparecer em todas as situações da vida da criança e não apenas em um único contexto. “A confusão está justamente no diagnóstico, porque ele deve ser feito através de diversos critérios clínicos. O TDAH não é um problema apenas de sala de aula. Nem toda criança que não para quieta tem TDAH”, disse.
Tratamento
Ao contrário do que se imagina, o tratamento para TDAH deve ser feito com uso de anfetaminas e estimulantes. O neurologista explica que a ministração de calmantes causa o efeito contrário, ou seja, a criança se torna ainda mais hiperativa. "Muitos pais dizem: 'Por isso que em dei antialérgico e ele ficou sem dormir a noite inteira.' Dando estimulante, você faz o 'breque' que existe no cérebro voltar funcionar corretamente", ilustra Arruda.
O médico afirma, porém, que o tratamento deve ser individualizado e contar com o apoio de uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, educadores, fonoaudiólogos, entre outros profissionais.
Apesar de o distúrbio ser herdado geneticamente, Arruda diz que o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura. "Existe forma dos pais serem orientados para ajudar essas crianças a organizarem melhor suas vidas em casa, na escola, no dia a dia."
 Fonte G1

Pesquisa relaciona TDAH na infância ao tabagismo

Segundo estudo canadense, uma mesma variação genética aumenta o risco tanto do transtorno quando do hábito de fumar durante a vida.
 
Tabagismo: Crianças que têm transtorno de hiperatividade são mais propensas a fumar ao longo da vida,
 diz estudo
(Thinkstock)
 
Crianças que apresentam comportamentos associados ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) são mais propensas fumar ao longo da vida do que aquelas que não têm o distúrbio. Essa é a conclusão de um estudo publicado nesta segunda-feira na revista Archives of Disease in Childhood. Segundo a pesquisa, isso ocorre pois uma mesma variação genética eleva os riscos tanto de TDAH quando de tabagismo.
 
Para chegar a esses resultados, o estudo, desenvolvido na Universidade McGill, no Canadá, selecionou 454 crianças de seis a 12 anos que haviam recebido o diagnóstico de TDAH. A equipe analisou o material genético dos participantes — especificamente cinco genes cujas variações já foram associadas diversas vezes a hábitos de tabagismo, como ao consumo de mais cigarros ao dia ou à dificuldade de parar de fumar. Com isso, os autores queriam descobrir se algum desses genes também estava ligado ao TDAH.
 
Os pesquisadores também coletaram amostras de sangue dos pais dessas crianças para identificarem se as variantes genéticas eram herdadas. Além disso, a equipe entrevistou a maioria das mães dessas crianças para avaliar se esses jovens apresentavam problemas em casa e na escola e, por meio de testes, os autores também analisaram a capacidade intelectual de cada um.
 
Mais cigarros — Segundo o estudo, das cinco variações genéticas analisadas, apenas uma — que está relacionada ao maior número de cigarros consumidos por dia — foi associada ao TDAH. Essa variante foi mais provável de ser herdada dos pais e está ligada a casos mais graves do transtorno e a notas menores nos testes de avaliação intelectual.
 
Em um editorial que acompanhou o estudo, Miriam Cooper, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha, afirmou que é preciso ter cautela na hora de interpretar esses resultados. “A pesquisa deve ser interpretada apenas como uma probabilidade teórica até que seja aplicada em trabalhos maiores”, diz. “Porém, esse é um ponto intrigante a ser investigado. Os dados poderiam ajudar a explicar o motivo pelo qual diferentes comportamentos e desordens, como TDAH e tabagismo, estão relacionados.”
 
Fonte: Veja

Estudantes pobres nos EUA tentam melhorar notas com remédio para deficit de atenção

ALAN SCHWARZDO 'NEW YORK TIMES', EM CANTON, GEÓRGIA
 
Quando o médico Michael Anderson fica sabendo que seus pacientes de baixa renda estão enfrentando dificuldades na escola primária, geralmente lhes receita um medicamento forte: Adderall.
 
Os comprimidos aumentam a atenção e o controle de impulsos de crianças que apresentam transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Embora o TDAH seja o que Anderson diagnostica, ele descreve o transtorno como "inventado", dizendo que não passa de uma desculpa para receitar pílulas para tratar o que ele vê como sendo o verdadeiro mal das crianças: desempenho acadêmico fraco em escolas inadequadas.
 
"Não tenho muita escolha", disse Anderson, que é pediatra e atende muitas famílias pobres no condado de Cherokee, ao norte de Atlanta (EUA).
 
"Nós, como sociedade, decidimos que custa caro demais modificar o ambiente da criança. Logo, temos que modificar a criança."
 
Anderson é um dos proponentes mais francos de uma ideia que vem suscitando interesse entre alguns médicos. Eles estão prescrevendo estimulantes a alunos que enfrentam dificuldades em escolas às quais faltam recursos. Prescrevem os medicamentos não necessariamente para tratar um TDAH, mas para favorecer o desempenho acadêmico dos alunos.
Ainda não está claro se Anderson é representante de uma tendência crescente. Mas alguns especialistas observam que, enquanto estudantes ricos abusam de estimulantes para elevar suas notas já boas em faculdades e colégios, esses medicamentos vêm sendo usados com crianças do ensino básico, de famílias de baixa renda, que têm notas fracas e cujos pais estão ansiosos por vê-los ter aproveitamento escolar melhor.
 
"Nós, como sociedade, não nos dispomos a investir em intervenções não farmacêuticas muito boas para essas crianças e suas famílias", disse Ramesh Raghavan, pesquisador de serviços de saúde mental para crianças na Universidade de Washington e especialista no uso de medicamentos vendidos com receita médica entre crianças de baixa renda. "Concretamente, estamos forçando psiquiatras que atuam nas comunidades locais a usar a única ferramenta da qual dispõem: os medicamentos psicotrópicos."
 
A psiquiatra infantil Nancy Rappaport, de Cambridge, Massachusetts, que trabalha com crianças de renda mais baixa e suas escolas, acrescentou: "Estamos vendo isso cada vez mais. Estamos usando uma camisa de força química em vez de fazer coisas que são igualmente ou até mais importantes."
 
Anderson diz que seu instinto é de um "pensador de justiça social", alguém que quer "nivelar o campo um pouco". Ele diz que as crianças com problemas acadêmicos que ele atende estão, basicamente, em desarmonia com seu ambiente --são peças quadradas que não se encaixam nos furos redondos do ensino público. Como suas famílias raramente têm meios para pagar por terapias de base comportamental, como aulas particulares e atendimento psicológico à família, a medicação, segundo ele, torna-se o modo mais confiável e prático de redirecionar o aluno no sentido do sucesso.
 
"Não dou a medicação a alunos que estão tirando notas boas", ele explicou. Para alguns pais, o medicamento traz grande alívio. Jacqueline Williams disse que não consegue agradecer Anderson o suficiente por diagnosticar TDAH em seus filhos --Eric, 15 anos, Chekiara, 14, e Samhya, 11-- e prescrever Concerta, um estimulante de ação prolongada, a todos. Williams disse que cada um deles estava tendo dificuldade em ouvir as instruções dos professores e concentrar-se na lição de casa.
 
"Meus filhos não queriam tomar o remédio, mas falei a eles: 'Essas são suas notas quando vocês estão tomando, e essas são de quando não estão', e eles entenderam", ela contou, observando que o Medicaid cobre quase todos seus custos com o médico e os medicamentos.
 
Alguns especialistas não veem grande problema no fato de um médico responsável usar medicamentos contra TDAH para ajudar um estudante em dificuldades. Outros --mesmo alguns dos muitos, como Rappaport, que são a favor do uso de estimulantes no tratamento do TDAH clássico-- temem que os médicos estejam expondo as crianças a riscos físicos e psicológicos não justificados. Alguns efeitos colaterais relatados dos medicamentos já incluíram a supressão do crescimento, aumento da pressão sanguínea e, em casos raros, episódios psicóticos.
 
O transtorno, que se caracteriza por desatenção e impulsividade graves, é um diagnóstico psiquiátrico cada vez mais comum entre crianças e adolescentes americanos: em 2007, considerou-se que cerca de 9,5% dos americanos de 4 a 17 anos tinham o transtorno, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, ou 5,4 milhões de crianças e adolescentes.
 
A prevalência relatada do transtorno vem subindo constantemente há mais de uma década, com alguns médicos satisfeitos com seu reconhecimento amplo, enquanto outros receiam que o diagnóstico e os medicamentos para tratar o transtorno estejam sendo dados pouco criteriosamente, de modo que exclui terapias não medicamentosas.
 
O DEA (órgão dos EUA que fiscaliza medicamentos) classifica esses medicamentos como substâncias controladas de nível dois, porque são criadores de dependência. Segundo muitos especialistas, ainda não se conhecem bem os efeitos de longo prazo do uso dos medicamentos por períodos extensos. Alguns deles temem que as crianças possam se tornar dependentes dos remédios até a idade adulta, muito depois de quaisquer sintomas do TDAH terem se dissipado.
 
De acordo com diretrizes publicadas no ano passado pela Academia Americana de Pediatria, os médicos devem empregar uma de várias escalas de classificação comportamental, algumas das quais incluem dezenas de categorias, para se certificar de que a criança se enquadra apenas nos critérios do TDAH e não apresenta outra condição relacionada, como a dislexia ou o transtorno desafiador opositivo, em que raiva intensa é dirigida contra figuras de autoridade.
 
Mas um estudo publicado em 2010 no "Journal of Attention Disorders" sugeriu que pelo menos 20% dos médicos disseram não seguir esse protocolo quando fazem seus diagnósticos de TDAH, sendo que muitos seguem seus instintos pessoais.
 
Na estante da cozinha da família Rocafort, de Ball Ground, Geórgia, ao lado da manteiga de amendoim e dos cubos de caldo de galinha, há uma cesta metálica repleta de remédios das crianças prescritos por Anderson: Adderall para Alexis, de 12 anos, e Ethan, 9; Risperdal (um antipsicótico para a estabilização de estados de ânimo) para Quintn e Perry, ambos de 11 anos; e Clonidine (um sonífero para contrapor-se aos outros medicamentos) para as quatro crianças, que o tomam todas as noites.
 
Quintn começou a tomar Adderall para o TDAH cinco anos atrás, quando seu comportamento rebelde na escola suscitou telefonemas para sua casa e suspensões. Ele imediatamente se acalmou e tornou-se um aluno mais atento e sério --um pouco mais como Perry, que também tomava Adderall para o TDAH.
 
Mas no início do turbilhão químico da puberdade, quando Quintn tinha cerca de 10 anos de idade, ele começou a envolver-se em brigas na escola, dizendo que outras crianças estavam insultando sua mãe. O problema era que isso não estava acontecendo; Quintn estava vendo pessoas e ouvindo vozes inexistentes, um efeito colateral raro, mas conhecido, do Adderall. Depois de Quintn admitir ter pensamentos suicidas, Anderson prescreveu uma semana num hospital psiquiátrico local e a mudança de Adderall para Risperdal.
 
Quando contaram a história, os pais de Quintn o chamaram e pediram para ele descrever por que o Adderall tinha sido receitado.
 
"Para me ajudar a prestar atenção na escola, fazer minha lição de casa, ouvir mamãe e papai e não fazer o que eu fazia antes com meus professores, que os deixava bravos", falou o garoto. Ele descreveu a semana que passou no hospital e os efeitos do Risperdal: "Se eu não tomo meu remédio, fico tendo atitudes. Fico desrespeitando meus pais. Sem o remédio eu não estaria como estou agora."
 
Apesar da experiência de Quintn com o Adderall, os Rocafort decidiram usar o remédio com sua filha de 12 anos, Alexis, e seu filho de 9, Ethan. Eles não apresentam TDAH, disseram seus pais. O Adderall é apenas para ajudá-los a ter notas melhores e porque Alexis estava, nas palavras de seu pai, um pouco "nem aí com nada".
 
"Já vimos os dois lados do espectro: vimos o lado positivo e o lado negativo", comentou o pai, Rocky Rocafort. Reconhecendo que Alexis usa o Adderall por motivos "cosméticos", ele disse: "Se eles estão se sentindo positivos, felizes, estão socializando mais e isso os está ajudando, por que não usar?"
 
O pediatra e neurologista pediátrico William Graf, que atende muitas famílias pobres em New Haven, disse que uma família deve ter o direito de decidir se o Adderall pode beneficiar seu filho que não tenha TDAH e que um médico pode eticamente prescrever o medicamento de modo experimental, desde que os efeitos colaterais sejam monitorados atentamente. Mas ele disse temer que o uso crescente de estimulantes desse modo possa colocar em risco a "autenticidade do desenvolvimento".
 
"Essas crianças ainda estão na fase de desenvolvimento. Ainda não sabemos como essas drogas afetam biologicamente o cérebro em desenvolvimento", ele explicou. "Os pais, médicos e professores têm a obrigação de respeitar a questão da autenticidade, e não sei se isso está acontecendo sempre."
 
Anderson disse que todas as crianças para as quais já receitou medicamentos para TDAH se enquadraram nos critérios. Mas ele critica esses critérios, dizendo que foram codificados apenas "para fazer algo completamente subjetivo parecer objetivo". Ele acrescentou que os relatórios dos professores quase invariavelmente voltam citando comportamentos que justificariam um diagnóstico, decisão que descreveu como sendo mais econômica que médica.
 
"A escola disse que, se tivessem outras ideias, investiriam nelas, mas que as outras ideias custam dinheiro e recurso, comparadas com medicamentos", disse Anderson.
Vários educadores contatados para este artigo consideraram o tema do TDAH tão controverso que se negaram a comentar; disseram que às vezes é feito uso equivocado do diagnóstico, mas que, para muitas crianças, o transtorno gera uma deficiência grave de aprendizado. O superintendente de um grande distrito escolar na Califórnia, exigindo anonimato para falar, observou que os diagnósticos de TDAH vêm aumentando à medida que as verbas para o ensino vêm diminuindo.
 
"É assustador pensar que chegamos a isso, que a falta de verbas para o ensino público que possibilitem atender as necessidades de todas as crianças levou a isso", disse o superintendente, aludindo ao uso de estimulantes por crianças que não apresentam o TDAH clássico. "Isso pode estar acontecendo aqui mesmo. Talvez não tão conscientemente, mas pode ser consequência de um médico que vê uma criança sendo reprovada em salas de aula superlotadas com 42 outras crianças, e os pais frustrados perguntando o que podem fazer. O médico diz 'talvez seja TDAH, vamos experimentar com a medicação'."
 
Quando foi informado que o casal Rocafort afirma que seus dois filhos que estão tomando Adderall não têm TDAH e nunca tiveram, Anderson disse estar surpreso. Ele consultou as fichas das crianças e encontrou o questionário dos pais. Cada categoria que avalia a gravidade dos comportamentos associados ao TDAH tinha recebido escore cinco (o máximo), com a exceção de uma, com escore quatro.
 
"Esse é o motivo de minha angústia", disse Anderson. "A gente afixa um rótulo a uma coisa que não é binária --você a tem ou não. Não dizemos simplesmente que há um aluno que está tendo problemas na escola, problemas em casa e que provavelmente vai tentar um tratamento médico, prescrito pelo médico com a concordância dos pais."
 
"Podemos não conhecer os efeitos de longo prazo do remédio, mas conhecemos os custos no curto prazo do fracasso escolar, que são reais. Eu olho para a pessoa individual e como ela está agora. Sou médico do paciente, não da sociedade."
 
Tradução de Clara Allain
Fonte: Folha

TDAH na infância também causa problemas na idade adulta

Homens que apresentaram o transtorno na infância têm menores níveis de escolaridade, recebem menores salários e se divorciam mais, aponta estudo
 
Menos anos na escola, mais divórcio e menores salários: TDAH diagnosticado na infância
aumenta o risco desses problemas na vida adulta (Thinkstock)
 
Mesmo já adultos, homens que receberam o diagnóstico de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na infância apresentam menores níveis de escolaridade e econômico e piores quadros sociais do que aqueles que não foram atingidos pelo problema. Essa conclusão faz parte de uma pesquisa do Centro Médico Langone, em Nova York, nos Estados Unidos, que foi publicada nesta semana no periódico Archives of General Psychiatry.

 
O estudo acompanhou 136 homens que haviam sido diagnosticados com TDAH aos oito anos de idade com 136 participantes que não haviam apresentado o problema quando crianças. Todos tinham 41 anos. Os pesquisadores observaram que o grupo do TDAH tinha, em média, 2,5 anos a menos de estudo. Entre esses participantes, 31% não haviam completado o ensino médio e quase nenhum havia obtido um diploma de ensino superior, enquanto entre o grupo sem o transtorno apenas 3,7% não concluíram o colégio e 29,4% fizeram faculdade.
Além disso, o grupo do TDAH, embora em sua maioria estivesse empregado, recebia um salário anual, em média, 40.000 dólares mais baixo do que os outros participantes. Eles também se divorciaram mais (9,6% contra 2,9%), apresentaram mais problemas com abuso de substâncias químicas (14% contra 5%) e mais casos de transtornos de personalidade (16% contra zero). Não houve diferenças em relação a transtornos de ansiedade ou hospitalização. "Observamos que as múltiplas desvantagens causadas pelo TDAH na infância até a idade adulta começou na adolescência. Nossos resultados destacam a importância de um acompanhamento prolongado e tratamento de crianças com TDAH", concluiu o estudo.
 
Fonte: Veja